Minha 1º Experiência no Hotmart Fire

Querido diário,

Me joguei numa aventura nova, aventura essa que me levou até BH para viver três dias completamente inéditos!

Hotmart Fire é o maior evento de mercado digital da América Latina. A Hotmart, para quem não conhece, é uma plataforma de venda e compra de produtos digitais, como cursos online, e-books, mentorias etc. Sendo assim, o Hotmart Fire é um evento da Hotmart em que ocorrem várias palestras sobre esse meio, por exemplo: “Como crescer no digital”, “Inteligência Artificial”, entre outros assuntos correlatos.

Daí você me pergunta: “Mas o que esse evento tem a ver com você? Qual seu interesse em participar?”. Eu quero crescer cada vez mais no digital, então nada melhor do que me inserir nesse meio, além de, claro, conhecimento nunca ser demais, não é mesmo?!

Enfim, fui para BH na semana seguinte à minha ida a Salvador (nesse outro, tinha sido um Congresso de Sexualidade Humana), então foram duas semanas bem agitadas! O evento de Salvador não teve grandes novidades, por isso acabei não postando, mas esse da Hotmart, meus queridos, rendeu história pra contar! 😈

O evento ocorreu no Expominas. Um lugar gigantesco. Eu me hospedei no Hotel Ímpar Suítes, bem pertinho, pra não ter que acordar muito cedo. Dava uns 8 minutinhos de carro.

1º Dia de Evento

No meu primeiro dia, eu não soube desfrutar tanto dos benefícios de ter comprado a categoria VIP. Até para entrar eu fui para o lado errado, rs. Depois que passei pelo credenciamento e peguei minha pulseira e kit, fui direto para o palco principal. Nem explorei tanto o espaço e as ativações nesse primeiro momento, pois queria pegar o melhor lugar para assistir às palestras. Um benefício muito legal para quem estava na categoria VIP era ter acesso às cadeiras mais próximas do palco, o que achei maravilhoso, porque o espaço era mesmo gigantesco, e eu sempre gosto de sentar na frente e no meio.

Nesse momento, tive minha primeira interação com alguém no evento, um homem mais velho que estava sentado ao meu lado. Pedi que ele tirasse uma foto minha e iniciamos uma conversa.

Logo mais, teve o show de abertura, depois o fundador, JP Resende, palestrou primeiro e então iniciou a rodada de palestras em todos os cinco palcos ao mesmo tempo.

Por ser a minha primeira vez num evento desse porte, eu ainda não sabia que muitas pessoas iam para esses eventos não pelas palestras em si, mas para fazer networking. E eu, ingênua, me indagava: “Como as pessoas vão ter pausa para o almoço se as palestras ocorrem uma na sequência da outra o tempo todo?”. Pra mim, era um desperdício pensar em perder qualquer conteúdo.

Na hora que a fome bateu e precisei me ausentar da plateia, busquei por algum lugar confortável e não encontrei nada que me agradasse totalmente, sem me dar conta de que a categoria VIP dava acesso ao VIP LOUNGE, com bebida e comida à vontade. Acabei indo comer na área comum, na parte externa, onde estava quente e ensolarado, tendo ainda que pagar pela minha comida (que nem estava boa). Sério, às vezes eu me surpreendo comigo mesma, rs.

Vi muitas palestras interessantes, destaque para Hanah Franklin, Giovanna Antonelli (tirei foto com ela depois! 🤩), Ícaro de Carvalho e Gi Isquierdo (essa eu não curti muito o jeito que ela falava, berrando igual pastor de igreja, mas, ainda assim, comprei dois livros seus no último dia).

Quando as palestras acabaram, explorando mais o espaço, finalmente descobri o VIP Lounge quando já não tinha mais comida. E aí aquele homem, com quem eu fiz amizade mais cedo, me mandou mensagem no Instagram, querendo se encontrar para trocar sobre como tinha sido esse primeiro dia para ambos. Eu já não estava com tanta bateria social àquela altura — apesar de não ter interagido com ninguém além dele, ambientes muito cheios e barulhentos consomem minha energia —, mas topei encontrar mesmo assim, sabendo da importância de me relacionar com as pessoas no evento.

O SENHOR ‘SKIN DE CLIENTE’

Conversamos durante um tempo, até que anunciei que iria embora e ele me ofereceu carona. Numa situação de trabalho, eu jamais aceitaria entrar no carro de um estranho, mas, nas circunstâncias de estarmos num evento específico, acabei confiando. Foi meio estranho porque ele fazia muito o perfil de cliente que eu atendo: mais velho, calvo, aparentemente endinheirado (vi no seu Instagram que viajava bastante), mas em nenhum momento passou pela minha cabeça seduzir e converter para cliente, pois, além de eu ser meio tímida (não parece, eu sei), eu estava no evento como pessoa física e não CNPJ, então tomei cuidado para que fosse uma interação respeitosa, sem segundas intenções por parte dele.

Quando chegamos no meu hotel, quase saí do carro dando somente um tchau verbalmente, mas percebi que ele ia me cumprimentar com beijo no rosto e ficou no vácuo. Daí, para não deixá-lo sem graça, acabei me virando de volta e cumprimentando antes de sair do carro. Foi meio estranho, os dois estavam sem jeito.

Já no hotel, tomei aquele banho e me levei para jantar fora. Tinha pedido para o chat sugestões de restaurantes refinados e ele me indicou um chamado Glouton. Fui para lá e realmente achei o prato delicioso.

Arroz de Galinha do Restaurante Glouton
Arroz caldoso de Galinha do Restaurante Glouton

2º Dia de Evento

No segundo dia, eu já tive mais sorte. Quando entrei no elevador do hotel, topei com um rapaz (aparentava uns 38 anos). Reparei que ele também usava a pulseira do evento e comentei: “Ahh, você também tá indo pro Hotmart Fire?”. E ele, todo simpático, com pouca conversa já me ofereceu carona, dizendo que achava ter espaço no carro (ele iria com mais dois amigos). E lá vou eu entrando em mais um carro de estranhos, desta vez com três homens kkkk. Falando assim, soa mesmo estranho, mas tava todo mundo na vibe boa do evento, qualquer oportunidade de fazer networking não era desperdiçada.

*

Quando estou em eventos de outro contexto profissional, ainda rola uma confusão interna quando me perguntam o que eu faço. Eu digo que sou atriz, mas uma parte de mim quer falar da Sara, justamente pra trazer maior relevância no meio digital, mas falar da Sara envolve falar do mercado sexual em que atuo, o que não teria por que trazer essa conversa com três homens dentro de um carro. Falei que era Creator e atriz, e aí me questionaram se eu gravava conteúdos como atriz. Respondi que sim, mas que usava um pseudônimo de uma personagem que eu tinha criado. Como podem ver, encontrei uma forma elegante de falar sem falar exatamente. E, antes que me perguntassem qual o meu Instagram ou se aprofundassem no assunto, já tratei de devolver a pergunta sobre cada um deles. Quando chegamos no evento, me despedi (acabei nem pegando contato nesse momento) e rumei às pressas para uma palestra que começaria em breve.

Nesse segundo dia, eu desfrutei mais do evento. Estava mais sociável, mais confiante, mais blogueira, mais fotogênica. Inclusive, a foto de capa desse post foi tirada nesse dia, com o fotógrafo oficial do evento.

Não fiquei tão bitolada nas palestras e, numa das vezes em que estive na área VIP, até fui entrevistada por um jornalista da Globo (apareci no story do insta @globominas). Também vi “As Branquelas” chegando e ainda tive uma interação significativa com uma expert que trabalha com a Gabriela Bahia, sobre formas de criar conteúdo, edição de vídeo, enfim, uma troca realmente agregadora. Destaque para a palestra do Terry Crews (o Latrell de “As Branquelas”). Não consegui tirar foto com o Terry, mas com as branquelas rolou:

Agora, falando de interações com outras pessoas, tem alguém que eu conheci que renderá entretenimento nessa postagem, rs. Até gravei um vídeo no TikTok contando. (Se quiser saber do ocorrido num formato diferente, só clicar aqui.)

O CARIOCA CARECA

Durante uma das palestras, sentei-me do lado desse rapaz, 38 anos, que vou apelidar de “O Carioca Careca”. Muito simpático, começou a puxar assunto comigo no intervalo entre uma palestra e outra. Pouca conversa e já pediu meu Instagram. Saliento aqui que, para todas as pessoas que me conheceram no evento, eu sempre passava o meu insta pessoal (com exceção da mulher que trabalha com a Gabi Bahia; com ela me senti mais confortável de abrir minha trajetória e passei meus dois instas).

Quando o evento terminou, enquanto eu estava sentada na área VIP descansando os meus pezinhos, me preparando para iniciar a saga do Uber, o Carioca Careca me enviou uma mensagem pelo Instagram:

— O pessoal tá indo pra Savassi, anima?
— Super animo!

Mais tarde, quando já estava no hotel me arrumando para o tal happy hour, rolou um papo estranho, que me pareceu que ele estava tentando ter um encontro a sós comigo. Eu perguntei se as pessoas iriam jantar nesse lugar que iríamos, chamado Babel Bar e Restaurante, pois, se o intuito fosse só beber e conversar, eu preferiria jantar sozinha em um restaurante mesmo, que não fosse bar, e encontraria com eles depois:

Mandei o link para ver se ele conhecia ou me daria alguma referência da qualidade…

Não ficou parecendo que ele queria um jantar entre só nós dois? Ainda ofereceu de me buscar no hotel. Achei aquilo estranho, eu não estava vendo a nossa interação com outros olhos, do meu lado era só amizade mesmo.

Coincidentemente, chegamos ao mesmo tempo. Quem nos viu chegar com certeza pensou que fomos juntos. Me surpreendi com apenas mais dois casais na mesa. Achei que seria um rolê mais despojado, com bastante gente, mas foi muito tranquilo. Esses dois casais já se conheciam de outros carnavais e eram muito amigos.

Nesse evento, sempre que eu interagia com alguém, era muito comum perguntarem minha área de atuação e o motivo de eu estar ali, assim como o que eu esperava agregar na minha trajetória profissional com tal vivência. Com essas pessoas na mesa, eu fui mais ousada e falei sobre o meu plano de montar um curso online. Ao mesmo tempo em que eu quis falar sobre isso para mostrar uma relevância, no segundo seguinte entrei numa saia justa, quando perguntaram sobre o que seria o meu curso. Muita ingenuidade minha não considerar que eles iam querer saber mais a respeito. Me limitei a dizer “mercado sexual”, mas, quanto mais sucinta eu tentava ser, mais aflorava a curiosidade das pessoas, rs.

Mencionei saber de muitas mulheres que querem entrar no mercado sexual e, para que essas mulheres não caiam em ciladas com agenciadores e situações ruins, o meu curso seria voltado à redução de danos, dicas de segurança etc. Basicamente o que eu já faço na minha mentoria. Não comentei sobre a mentoria com eles, falei apenas do curso, mas já foi o suficiente para ficarem surpresos. Não externalizaram qualquer preconceito e, antes que eu desse seguimento, fui interrompida pelo garçom, que veio me avisar que o prato que eu pedi não tinha. Quando me voltei para eles, felizmente o assunto já tinha mudado. Salva pelo gongo, rs.

Os casais da mesa eram muito simpáticos e alegres. Uma dava curso de como fazer bolsas de crochê (o Instagram da marca dela tinha quase 600 mil seguidores), seu esposo e a outra mulher trabalhavam junto com ela, e o marido da outra mulher tinha uma empresa de organização de festas/eventos, além dele também atuar como o próprio animador da festa. Esse rapaz, confesso, achei um pouco inconveniente em alguns momentos, como, por exemplo, na hora de pagar a conta, em que ficou de gracinha com os garçons querendo desconto (eu tenho um ranço natural por quem pede desconto, rs), além de ter feito uma piadinha muito sem graça com o Carioca Careca sobre o tamanho da cabeça dele. Sabe aquela pessoa que sempre tem uma piada na manga? Pois então, esse tipo. Eu só sorria e acenava.

Acabei indo embora sozinha com o Carioca, já que ele me deu carona no seu Uber. Tínhamos desenvolvido um papo na mesa sobre a minha área de atuação, mencionei o meu blog (será que ele também tá lendo isso? Rs), e, como ele trabalha com tráfego pago, durante a conversa considerei contratar os seus serviços futuramente. Então, quando ele pediu para eu mandar o meu site e o meu insta profissional, achei que fosse por isso, para avaliar o meu potencial de alcance, sei lá.

Nos despedimos, saí do carro, entrei no hotel, rumei para o quarto e, enquanto eu tirava a minha maquiagem, ele me mandou uma mensagem no WhatsApp, me encaminhando a minha própria postagem:

E acrescentou: “Posso levar o vinho?”

Não gostei daquilo.

Me senti objetificada.

Não lhe enviei minha rede social com esse intuito.

Pensei em ignorar. Contudo, conversando com uma amiga minha em tempo real, decidi fazer dos limões a limonada. Já que ele estava a fim, então que virasse meu cliente. Eu não tinha intenção nenhuma de ficar com ninguém comprometido de graça.

Me chamou no meu número de trabalho, enviei as informações e ele levou 4 longos minutos para responder. Digitou eternamente. Até que:

Por um lado, achei bom, porque eu já tinha tirado a maquiagem e colocado minha roupa de dormir, mas, por outro, achei um grande papelão. Depois de toda aquela forçação de barra, xaveco e tentativas, o mínimo que eu esperava era alguém realmente disposto a fazer acontecer.

 3º e Último Dia de Evento

Justo no último dia, a minha bateria social estava no chinelo. Mas também, depois de dois dias intensos, meu corpo só queria que acabasse logo pra eu poder voltar pra casa descansar. Desfrutei das últimas palestras, destaque para Samer Agi (adorei a palestra dele!) e Andréa Vermont (a única palestra que abriu com um vídeo contando a história de vida da palestrante). E o mais interessante é que, quando você vai olhar o Instagram deles, são pessoas com milhões de seguidores e que eu nunca tinha ouvido falar. Impressionante como vivemos numa bolha.

Em algum momento enquanto eu assistia a essas palestras, de repente, enquanto olho para frente… “Peraí, eu conheço essa careca”. Reconheci o Carioca sentado na minha frente. Fiquei na dúvida se interagia ou não. Seria bom não encerrarmos com aquela interação chata da noite anterior, né? Me fiz ser notada e então nos cumprimentamos e conversamos como se nada tivesse acontecido. Gostei, pessoas adultas e maduras fazem assim.

Teve o show de encerramento, uma coisa belíssima. O fundador da Hotmart veio ao palco novamente, assim como no primeiro dia, e então chamou todos os funcionários que fizeram aquele evento acontecer para a frente do palco também. Uma multidão se formou, foi mesmo muito bonito. Depois, todo mundo se direcionou para a festa de encerramento, com muita bebida, música e animação.

A minha bateria social continuava baixa. Tentei dar uma animada com álcool, mas, mesmo depois de dois drinks, nada mudou. Então fui sentar e, ali sentada, refleti se deveria ir mais cedo para o hotel, ler um livro, tirar um cochilo, talvez? Mas uma parte de mim achava um desperdício eu ir embora e não aproveitar a festa.

O Carioca Careca veio interagir comigo algumas vezes, tentando me animar a irmos para a parte externa, onde tinha o palco e a banda cantava, mas eu realmente estava zero animada, nem eu estava me suportando.

Quando enfim tomei a decisão de ir embora, enquanto me direcionava para a saída, acabei avistando, no meio do caminho, aquele rapaz que eu conheci no elevador do hotel. Ele estava conversando com o outro rapaz que tava no carro naquele dia que peguei carona. Parei para interagir com eles, sem grandes ambições de continuar na festa, ia só conversar rapidamente e me despedir, mas, aos poucos, fui me animando.

Perguntei o que ele estava bebendo e comentei que já tinha bebido dois drinks que não fizeram efeito, e aí ele revelou que o segredo era pedir dose dupla de gin. Decidi aplicar a estratégia e me ausentei para pegar meu último drink. Depois que voltei para onde eles estavam, com meu mais novo drink calibrado em mãos, eles quiseram ir para a parte do palco e fui na onda.

O palco ficava naquela mesma área externa em que comi no primeiro dia, então se concentrava a maior parte das pessoas, pois todos tinham acesso. Encontrei o Carioca Careca novamente e fiquei intercalando entre esses grupos, já que não deu para juntar os dois, pois o cara do elevador também se juntou com outro grupo de pessoas.

A bebida subiu e o rolê ficou mais divertido. Pena que a festa acabou cedo, encerrou antes das 20h. Eu tinha ido ao banheiro e nem vi o evento encerrar. Só recebi a mensagem do Carioca Careca avisando que geral já tinha ido e me apressei em ir embora com ele, pois não queria ficar bêbada sozinha, à Deus dará, para conseguir um Uber.

Paralelamente, o cara do elevador estava com meu blazer e meus dois livros, recém-adquiridos, na sua bag (ele fez a gentileza de guardar quando descemos para o palco para eu não ter que ficar carregando), e ele tinha comentado que seu grupo iria para um after. Mas não o reencontrei antes de ir embora.

Enfim, fui de carona com o Carioca, que desta vez não me levou até o meu hotel. Eu que fui até o endereço do Airbnb em que ele estava hospedado e, de lá, da calçada mesmo, chamei o meu Uber.

Quando cheguei no hotel e entrei no quarto, recebi a mensagem do cara do elevador com o lugar que eles iriam para o after e, ao mesmo tempo, também recebi a mensagem do Carioca Careca tentando a sorte mais uma vez:

As mensagens apagadas eu consegui ler na hora. Ele dizia: “Não tem como negociarmos isso?” (provavelmente sobre a parte de ele ter que pagar), e depois: “Vamos aproveitar que o álcool está ativo”. E a última mensagem eu não vi o que era, já tinha capotado.

Só porque você é toda simpática, o cara acha que você tá dando mole… nem respondi.

*

Acordei por volta da meia-noite, com gosto de cachaça (gin, no caso) e fome. Lembrei das minhas coisas e mandei mensagem para o cara do elevador, a fim de resolver essa questão:

Eu devia ter combinado com ele na recepção do hotel, mas eu ainda tava meio zonza, não raciocinando direito. Só queria pegar as minhas coisas, pois o meu check-out já seria no dia seguinte.

O CARA DO ELEVADOR

Eu estava com meu camisetão da Taylor Swift e tive o cuidado de colocar um short por baixo, apesar de talvez parecer que eu estava sem nada, já que o camisetão se sobressaía. Ele foi até o meu quarto e conversamos um pouco ali na porta. Após um tempo de conversa, ele demonstrou desconforto por estar de pé, querendo apoiar sua bolsa no chão e se escorar na parede, o que me fez pensar se eu não estava sendo indelicada de não oferecer um lugar para ele se sentar. Mas onde ele se sentaria? Dentro do meu quarto? Pensei que talvez não tivesse problema, desde que eu deixasse a porta aberta, tipo uma visita rápida que veio papear.

Perguntei se ele queria sentar, olhei pra dentro do quarto, meio sem jeito de onde poderia acomodá-lo, que não fosse na cama, e aí avistei a cadeira. A princípio, pareceu que ele ia recusar, mas acrescentou que não queria me incomodar. Falei que tudo bem, mas aí, assim que ele entrou, eu precisei descer para pegar o meu iFood (nesse meio-tempo, tinha pedido um McDonald’s), daí deixei ele lá e desci sozinha.

Quando voltei, por força do hábito, entrei e acabei fechando a porta. Me sentei distante dele, comendo na mesa, e ele sentado na cama. Em alguns momentos, ele deu uma deitadinha e até falei que, se ele estivesse cansado, poderia ir, que tudo bem, e ele sempre acrescentando que pra ele tava de boa, desde que não estivesse me atrapalhando.

Aos poucos, comecei a ficar sem graça na presença dele, pois, em alguns momentos, ficávamos sem assunto e ele me encarava de um jeito que eu não sabia se tava tentando fazer pintar um clima. Fiquei me perguntando mentalmente: “Será que ele achou que eu chamei ele até aqui porque queria ficar com ele?”. Me arrependi de ter sugerido que ele entrasse, porque, parando pra analisar, ficou mesmo parecendo um convite para algo mais, mas, do meu lado, não era. Eu achei que estávamos na friend zone, por até mesmo ele ser casado.

Inclusive, em algum momento, até perguntei há quanto tempo ele era casado (disse 15 anos), para trazê-lo para a realidade de ele ser comprometido. Vendo que o clima ainda estava estranho, até soltei que estava sem graça, que tinha chamado ele ali só para papearmos mesmo, pois fiquei muito com a sensação de que criei nele uma expectativa de alguma coisa. Ele demonstrou compreender e concordar, mas continuava me encarando de um jeito que eu não soube decifrar.

Em algum momento, eu reclamei que não veio ketchup e ele se ofereceu para ir buscar na recepção. Daí, aproveitei para deixar a porta aberta e não mais fechar depois disso. Ele voltou sem o ketchup, portando duas cervejas. “Eu não bebo cerveja”, falei, frustrando mais uma vez as suas expectativas.

Ele não sabia que trabalho com sexo, então nem caberia eu falar que só transaria pagando, a situação já tava estranha demais. Nem terminei meu lanche e falei que estava com sono, que ia voltar a dormir. Ele se tocou e foi embora. Ainda fiquei me sentindo mal, como se a sem noção tivesse sido eu por tê-lo chamado, na inocência de achar que tal gesto não seria mal interpretado.

*

No dia seguinte, a caminho do aeroporto, peguei Uber com uma motorista que me contou toda a sua história de sofreguidão ao dar à luz seu filho. Foram tantas complicações no parto que não tive como não olhar para o seu relato com compaixão e um certo alívio por eu não ter esse sonho.

Aquela prosa foi a cereja do bolo de uma viagem que me rendeu altas reflexões sobre casamento, fidelidade e filhos.

No fim, só um pensamento reinava na minha cabeça:

“Ainda bem que eu sou solteira.”