Minha 1º Experiência no Hotmart Fire

Querido diário,

Me joguei numa aventura nova, aventura essa que me levou até BH para viver três dias completamente inéditos!

Hotmart Fire é o maior evento de mercado digital da América Latina. A Hotmart, para quem não conhece, é uma plataforma de venda e compra de produtos digitais, como cursos online, e-books, mentorias etc. Sendo assim, o Hotmart Fire é um evento da Hotmart em que ocorrem várias palestras sobre esse meio, por exemplo: “Como crescer no digital”, “Inteligência Artificial”, entre outros assuntos correlatos.

Daí você me pergunta: “Mas o que esse evento tem a ver com você? Qual seu interesse em participar?”. Eu quero crescer cada vez mais no digital, então nada melhor do que me inserir nesse meio, além de, claro, conhecimento nunca ser demais, não é mesmo?!

Enfim, fui para BH na semana seguinte à minha ida a Salvador (nesse outro, tinha sido um Congresso de Sexualidade Humana), então foram duas semanas bem agitadas! O evento de Salvador não teve grandes novidades, por isso acabei não postando, mas esse da Hotmart, meus queridos, rendeu história pra contar! 😈

O evento ocorreu no Expominas. Um lugar gigantesco. Eu me hospedei no Hotel Ímpar Suítes, bem pertinho, pra não ter que acordar muito cedo. Dava uns 8 minutinhos de carro.

1º Dia de Evento

No meu primeiro dia, eu não soube desfrutar tanto dos benefícios de ter comprado a categoria VIP. Até para entrar eu fui para o lado errado, rs. Depois que passei pelo credenciamento e peguei minha pulseira e kit, fui direto para o palco principal. Nem explorei tanto o espaço e as ativações nesse primeiro momento, pois queria pegar o melhor lugar para assistir às palestras. Um benefício muito legal para quem estava na categoria VIP era ter acesso às cadeiras mais próximas do palco, o que achei maravilhoso, porque o espaço era mesmo gigantesco, e eu sempre gosto de sentar na frente e no meio.

Nesse momento, tive minha primeira interação com alguém no evento, um homem mais velho que estava sentado ao meu lado. Pedi que ele tirasse uma foto minha e iniciamos uma conversa.

Logo mais, teve o show de abertura, depois o fundador, JP Resende, palestrou primeiro e então iniciou a rodada de palestras em todos os cinco palcos ao mesmo tempo.

Por ser a minha primeira vez num evento desse porte, eu ainda não sabia que muitas pessoas iam para esses eventos não pelas palestras em si, mas para fazer networking. E eu, ingênua, me indagava: “Como as pessoas vão ter pausa para o almoço se as palestras ocorrem uma na sequência da outra o tempo todo?”. Pra mim, era um desperdício pensar em perder qualquer conteúdo.

Na hora que a fome bateu e precisei me ausentar da plateia, busquei por algum lugar confortável e não encontrei nada que me agradasse totalmente, sem me dar conta de que a categoria VIP dava acesso ao VIP LOUNGE, com bebida e comida à vontade. Acabei indo comer na área comum, na parte externa, onde estava quente e ensolarado, tendo ainda que pagar pela minha comida (que nem estava boa). Sério, às vezes eu me surpreendo comigo mesma, rs.

Vi muitas palestras interessantes, destaque para Hanah Franklin, Giovanna Antonelli (tirei foto com ela depois! 🤩), Ícaro de Carvalho e Gi Isquierdo (essa eu não curti muito o jeito que ela falava, berrando igual pastor de igreja, mas, ainda assim, comprei dois livros seus no último dia).

Quando as palestras acabaram, explorando mais o espaço, finalmente descobri o VIP Lounge quando já não tinha mais comida. E aí aquele homem, com quem eu fiz amizade mais cedo, me mandou mensagem no Instagram, querendo se encontrar para trocar sobre como tinha sido esse primeiro dia para ambos. Eu já não estava com tanta bateria social àquela altura — apesar de não ter interagido com ninguém além dele, ambientes muito cheios e barulhentos consomem minha energia —, mas topei encontrar mesmo assim, sabendo da importância de me relacionar com as pessoas no evento.

O SENHOR ‘SKIN DE CLIENTE’

Conversamos durante um tempo, até que anunciei que iria embora e ele me ofereceu carona. Numa situação de trabalho, eu jamais aceitaria entrar no carro de um estranho, mas, nas circunstâncias de estarmos num evento específico, acabei confiando. Foi meio estranho porque ele fazia muito o perfil de cliente que eu atendo: mais velho, calvo, aparentemente endinheirado (vi no seu Instagram que viajava bastante), mas em nenhum momento passou pela minha cabeça seduzir e converter para cliente, pois, além de eu ser meio tímida (não parece, eu sei), eu estava no evento como pessoa física e não CNPJ, então tomei cuidado para que fosse uma interação respeitosa, sem segundas intenções por parte dele.

Quando chegamos no meu hotel, quase saí do carro dando somente um tchau verbalmente, mas percebi que ele ia me cumprimentar com beijo no rosto e ficou no vácuo. Daí, para não deixá-lo sem graça, acabei me virando de volta e cumprimentando antes de sair do carro. Foi meio estranho, os dois estavam sem jeito.

Já no hotel, tomei aquele banho e me levei para jantar fora. Tinha pedido para o chat sugestões de restaurantes refinados e ele me indicou um chamado Glouton. Fui para lá e realmente achei o prato delicioso.

Arroz de Galinha do Restaurante Glouton
Arroz caldoso de Galinha do Restaurante Glouton

2º Dia de Evento

No segundo dia, eu já tive mais sorte. Quando entrei no elevador do hotel, topei com um rapaz (aparentava uns 38 anos). Reparei que ele também usava a pulseira do evento e comentei: “Ahh, você também tá indo pro Hotmart Fire?”. E ele, todo simpático, com pouca conversa já me ofereceu carona, dizendo que achava ter espaço no carro (ele iria com mais dois amigos). E lá vou eu entrando em mais um carro de estranhos, desta vez com três homens kkkk. Falando assim, soa mesmo estranho, mas tava todo mundo na vibe boa do evento, qualquer oportunidade de fazer networking não era desperdiçada.

*

Quando estou em eventos de outro contexto profissional, ainda rola uma confusão interna quando me perguntam o que eu faço. Eu digo que sou atriz, mas uma parte de mim quer falar da Sara, justamente pra trazer maior relevância no meio digital, mas falar da Sara envolve falar do mercado sexual em que atuo, o que não teria por que trazer essa conversa com três homens dentro de um carro. Falei que era Creator e atriz, e aí me questionaram se eu gravava conteúdos como atriz. Respondi que sim, mas que usava um pseudônimo de uma personagem que eu tinha criado. Como podem ver, encontrei uma forma elegante de falar sem falar exatamente. E, antes que me perguntassem qual o meu Instagram ou se aprofundassem no assunto, já tratei de devolver a pergunta sobre cada um deles. Quando chegamos no evento, me despedi (acabei nem pegando contato nesse momento) e rumei às pressas para uma palestra que começaria em breve.

Nesse segundo dia, eu desfrutei mais do evento. Estava mais sociável, mais confiante, mais blogueira, mais fotogênica. Inclusive, a foto de capa desse post foi tirada nesse dia, com o fotógrafo oficial do evento.

Não fiquei tão bitolada nas palestras e, numa das vezes em que estive na área VIP, até fui entrevistada por um jornalista da Globo (apareci no story do insta @globominas). Também vi “As Branquelas” chegando e ainda tive uma interação significativa com uma expert que trabalha com a Gabriela Bahia, sobre formas de criar conteúdo, edição de vídeo, enfim, uma troca realmente agregadora. Destaque para a palestra do Terry Crews (o Latrell de “As Branquelas”). Não consegui tirar foto com o Terry, mas com as branquelas rolou:

Agora, falando de interações com outras pessoas, tem alguém que eu conheci que renderá entretenimento nessa postagem, rs. Até gravei um vídeo no TikTok contando. (Se quiser saber do ocorrido num formato diferente, só clicar aqui.)

O CARIOCA CARECA

Durante uma das palestras, sentei-me do lado desse rapaz, 38 anos, que vou apelidar de “O Carioca Careca”. Muito simpático, começou a puxar assunto comigo no intervalo entre uma palestra e outra. Pouca conversa e já pediu meu Instagram. Saliento aqui que, para todas as pessoas que me conheceram no evento, eu sempre passava o meu insta pessoal (com exceção da mulher que trabalha com a Gabi Bahia; com ela me senti mais confortável de abrir minha trajetória e passei meus dois instas).

Quando o evento terminou, enquanto eu estava sentada na área VIP descansando os meus pezinhos, me preparando para iniciar a saga do Uber, o Carioca Careca me enviou uma mensagem pelo Instagram:

— O pessoal tá indo pra Savassi, anima?
— Super animo!

Mais tarde, quando já estava no hotel me arrumando para o tal happy hour, rolou um papo estranho, que me pareceu que ele estava tentando ter um encontro a sós comigo. Eu perguntei se as pessoas iriam jantar nesse lugar que iríamos, chamado Babel Bar e Restaurante, pois, se o intuito fosse só beber e conversar, eu preferiria jantar sozinha em um restaurante mesmo, que não fosse bar, e encontraria com eles depois:

Mandei o link para ver se ele conhecia ou me daria alguma referência da qualidade…

Não ficou parecendo que ele queria um jantar entre só nós dois? Ainda ofereceu de me buscar no hotel. Achei aquilo estranho, eu não estava vendo a nossa interação com outros olhos, do meu lado era só amizade mesmo.

Coincidentemente, chegamos ao mesmo tempo. Quem nos viu chegar com certeza pensou que fomos juntos. Me surpreendi com apenas mais dois casais na mesa. Achei que seria um rolê mais despojado, com bastante gente, mas foi muito tranquilo. Esses dois casais já se conheciam de outros carnavais e eram muito amigos.

Nesse evento, sempre que eu interagia com alguém, era muito comum perguntarem minha área de atuação e o motivo de eu estar ali, assim como o que eu esperava agregar na minha trajetória profissional com tal vivência. Com essas pessoas na mesa, eu fui mais ousada e falei sobre o meu plano de montar um curso online. Ao mesmo tempo em que eu quis falar sobre isso para mostrar uma relevância, no segundo seguinte entrei numa saia justa, quando perguntaram sobre o que seria o meu curso. Muita ingenuidade minha não considerar que eles iam querer saber mais a respeito. Me limitei a dizer “mercado sexual”, mas, quanto mais sucinta eu tentava ser, mais aflorava a curiosidade das pessoas, rs.

Mencionei saber de muitas mulheres que querem entrar no mercado sexual e, para que essas mulheres não caiam em ciladas com agenciadores e situações ruins, o meu curso seria voltado à redução de danos, dicas de segurança etc. Basicamente o que eu já faço na minha mentoria. Não comentei sobre a mentoria com eles, falei apenas do curso, mas já foi o suficiente para ficarem surpresos. Não externalizaram qualquer preconceito e, antes que eu desse seguimento, fui interrompida pelo garçom, que veio me avisar que o prato que eu pedi não tinha. Quando me voltei para eles, felizmente o assunto já tinha mudado. Salva pelo gongo, rs.

Os casais da mesa eram muito simpáticos e alegres. Uma dava curso de como fazer bolsas de crochê (o Instagram da marca dela tinha quase 600 mil seguidores), seu esposo e a outra mulher trabalhavam junto com ela, e o marido da outra mulher tinha uma empresa de organização de festas/eventos, além dele também atuar como o próprio animador da festa. Esse rapaz, confesso, achei um pouco inconveniente em alguns momentos, como, por exemplo, na hora de pagar a conta, em que ficou de gracinha com os garçons querendo desconto (eu tenho um ranço natural por quem pede desconto, rs), além de ter feito uma piadinha muito sem graça com o Carioca Careca sobre o tamanho da cabeça dele. Sabe aquela pessoa que sempre tem uma piada na manga? Pois então, esse tipo. Eu só sorria e acenava.

Acabei indo embora sozinha com o Carioca, já que ele me deu carona no seu Uber. Tínhamos desenvolvido um papo na mesa sobre a minha área de atuação, mencionei o meu blog (será que ele também tá lendo isso? Rs), e, como ele trabalha com tráfego pago, durante a conversa considerei contratar os seus serviços futuramente. Então, quando ele pediu para eu mandar o meu site e o meu insta profissional, achei que fosse por isso, para avaliar o meu potencial de alcance, sei lá.

Nos despedimos, saí do carro, entrei no hotel, rumei para o quarto e, enquanto eu tirava a minha maquiagem, ele me mandou uma mensagem no WhatsApp, me encaminhando a minha própria postagem:

E acrescentou: “Posso levar o vinho?”

Não gostei daquilo.

Me senti objetificada.

Não lhe enviei minha rede social com esse intuito.

Pensei em ignorar. Contudo, conversando com uma amiga minha em tempo real, decidi fazer dos limões a limonada. Já que ele estava a fim, então que virasse meu cliente. Eu não tinha intenção nenhuma de ficar com ninguém comprometido de graça.

Me chamou no meu número de trabalho, enviei as informações e ele levou 4 longos minutos para responder. Digitou eternamente. Até que:

Por um lado, achei bom, porque eu já tinha tirado a maquiagem e colocado minha roupa de dormir, mas, por outro, achei um grande papelão. Depois de toda aquela forçação de barra, xaveco e tentativas, o mínimo que eu esperava era alguém realmente disposto a fazer acontecer.

 3º e Último Dia de Evento

Justo no último dia, a minha bateria social estava no chinelo. Mas também, depois de dois dias intensos, meu corpo só queria que acabasse logo pra eu poder voltar pra casa descansar. Desfrutei das últimas palestras, destaque para Samer Agi (adorei a palestra dele!) e Andréa Vermont (a única palestra que abriu com um vídeo contando a história de vida da palestrante). E o mais interessante é que, quando você vai olhar o Instagram deles, são pessoas com milhões de seguidores e que eu nunca tinha ouvido falar. Impressionante como vivemos numa bolha.

Em algum momento enquanto eu assistia a essas palestras, de repente, enquanto olho para frente… “Peraí, eu conheço essa careca”. Reconheci o Carioca sentado na minha frente. Fiquei na dúvida se interagia ou não. Seria bom não encerrarmos com aquela interação chata da noite anterior, né? Me fiz ser notada e então nos cumprimentamos e conversamos como se nada tivesse acontecido. Gostei, pessoas adultas e maduras fazem assim.

Teve o show de encerramento, uma coisa belíssima. O fundador da Hotmart veio ao palco novamente, assim como no primeiro dia, e então chamou todos os funcionários que fizeram aquele evento acontecer para a frente do palco também. Uma multidão se formou, foi mesmo muito bonito. Depois, todo mundo se direcionou para a festa de encerramento, com muita bebida, música e animação.

A minha bateria social continuava baixa. Tentei dar uma animada com álcool, mas, mesmo depois de dois drinks, nada mudou. Então fui sentar e, ali sentada, refleti se deveria ir mais cedo para o hotel, ler um livro, tirar um cochilo, talvez? Mas uma parte de mim achava um desperdício eu ir embora e não aproveitar a festa.

O Carioca Careca veio interagir comigo algumas vezes, tentando me animar a irmos para a parte externa, onde tinha o palco e a banda cantava, mas eu realmente estava zero animada, nem eu estava me suportando.

Quando enfim tomei a decisão de ir embora, enquanto me direcionava para a saída, acabei avistando, no meio do caminho, aquele rapaz que eu conheci no elevador do hotel. Ele estava conversando com o outro rapaz que tava no carro naquele dia que peguei carona. Parei para interagir com eles, sem grandes ambições de continuar na festa, ia só conversar rapidamente e me despedir, mas, aos poucos, fui me animando.

Perguntei o que ele estava bebendo e comentei que já tinha bebido dois drinks que não fizeram efeito, e aí ele revelou que o segredo era pedir dose dupla de gin. Decidi aplicar a estratégia e me ausentei para pegar meu último drink. Depois que voltei para onde eles estavam, com meu mais novo drink calibrado em mãos, eles quiseram ir para a parte do palco e fui na onda.

O palco ficava naquela mesma área externa em que comi no primeiro dia, então se concentrava a maior parte das pessoas, pois todos tinham acesso. Encontrei o Carioca Careca novamente e fiquei intercalando entre esses grupos, já que não deu para juntar os dois, pois o cara do elevador também se juntou com outro grupo de pessoas.

A bebida subiu e o rolê ficou mais divertido. Pena que a festa acabou cedo, encerrou antes das 20h. Eu tinha ido ao banheiro e nem vi o evento encerrar. Só recebi a mensagem do Carioca Careca avisando que geral já tinha ido e me apressei em ir embora com ele, pois não queria ficar bêbada sozinha, à Deus dará, para conseguir um Uber.

Paralelamente, o cara do elevador estava com meu blazer e meus dois livros, recém-adquiridos, na sua bag (ele fez a gentileza de guardar quando descemos para o palco para eu não ter que ficar carregando), e ele tinha comentado que seu grupo iria para um after. Mas não o reencontrei antes de ir embora.

Enfim, fui de carona com o Carioca, que desta vez não me levou até o meu hotel. Eu que fui até o endereço do Airbnb em que ele estava hospedado e, de lá, da calçada mesmo, chamei o meu Uber.

Quando cheguei no hotel e entrei no quarto, recebi a mensagem do cara do elevador com o lugar que eles iriam para o after e, ao mesmo tempo, também recebi a mensagem do Carioca Careca tentando a sorte mais uma vez:

As mensagens apagadas eu consegui ler na hora. Ele dizia: “Não tem como negociarmos isso?” (provavelmente sobre a parte de ele ter que pagar), e depois: “Vamos aproveitar que o álcool está ativo”. E a última mensagem eu não vi o que era, já tinha capotado.

Só porque você é toda simpática, o cara acha que você tá dando mole… nem respondi.

*

Acordei por volta da meia-noite, com gosto de cachaça (gin, no caso) e fome. Lembrei das minhas coisas e mandei mensagem para o cara do elevador, a fim de resolver essa questão:

Eu devia ter combinado com ele na recepção do hotel, mas eu ainda tava meio zonza, não raciocinando direito. Só queria pegar as minhas coisas, pois o meu check-out já seria no dia seguinte.

O CARA DO ELEVADOR

Eu estava com meu camisetão da Taylor Swift e tive o cuidado de colocar um short por baixo, apesar de talvez parecer que eu estava sem nada, já que o camisetão se sobressaía. Ele foi até o meu quarto e conversamos um pouco ali na porta. Após um tempo de conversa, ele demonstrou desconforto por estar de pé, querendo apoiar sua bolsa no chão e se escorar na parede, o que me fez pensar se eu não estava sendo indelicada de não oferecer um lugar para ele se sentar. Mas onde ele se sentaria? Dentro do meu quarto? Pensei que talvez não tivesse problema, desde que eu deixasse a porta aberta, tipo uma visita rápida que veio papear.

Perguntei se ele queria sentar, olhei pra dentro do quarto, meio sem jeito de onde poderia acomodá-lo, que não fosse na cama, e aí avistei a cadeira. A princípio, pareceu que ele ia recusar, mas acrescentou que não queria me incomodar. Falei que tudo bem, mas aí, assim que ele entrou, eu precisei descer para pegar o meu iFood (nesse meio-tempo, tinha pedido um McDonald’s), daí deixei ele lá e desci sozinha.

Quando voltei, por força do hábito, entrei e acabei fechando a porta. Me sentei distante dele, comendo na mesa, e ele sentado na cama. Em alguns momentos, ele deu uma deitadinha e até falei que, se ele estivesse cansado, poderia ir, que tudo bem, e ele sempre acrescentando que pra ele tava de boa, desde que não estivesse me atrapalhando.

Aos poucos, comecei a ficar sem graça na presença dele, pois, em alguns momentos, ficávamos sem assunto e ele me encarava de um jeito que eu não sabia se tava tentando fazer pintar um clima. Fiquei me perguntando mentalmente: “Será que ele achou que eu chamei ele até aqui porque queria ficar com ele?”. Me arrependi de ter sugerido que ele entrasse, porque, parando pra analisar, ficou mesmo parecendo um convite para algo mais, mas, do meu lado, não era. Eu achei que estávamos na friend zone, por até mesmo ele ser casado.

Inclusive, em algum momento, até perguntei há quanto tempo ele era casado (disse 15 anos), para trazê-lo para a realidade de ele ser comprometido. Vendo que o clima ainda estava estranho, até soltei que estava sem graça, que tinha chamado ele ali só para papearmos mesmo, pois fiquei muito com a sensação de que criei nele uma expectativa de alguma coisa. Ele demonstrou compreender e concordar, mas continuava me encarando de um jeito que eu não soube decifrar.

Em algum momento, eu reclamei que não veio ketchup e ele se ofereceu para ir buscar na recepção. Daí, aproveitei para deixar a porta aberta e não mais fechar depois disso. Ele voltou sem o ketchup, portando duas cervejas. “Eu não bebo cerveja”, falei, frustrando mais uma vez as suas expectativas.

Ele não sabia que trabalho com sexo, então nem caberia eu falar que só transaria pagando, a situação já tava estranha demais. Nem terminei meu lanche e falei que estava com sono, que ia voltar a dormir. Ele se tocou e foi embora. Ainda fiquei me sentindo mal, como se a sem noção tivesse sido eu por tê-lo chamado, na inocência de achar que tal gesto não seria mal interpretado.

*

No dia seguinte, a caminho do aeroporto, peguei Uber com uma motorista que me contou toda a sua história de sofreguidão ao dar à luz seu filho. Foram tantas complicações no parto que não tive como não olhar para o seu relato com compaixão e um certo alívio por eu não ter esse sonho.

Aquela prosa foi a cereja do bolo de uma viagem que me rendeu altas reflexões sobre casamento, fidelidade e filhos.

No fim, só um pensamento reinava na minha cabeça:

“Ainda bem que eu sou solteira.”

A Rainha da Siririca

Querido diário, 

Há quanto tempo não apareço nessas páginas. Muita coisa vem acontecendo. Quem me acompanha nas redes sociais está por dentro de tudo (mudança de visual, aulas de piano e canto, Boca TV…), mas, pra quem sente falta de algo mais elaborado por aqui, hoje me inspirei para trazer alguns detalhes. 

Contextualizando rapidamente, tranquei a faculdade de psicologia, recebi o chamado de voltar para as artes (eu definitivamente pertenço a este lugar, minha alma é de artista), me matriculei num curso Profissionalizante em Teatro Musical (ou seja, uma nova faculdade, três anos pela frente) e posso dizer que nunca estudei tão engajada e sentindo tanto prazer na minha vida! ❤️

Dito tudo isso, hoje trago uma situação engraçada que vivi semana passada, justo no dia que eu tinha uma apresentação de trabalho no curso. 🤭 

*

Era uma sexta-feira. Voltei de um cliente e me restava menos de uma hora até o horário em que eu precisaria sair de casa novamente, para me locomover até a escola.

Confesso a vocês que apesar de ser atriz e comunicadora, apresentar trabalho de seminário ainda me deixa um pouco tensa e ansiosa, então, antes de sair de casa, pensei em me masturbar para dar uma relaxada e ir para a apresentação mais tranquila. Quem nunca? Em “O Lobo de Wall Street”, o personagem do Matthew McConaughey já recomendava isso. 😁

A grande questão é que eu não queria qualquer gozada, eu queria A GOZADA. Então, entrei na minha conta do X e procurei por algo interessante, entre as páginas que sigo, pra poder me masturbar com qualidade.

Eis o que encontro: 

Uma tela preta, com um áudio bem safado, que me instigou a assinar o conteúdo desse cara. E lá vai eu, com apenas meia hora de disponibilidade para isso, iniciar a saga de me cadastrar no Privacy, pagar pela assinatura e assistir tal conteúdo que me deixou sedenta e curiosa. O que acabou não sendo tão rápido assim, pois, meu cadastro lá já existia (uma conta antiga que passei para uma amiga), a plataforma não me permitia criar um cadastro novo e aí corta pra mim, mandando mensagem pra essa minha amiga (que estava num retiro), solicitando o acesso:

Saliento que a única vez que assinei conteúdo pago de alguém, foi da Bella Thorne, quando ela criou um perfil no Onlyfans, apenas por curiosidade por ela ser famosa. Mas, assinar porque eu queria consumir e me masturbar assistindo tal conteúdo, essa foi a primeira vez! 

O que me fez pensar nos meus próprios assinantes e me identificar com eles kkkk. Quantos não devem assinar os meus conteúdos sentindo a mesma expectativa? 👀

Enfim, acessei o tão desejado vídeo – que na verdade era só uma tela preta, com o áudio dele transando com uma mulher – e gozei gostoso. 👄 Bem rápido até, vejam o horário da minha mensagem pedindo a ajuda da minha amiga e depois comigo agradecendo, já tendo gozado:

7 minutos depois!! Kkkkk.

Perdi mais tempo tentando assinar do que no processo do orgasmo em si kkk. Me identifiquei com os meus clientes kkkk. 😁

*

Costumo sair de casa para ir a aula por volta das 18h, que inicia pontualmente às 19h. O tempo de trajeto até a escola, nesse horário de pico, leva uns 40 minutos, devido ao tão caótico trânsito de São Paulo. Então, como podem ver, eu estava na risca do horário. Minha única missão, antes de sair de casa, era fazer minha vitamina com whey para ficar satisfeita até o meu retorno, colocar minha roupa de ensaio, colocar meu notebook na bolsa (seria necessário para o seminário daquela noite) e então me engarrafar no trânsito de SP. 

Tudo estava dentro do planejado, até que, logo após gozar gostoso com o meu vibrador, assistindo aquele conteúdo, se repetiu algo que aconteceu nas minhas últimas duas gozadas com clientes…

*

Semana passada, atendi um cliente muito querido, que inclusive me mandou a mensagem abaixo, no dia seguinte ao encontro:

Nossos encontros são uma delícia e sempre seguem o mesmo script: ele me faz uma deliciosa massagem com óleo corporal, depois me chupa com a maior maestria até me fazer chegar ao orgasmo, daí eu retribuo lhe fazendo um caprichado sexo oral também, muitos beijos, e então finalizamos na penetração. 

Como de costume, ele me fez gozar muito gostoso no oral, mas, depois que gozei, repentinamente senti uma cólica muito forte! 😖 

Tive que manter a pose, não por ele não ser compreensivo e fofo o suficiente, mas porque eu não queria estragar a experiência dele. Fazia um tempo que não nos víamos e queria que ele saísse do encontro somente com boas lembranças. 

E aí você me pergunta: “Mas então, por que isso aconteceu, Sara?” Bom, infelizmente eu tenho endometriose, e, por conta deste quadro, é comum cólicas fora de hora, só não sabia (até o momento) que gozar de barriga para cima se tornaria um dos gatilhos. 

Fui estratégica e para conseguir seguir com o encontro, sem que a cólica me atrapalhasse tanto, me posicionei para chupá-lo deitada de bruços, pois já descobri, em outras crises, que deitar nessa posição ajuda a passar a dor. Conseguindo assim, ganhar um tempo para me recompor antes de transarmos. 

Se, por acaso, não funcionasse, teria que abrir o jogo, ir para o chuveiro e deixar cair a água quente fazendo uma compressa. Mas, felizmente, não precisei chegar a tanto, após alguns minutos a cólica passou e então partimos para a penetração. 🔥

*

Depois desse ocorrido, no entanto, com outro cliente em que também gozei no encontro (desta vez me masturbando durante o sexo, comigo por cima) não tive a cólica, então achei que a situação anterior tinha sido algo pontual. 

Contudo, com um terceiro cliente, novamente me masturbando durante o sexo, desta vez com ele me pegando no papai e mamãe, aí sim retornou a cólica após o orgasmo. Desconfiei que fosse a posição, mas ainda não tinha plena certeza. Daí, eis que agora, me masturbando sozinha em casa, confirmei o padrão das cólicas surgirem após eu gozar na posição de barriga para cima. 

Ao menos foi na minha privacidade, mas, com horário contado para sair. Enfim, tive que me priorizar, me coloquei de bruços e esperei até que a dor passasse para só então correr contra o tempo e realizar todas as mini tarefas. 

Resumo da ópera: cheguei 15 minutos atrasada, recém gozada, recuperada de uma cólica e pronta para apresentar um seminário como se nada tivesse acontecido. A sala inteira festejou a minha chegada, o que se por um lado me fez sentir especial, por outro eu queria enfiar a cara num buraco de tanta vergonha por parecer irresponsável diante de uma apresentação importante. 😬

Bastidores que só a gente, querido diário, pode saber.

Apresentei o trabalho, deu tudo certo e agora fica a lição: se você tem um compromisso às 19h, talvez 17h30 não seja o melhor momento para decidir que não quer uma gozadinha qualquer. A rainha da siririca pode até dominar o próprio prazer, mas aparentemente ainda não domina o relógio, precisa saber administrar melhor o seu reinado. 👑

Nem Todo Gringo é Um bom Partido – Parte 8

Depois do meu grito histérico, pareceu que ele ia continuar resmungando, mas se interrompeu e ficou quieto. Entramos no carro e enquanto ele dirigia para a saída, num tom bem mais calmo, me perguntou se eu tinha o endereço do lugar. Ele que compra e eu que tenho que saber?!

– Não.

– Eu te mandei.

– No print só tem as informações do espetáculo.

– Eu te mandei no e-mail.

– Não mandou, no e-mail só tem a passagem aérea.

Ele ficou insistindo que tinha mandado no meu e-mail e fiz questão de mostrar, através do meu celular, que quando eu buscava pelo nome dele no meu e-mail, só aparecia a passagem.

Daí ele encostou o carro para procurar no celular dele. E eu fiquei entretida mexendo no meu, contando em tempo real para a minha amiga, o que estava acontecendo.

– Encontrou? – Ele me perguntou.

– Não.

– Você está procurando ou fazendo outras coisas?

– Fazendo outras coisas.

Enfim, ele encontrou o endereço, estávamos muito perto, a 7 ou 17 minutos, a pronúncia dele me confundiu e eu estava mais atenta a conversa de WhatsApp, então não sei precisar o tempo exato.

Quando chegamos onde teria o show de Cabaret, um barzinho charmoso chamado ‘Savage Labs’ em Wynwood

… ele mudou completamente o comportamento, tentou puxar assunto, mas eu ainda estava tensa. Achei muito falso ele se comportar daquele jeito amistoso, sendo que tínhamos acabado de brigar. Eu era incapaz de virar a chave tão rápido assim.

Nos acomodaram no melhor lugar e nos serviram uma taça de espumante. Estava tudo muito bacana, mas eu não conseguia aproveitar, tinha perdido o prazer de estar ali. Ele perguntou se eu queria pedir algo para comer umas duas vezes e recusei, não conseguia nem sentir fome. Ele fez um comentário positivo sobre os nossos lugares e eu só acenei.

– Você vai ficar sem falar? Só me fala porque aí eu não falo também. – Ele questionou.

– Eu não quero falar agora.

– Tá bom.

Ele se levantou e foi não sei aonde – suspeito que ao banheiro –, demorando bastante para voltar. Foi uma boa estratégia, pois comecei a ficar preocupada. Daí quando ele voltou, me esforcei em ser mais agradável. Ele perguntou mais uma vez se eu gostaria de pedir alguma coisa e falei que queria mais uma bebida – álcool sempre ajuda nessas horas -. Aos poucos voltamos a conversar.

A apresentação foi incrível, um show de cabaret com uma pegada circense, cheio de acrobacias e uma atriz cantava muito bem.

Durante algum número, ele, empolgado que eu não perdesse o registro, me cutucou para que eu filmasse, contudo, ele não viu que eu tinha acabado de pegar a minha taça, me fazendo derrubar a bebida toda no meu colo, molhando o meu vestido.

Ele não percebeu o que tinha acontecido e nem se desculpou na hora, somente quando a bebida começou a escorrer nele também, que percebeu o estrago. Por sorte aquilo não me deixou irritada, pelo contrário, acabei dando risada da situação, foi uma eventualidade engraçada e o clima ficou mais leve.

Consegui desligar e conceder uma trégua durante a apresentação. Contudo, bastou o show acabar, que o sentimento da briga voltou. Me dei ao luxo de me embebedar um pouco, mas nem a bebida disfarçou a minha chateação por tudo que eu estava passando numa viagem que tinha tudo para ser incrível.

Ele tentava puxar assunto, mas eu não engrenava. Pelo contrário, tudo que ele fazia tinha efeito rebote. Como quando tiramos uma foto com um integrante do elenco, que a imagem não ficou boa, e ele jogou a culpa na mulher que fez a gentileza de nos fotografar, resmungando depois, que ela tinha desligado o flash.

Eu também tenho Iphone e sei que para colocar o flash, não é só ativar o flash simplesmente, precisa ir lá na função e apertar outro botão, senão entra no flash automático, que não altera em nada. Na mesma hora pedi que ele ativasse o flash no celular dele e tirasse uma foto, a foto não saiu com flash e daí expliquei o caminho para colocar o flash corretamente, e mesmo ele tendo a prova naquele instante, ficou insistindo que no momento da foto tinha sido a mulher, como se fosse comum alguém ter essa postura invasiva de mexer no nosso celular, enquanto está fazendo um favor de tirar uma foto.

Quando voltamos para os nossos lugares, após a foto, tinham levado nossas bebidas, recém abastecidas, pois pensaram que tivéssemos partido. Ele solicitou os drinks de volta, mas como demoraram muito, começou a reclamar dos atendentes de lá. Quando tentei resolver, indo falar com a gerente eu mesma, ao voltar para a nossa mesa, me pareceu que ele não tinha gostado muito da minha iniciativa, como se eu tivesse passado por cima da autoridade dele, ao invés de ver aquilo como um trabalho em equipe. Então todos esses pequenos detalhes no comportamento dele, corroboraram para que voltasse aquele sentimento ruim da briga.

Mais tarde, quando chegamos no seu prédio, ele fez um comentário sobre o apê dele ser bem localizado, por termos chegado em casa tão rápido. Achei o comentário esnobe. Diante de todo o contexto, pouco me importava. Nada falei e ele fez questão de reclamar do meu silêncio:

– Você ouviu o que eu falei?

– Ouvi. 

– Não vai falar nada?

– Não tem o que falar, você não fez uma pergunta, só está comentando.

– Vejo que você não se importa com as coisas que eu falo.

Eu estava mais preocupada com os meus sentimentos, do que com o quanto ele era privilegiado por morar ali. Continuei muda, estava cansada demais para discutir. 

*

Nessa noite me permiti desabar um pouquinho.

Me troquei, peguei meu fone de ouvido e fui me sentar na varanda para ouvir música. Ele estava na cozinha, preparando algo para comer, enquanto eu continuava sem a menor fome.

Tenho uma playlist muito específica no meu Spotify, que criei justamente para os momentos em que estou triste, precisando por pra fora, chamada: “Músicas Para Ouvir na Bad”, com 6h de duração. Enquanto ouvia, começaram a cair algumas lágrimas. Chorei olhando para uma vista incrível. Foi poético.

O que eu precisava aprender com tudo aquilo? A conhecer melhor as pessoas antes de me jogar numa aventura daquela? Ou que eu deveria ficar agradecida por pelo menos não ter tido nenhuma situação que colocasse a minha vida em risco?

Acho que fiquei uma hora ali, jogando para fora toda aquela angústia. Em algum momento ele foi até lá perguntar se eu queria comer.

– Não estou com fome. – Respondi sem desviar o olhar do horizonte, com a voz levemente embargada.

Felizmente ele saiu, sem perguntar mais nada.

É impressionante como colocar para fora faz bem, de repente a vontade de chorar foi diminuindo e comecei a me sentir melhor. Fui criando coragem para conversar com ele, pois seria muito ruim dormirmos brigados novamente. Comecei a sentir muita fome e àquela altura ele já tinha comido e estava dormindo na sala. Precisei acordá-lo, pois não estava encontrando a sobra daquele lanche na geladeira e fui perguntar se ele tinha jogado fora. Ele respondeu que não, então voltei a procurar na geladeira, até que encontrei, camuflado entre alguns itens. Comi metade da metade e então fui falar com ele.

Quando me sentei na ponta do sofá, imediatamente ele abriu os olhos, e após uma longa hesitação, falei:

– Estou muito chateada com as coisas que estão acontecendo.

Fiz uma longa pausa, esperando que ele dissesse algo, mas como não disse, segui adiante. 

– Eu não estava brava quando saímos do apartamento. Quando falei: “é ruim fazer as coisas com pressa, né?” Eu estava apenas puxando assunto para quebrar o silêncio. Quando você começou a falar aquelas coisas de que o momento pode ser como quisermos que seja, eu não entendi por que você estava falando aquilo, pois eu não estava reclamando de nada, apenas puxando assunto. No elevador, quando falei “olha, estamos saindo no horário que eu falei que sairíamos, sete e meia” eu não estava brava, novamente estava apenas puxando assunto. Você criou toda uma situação sem necessidade. Ali sim eu fiquei brava, pois detesto ser acusada de algo que eu não fiz. Eu nunca cheguei ao ponto de gritar com ninguém que eu tenha me relacionado. E aí chegando lá você começou a puxar assunto como se nada tivesse acontecido, eu não sou assim. 

– Eu fiz aquilo para que tivéssemos um bom momento. É natural fazer isso. No meu casamento ela também adotava essa postura para cessarmos uma briga.

– É fácil agir dessa maneira porque você não foi o lado atacado, mas sim o que atacou. É como aquele ditado, ‘quem bate esquece, quem apanha não’. Como por exemplo ontem, no restaurante, nunca ninguém criou caso comigo por eu querer escolher uma mesa.

– Por que você está falando disso agora?

– Estou te trazendo o meu lado da história.

– Não sou culpado por tudo sozinho. Os dois tem culpa.

Daí ficamos nos olhando, em silêncio, cada um com a sua razão.

Ficamos algum tempo assim, até que me puxou para perto, de modo que eu me deitasse de costas para ele, numa conchinha, me abraçando por trás. Eu estava tão exausta de tudo, que cedi.

Daí começou a beijar o meu pescoço, aos poucos passou as mãos para os meus seios e, surpreendentemente, também fui ficando excitada. A transa foi desenrolando de um jeito muito gostoso. Nossos corpos se viraram de frente um para o outro e aí ele veio por cima. Novamente foi ardente, por ter sido logo após uma briga. Ficamos pouco tempo no sofá, até que me pegou no colo e me levou para a cama. Sempre dominante, não tinha muita variação de posição, senão era com ele por cima, então era comigo de bruços. Peguei meu brinquedinho e caminhei para o orgasmo também. A paz foi celada. Dormimos abraçados.

– Nossa menina, que coisa. Uma experiência que tinha tudo para ser bacana. – Acho que minha amiga já estava cansada de ouvir meus dilemas. – Você está de TPM?

Outlet em Miami

No nosso penúltimo dia juntos, tiramos para ir no Sawgrass Mills, outro outlet, muito maior que o anterior, desta vez a meu pedido, que queria conhecer os tão falados Outlets de Miami. Neste andamos bastante tempo separados, pois queríamos ver coisas diferentes e assim otimizamos o nosso tempo. O que, confesso, achei ótimo, pois, apesar de ter transado na noite anterior, no fundo ainda nutria um certo ressentimento por todo aquele combo de brigas dos últimos dias.

Nos reencontramos pouco antes do horário do almoço e adivinhem só, ele queria comer na praça de alimentação, com o argumento de que eu não aguentaria o ar-condicionado dos outros restaurantes que tinham na área externa. Ou seja, ainda estava me alfinetando pelo ocorrido de outra noite. Não debati, mas achei aquela postura péssima. A praça de alimentação estava entupida de gente, sem bons restaurantes e sem lugar para sentar. Paramos na fila de um fast food qualquer, dei uma boa olhada em volta e fiquei muito decepcionada que ele preferisse comer ali, do que num restaurante mesmo, sentados numa mesa só nossa, sendo atendidos por um garçom. Desgostosa, soltei:

– Não tem nem lugar pra gente sentar.

Ele observou em volta e deve ter visto o mesmo caos que eu.

– Você prefere comer num restaurante com ar-condicionado?

– Prefiro. – Tive que admitir.

Levamos mais trinta minutos para encontrar a saída e então fomos para o The Cheesecake Factory, onde o ar-condicionado nem estava forte, o que me fez crer que aquela outra noite foi mesmo uma situação atípica.

Mais tarde, quando estávamos indo embora, passamos pela Victoria’s Secret, cuja loja eu tinha olhado mais cedo, sozinha, mas não encontrei nada com um desconto extraordinário que me encorajasse a comprar alguma coisa. Ele quis entrar, dizendo que me daria um regalo – presente em espanhol -.

Só que o presente que ele queria me dar eram umas calcinhas estampadas, horrorosas e broxantes, que custavam 5 por U$ 30. Cujas calcinhas nem eu mesma compraria para mim. “Ele gostaria mesmo de me ver usando isso?”, pensei indignada. Era o que nós mulheres chamamos de ‘calcinhas de ficar em casa’.

Expus a minha opinião e falei que achava aquelas calcinhas feias, ele concordou e saiu em busca de uma mesa que tivessem outros modelos daquela mesma promoção. Em contrapartida, fui até uma camisola lindíssima, super sexy e delicada, que eu tinha visto mais cedo, mas que não tive coragem de comprar por conta do valor. Mostrei para ele.

Ele teve a audácia de olhar para a camisola com a maior cara de desdém e dizer que não tinha gostado. Ele sabia, pelo nível de beleza da peça, que deveria ser mais cara do que o que ele estava querendo me dar. Foi como se ele olhasse para um anel da Tiffany e dissesse: “Não é bom o bastante para mim”. A camisola custava U$ 89. Desisti dela e fui em busca de outra coisa que eu também gostasse.

Encontrei um sutiã lindíssimo, preto, com strass, perfeito para usar com roupa aberta nas costas. Fui mostrar para ele, que me ignorou, tentando me levar de volta para as calcinhas de vó. Aquilo estava começando a me irritar, se era um presente, nada mais justo que fosse algo que eu realmente gostasse, senão qual o sentido? Bati o pé e falei que não queria aquelas calcinhas, que o sutiã seria muito mais útil para mim. Ele fez uma cara de que não gostou muito de eu querer escolher outra coisa, daí eu perguntei logo:

– Você está preocupado com o preço?

– Não.

– Então eu vou provar. 

E o sutiã ficou incrível no meu corpo! Eu ainda não tinha um como aquele, que me permitisse usar roupa aberta nas costas. Voltei toda empolgada, contando para ele como tinha me servido bem, ao que ele veio com um balde de água fria:

– Você vai comprar?

– Você não ia me dar um presente?

– Mas as calcinhas são outro valor. Quanto custa esse sutiã? – Eu não estava acreditando que estávamos tendo aquele tipo de discussão. 

Fomos até onde o sutiã estava – o que eu peguei não tinha etiqueta de preço e no meio daquele transtorno eu esqueci completamente qual valor eu tinha visto – e constatamos que custava U$ 60.

– É o dobro das calcinhas. – Ele disse.

Se estava difícil para ele que recebe em dólares, imagine para mim, que ganho em real?!

– Então tá bom, você paga o equivalente as calcinhas e eu pago a outra metade. – Sugeri, a fim de resolver aquela desagradável situação.

– Espero que você entenda, eu já estou pagando outras coisas, comida e etc… – Ainda jogou na minha cara que estava tendo gastos com a minha alimentação, sendo que era o mínimo esperado, já que me tirou do Brasil para passar uma semana com ele.

– Claro.

Quando saímos da loja, eu não tinha nem vontade de agradecer o ‘presente’, mas me forcei a ser minimamente educada, ainda que aquela situação tivesse tirado completamente o brilho.

Última Noite em Miami

Pegamos muito trânsito na volta, o que foi mesmo péssimo, pois ele tentava puxar assunto e eu não estava na vibe por conta do ocorrido. Fazia um balanço mental da viagem e só me decepcionava. Paramos no mercado para ele comprar algumas coisas e preferi aguardar no carro.

Quando chegamos no apartamento, ao me dar conta que faltava menos de 24h para eu ir embora e que aquela seria minha última noite com ele, como um passe de mágica, todo o meu ranço passou e enquanto eu arrumava a mala, senti uma coisa muito boa por finalmente estar acabando. Foi como se tivesse voltado aquela energia gostosa do primeiro dia.

Ele perguntou se eu gostaria de tomar um vinho. Bem-humorada, respondi: “Gosto da ideia” e ele ficou todo animado por eu ter topado. Terminaria a tarefa de arrumar as minhas coisas primeiro e então teríamos nossa última noite juntos regada a algumas taças de vinho.

Lembra que eu comprei uma mala enorme, aquela da Samsonite?

Pois então, eis que chegou o momento de eu pensar na logística para levar as duas malas embora. Tentei colocar a minha mala antiga dentro da nova, que era bem maior, mas, por pouco não coube. Tentamos ver a possibilidade de comprar uma bagagem extra, mas isso me custaria U$ 65, o equivalente a R$ 325. Então ele se ofereceu para me levar quando viesse ao Brasil, pois, como ele viaja muito, tem direito a malas extras, sem custo.

– Eu levo para você e se não quiser sair comigo de novo, só me dá um beijo como pagamento e tá tudo certo.

Meus planos de nunca mais vê-lo estavam sendo frustrados. Pensei, quer saber, por que não? Não sou obrigada a nada, sair para beber com ele, em outras circunstâncias, pode até ser divertido.

Terminei de arrumar a mala e ele abriu a garrafa de vinho para nós. Nos sentamos na mesa e papeamos bastante. Tinha voltado aquela sintonia do primeiro dia, quando ainda não tinha acontecido nenhum desentendimento entre a gente.

Conversamos bastante sobre música, ele me mostrou alguns artistas que gostava, compartilhei algumas músicas do meu gosto musical também, estava bastante agradável, até que a conversa foi migrando para o campo sentimental.

Ele revelou que eu era a terceira mulher que ele levava para a casa dele nesse contexto. – O contexto de conhecer por aplicativo quando está viajando em outro país. – Sendo que no primeiro dia que cheguei, quando ainda estávamos no carro, nos encaminhando para o seu apartamento, logo após ele me buscar no aeroporto, eu perguntei se ele já tinha feito isso antes e ele negou, agora eis que descubro a verdade. Assim como também confessou que estava dormindo, quando eu te liguei do aeroporto. Mentiroso.

A sua primeira experiência tinha sido ok, mas não quiseram seguir adiante com a relação, após ela ir embora. A segunda tinha dado muito errado.

Logo perguntei:

– Vocês brigaram? – Já sabendo a resposta.

– Sim. Mas não foi por isso. – Imagina, se não. – Não tivemos química. Ela não gostou de mim e eu não gostei dela.

– Você a trouxe sem terem transado antes?

– Isso. Tive até que trocar a passagem para ela ir embora antes.

– É mesmo? – Por dentro eu me solidarizava com a moça. – Mas eu também quis ir embora antes, até pedi para um amigo ver sobre alterar a passagem, mas descobrimos que você tinha comprado com pontos, então precisaria que você cancelasse para emitir uma nova. – Também trouxe meu lado sincero.

E enquanto ele continuava contando, eu ia processando a minha análise: Nossas brigas foram insuportáveis para mim, o que salvou, claramente, foi o sexo, porque de uma maneira muito louca, continuei sentindo tesão nele, até mais, por ter achado picante fazer as pazes na cama. Agora imagine aguentar o seu humor, temperamental, sem um sexo bom que ajude? Entendi completamente a situação da tal argentina.

Daí o assunto chegou na sua experiência atual, nós, e ele disse que apesar de tudo, não achava que as coisas ruins que aconteceram se sobressaiam as boas, que gostava bastante de mim e que gostaria de continuar me conhecendo. Fez-se aquele silêncio, esperando que eu também me pronunciasse, mas do meu lado não foi tão positivo:

– Olha Peter, as brigas me assustaram bastante. – Comecei. – Estávamos tendo brigas como se fôssemos um casal já desgastado. Nunca tive brigas desse nível com meus ex-namorados. Eu preciso pensar sobre isso, voltar para casa, refletir sobre tudo que aconteceu e avaliar se vou sentir saudade.

Instantaneamente a sua linguagem corporal mudou. Ajustou a postura, se sentando mais afastado e o discurso sobre o que faríamos no dia seguinte também sofreu rudes alterações. Tínhamos combinado para o último dia voltarmos em Wynwood para que eu pudesse conhecer o museu de arte, Wynwood Walls, almoçaríamos por lá e depois faríamos o passeio. Daí ele falou:

– Entendo. Bom, amanhã você está com o dia livre, pode fazer o que quiser até o horário do seu voo.

– E o que tínhamos combinado?

– Você pode ficar à vontade para fazer o que quiser sozinha.

– Então só porque estou dizendo que não sei se vou querer continuar saindo com você no futuro, você está mandando eu me virar amanhã?

– É.

Aff muito escroto. O típico hétero top mimado, que se não ouve o que quer, não está nem um pouco disposto a batalhar para mudar o cenário.

– Mas olha só, você devia observar isso em você. Brigou com ela, também brigou comigo… – Falei.

– Por que eu deveria ouvir algum conselho seu?

– Como assim?

– Se você não quer ficar comigo, por que devo dar ouvidos aos conselhos de uma pessoa que não vai ficar comigo?

– Da mesma maneira que existe aquele ditado: “Se conselho fosse bom não se dava, vendia”. – Falei para descontrair, mas acho que não entendeu a referência. Afinal, eu não queria ficar com ele no futuro, mas isso não me impedia de lhe dar um conselho sincero para que amadurecesse. Não queria que outra mulher passasse pelo que passei.

E como eu estava bastante alcoolizada do vinho, levei todo aquele azedume na esportiva e não me ofendi. Contraditoriamente, eu ainda estava com tesão e não queria minar as minhas chances de transar naquela noite. Achei muito infantil ele azedar a noite por conta de algo que ainda nem tinha acontecido. Eu não queria ficar com ele lá na frente, mas ali, naquele momento, queria sim aproveitar com tudo que eu tinha direito. Pedi licença para ir ao banheiro e quando voltei, usei meu poder de sedução para reverter a situação.

Eu sei o que você deve estar pensando: como que eu ainda tinha vontade de transar com um homem daqueles? Mas a verdade é que o álcool tinha me deixado excitada, eu queria transar, não importava a pessoa.

– Mas quem disse que não sinto nada por você? – Falei enquanto ele estava lavando as taças.

– Você mesma.

– Eu sinto sparks.  – Falei em inglês para soar mais engraçadinho.

– Ah é?

– Aham.

E rapidamente nos beijamos. O chupei ali na cozinha mesmo, depois me pegou no colo e me levou para a cama. Tivemos a nossa última transa e foi muito gostosa.

Wynwood Walls

No dia seguinte fomos almoçar em Wynwood e depois visitamos Wynwood Walls, conforme o planejado.

*

– Não tirou foto na cabine de salva vidas, na praia? – Minha amiga me cobrou.

– Não.

– Pq?

– Amiga eu te falei, eu não tive oportunidade, fui pra praia um dia sozinha, não ia ter como fazer fotos de mim mesma lá, entendeu? E a outra vez que a gente foi na praia, não entramos na água, ficamos numa parte bem antes, que ele tava jogando voleibol e eu tomando sol, não tinha contexto pra ir fazer a foto.

– O lugar mais charmoso e instagramável de Miami e você não fez.

– Tudo bem amiga, não faço muita questão.

– Esse Peter é um bosta. Faz sim. Não volte sem essa foto! Você já vai embora hoje, tudo que você pedir pra esse cara, dentro do possível, ele vai fazer. Fala que você quer muito tirar uma foto na praia, ele vai te levar e vai bater a foto. Ai amiga essa foto é tão bafo na praia! O lugar mais fofinho de Miami, icônico! Pelo menos pra fingir que a viagem foi legal.  Não precisa ser de biquini ou maiô. Olha: – daí ela me enviou algumas imagens do Pinterest como referência – Se esses closes não te animarem, então você tá morta por dentro. – E para finalizar ainda mandou uma figurinha que dizia: “Hora de ensinar o sol como se brilha”.

Depois de todo esse discurso e as imagens lindas, tive que me movimentar para tirar aquela foto.

– Pedi aqui para ele. Vamos na praia depois, só para eu fazer essa bendita foto. Já vi que com ele funciona pedindo bem fofinha e não impondo. Ele faz com mais boa vontade.

– Pau mandada kkkk.

– A menina ao invés de falar “Isso aí amiga, fez ele te levar lá só pra fazer uma foto!” Vem me chamar de pau mandada! Você só vê as coisas ruins, o progresso aqui da amiga ela não vê!

– Kkkkk. Tem que jogar na cara mesmo! P-A-U-M-A-N-D-A-D-A! Tô começado a achar que pode ser bom dar uma chance pra ele, kkkkk, nem te reconheço. Parecendo esposa submissa.

– Rá rá rá.

– E se esforça pra foto ficar boa amiga, essa foto é foto de feed hein! Pelo amor de Deus! Posta uma foto no feed em Miami, vai ficar bem linda, coloridinha. Ai eu gosto.

5 horas depois…

– Conseguiu fazer as fotos?

Sim, eu tinha conseguido fazer as fotos.

Tivemos uma tarde super agradável juntos, parecia o primeiro dia de novo. Ele estava gentil e solicito, me tratando imensamente bem. Fomos até a praia fotografar e ele estava um poço de pró atividade. Fizemos vários cliques, até eu dizer chega. Em nenhum momento reclamou ou me pressionou para que fôssemos embora.

Voltando para o seu apartamento, paramos numa loja de suplementos, onde ficamos praticamente uma hora, com ele pegando referências e escolhendo os produtos com o atendente. Eu nem me incomodei com a demora também, pois estava bastante entretida editando a minha foto e pensando na legenda:

Mais tarde, pouco antes dele me levar no aeroporto. Adivinha? Azedou novamente. ¬¬

Tem Horas

Tem horas que me sinto plena

E tem horas que me sinto uma fracassada

Tem horas que sou autossuficiente 

E tem horas que tô carente 

Tem horas que eu me amo

E tem horas que nem eu me aguento

Tem horas que quero socializar 

Tem horas que me isolar

Tem horas que tô brava

Tem horas que calma

Tem horas que eu quero 

Tem horas que eu me obrigo 

Tem horas que eu me lembro 

E tem horas que é como se nunca tivesse existido 

Tem horas que eu me preocupo 

Tem horas que eu quero se foda

Tem horas que eu acho engraçado 

Tem horas que me irrita

Tem horas que eu tô muito feliz 

Tem horas que tô na merda

Tem horas que me sinto culpada 

E tem horas que me sinto injustiçada 

Tem horas que eu sinto demais

E tem horas que odeio sentir alguma coisa

Tem horas que eu engajo 

Tem horas que só observo 

Tem horas que eu reflito

Tem horas que vou no impulso 

Tem horas que sou agradável 

Tem horas que sou ranzinza 

Tem horas que tô excitada 

Tem horas que tô frígida  

Tem horas que eu me empolgo 

Tem horas que só suporto 

Tem horas que admiro 

E tem horas que ojerizo 

Tem horas que eu quero mudar o mundo 

E tem horas que quero passar despercebida 

Tem horas que eu lamento 

Mas tem horas que eu aceito

Tem horas que eu sonho 

E tem horas que eu encaro a realidade 

Tem horas que sou comunicativa

Tem horas que introspectiva

Tem horas que eu tô motivada 

Tem horas que desanimada 

Tem horas que acredito 

E tem horas que sei que é mentira

Tem horas que choro de soluçar

E tem horas que passo mal de tanto rir

Tem horas que caminho 

E tem horas que eu me arrasto 

Tem horas que eu tô cega 

E tem horas que eu enxergo os fatos

Somente eu sou atravessada por esses contrastes?

Nem Todo Gringo é Um Bom Partido – Parte 7

Não tem nada mais broxante em um homem, do que o pão durismo.

Mulher nasceu para ser mimada, presenteada, paparicada, homens que não são generosos perdem muitos pontos na conquista. Ao longo desses dias juntos, tive alguns sinais de que talvez ele fosse um pão duro e eis a primeira situação:

Adentramos na Armani, uma marca que ele gosta bastante. O deixei à vontade para ver as suas coisas e fui dar uma espiada na parte feminina. O estilo dessa marca não combina muito comigo. A única coisa que me cativou de fato, foi uma bolsa pequena, rosa clara cintilante, que custava U$ 120, o equivalente a R$ 600. Achei que seria um belo mimo para ele me dar, afinal, estávamos fazendo uma programação dele, me presentear seria gentil e ganharia muitos pontinhos.

Após provar todas as suas peças, ele começou a olhar o setor feminino, onde tinham umas camisetas bem desinteressantes, em promoção, por U$ 29. Quando me toquei que ele estava procurando um presente para mim naquela sessão, fiz questão de esclarecer que camisetas não fazem parte do meu estilo. Gosto de blusinhas pequenas – até porque sou bem magrinha e camiseta não me valoriza em nada – e que somente quando eu gosto muito da estampa, que arrisco comprar uma.

Ele entendeu o recado e foi explorar outras partes. Decidi ajudá-lo na escolha e indiquei o único item que eu tinha gostado, aquela bolsa.

Ele a olhou de longe, sem demonstrar nenhum interesse, completamente blasé, sequer perguntou o preço ou quis vê-la mais de perto.

Diante da possibilidade de ganhar aquele presente, decidi fazer uma nova tentativa e mostrei uma foto que tirei, enquanto estava provando-a, na frente do espelho.

– Olha, você não acha que ficou linda em mim?

Era uma bolsa nada convencional, de usar em balada ou rolê, acrescentei a descrição dos eventos em que poderia usá-la, e me dei conta de que não seriam rolês que eu iria com ele, logo, minaria as chances de me presentear com aquilo.

– Por que você não compra? – Ele soltou essa.

– Porque está cara, convertendo em real é muito dinheiro.

– Quanto?

– U$ 120, o que dá R$ 600.

Cento e vinte dólares, para ele que ganhava em dólares, não era nada exorbitante. No entanto, se calou, não me ofereceu de presente e o assunto morreu aí. Percebi que se não fossem as camisetas em promoção que ele queria me dar, então não me daria nada. Não que ele fosse obrigado a me dar alguma coisa, mas vamos combinar que seria muito galanteador me presentear depois de todos os atritos que vínhamos tendo, com certeza me deixaria mais feliz.

Depois entramos na Nike para que olhasse se tinha algo legal, não que ele estivesse procurando alguma coisa em específico. Já eu fiquei completamente desinteressada de ver algo para mim, pois não ganharia nenhum presente e a minha moeda estava desvalorizada.

Ele foi até o provador e ficou me mostrando como cada roupa ficava no seu corpo. Não sei por que, mas comecei a vê-lo como um homem egocêntrico, que agia como se fosse um super entretenimento para mim vê-lo escolhendo roupas para ele.

Talvez tivesse se instalado um pequeno ranço pelo ocorrido na Armani, sei lá, só sei que eu estava começando a ficar entediada. Ele tinha muito mais condições financeiras do que eu, no entanto, via-se que generosidade não era o seu forte.

Depois entramos numa loja de malas e fui fisgada por uma rosa da Samsonite que eu estava namorando há muito tempo no Brasil, mas que nesse outlet estava muito mais em conta. Para terem uma ideia de valores, a mala grande nessa loja, em Miami, custava R$ 500 mais barato que uma pequena que eu vi no Brasil.

Ou seja, seria um ótimo negócio levá-la. Fiquei na dúvida se comprava ou não, pensando na logística de como a traria junto com a outra mala grande que eu já levava em viagem, daí ele, para me incentivar a comprar, disse que se eu levasse, contribuiria com um valor. Não que ele fosse obrigado a algo, claro que não, mas ao oferecer uma contribuição, esperava que fosse algo realmente significativo. No entanto, me ajudou com U$ 40, sequer arredondou para cinquenta, rs.

Quando eu me interessava por algum souvenir baratinho, de U$ 7 ou U$ 9, aí sim ele comprava para mim, sem pensar duas vezes.

Naquele mesmo dia, um pouco mais tarde, durante o jantar, nos desentendemos mais uma vez. Já estava virando rotina. Uma rotina bem desagradável e estressante.

Segunda Briga

Ele estava em dúvida se me levava para jantar no The Cheesecake Factory ou num restaurante peruano. Decidiu pela primeira opção. Quando adentramos neste, o ar-condicionado estava tão forte, que senti frio imediatamente. Não era refrescante e sim congelante mesmo.

A atendente nos levou até a parte externa para darmos uma olhada, onde tinham uns ventiladores, visto que comecei a me tremer todinha. Me posicionei embaixo de um deles para sentir a potência da ventilação e chamei ele, que estava parado longe – eu tinha avançado até uma possível mesa sozinha, só depois percebi que ele não tinha vindo junto. – Ele se recusou a vir até onde eu estava, fazendo sinal com a cabeça em negativo, dizendo que não ficaria ali fora. Por mais que ele não quisesse, não lhe custava ir até onde eu o chamava e pelo menos fingir que tentou. Insisti para que viesse – se ele era teimoso, eu sou mais ainda. – Mesmo assim ele disse que não comeria ali, que além de estar muito quente, a vista também era feia (como se dentro fosse ter alguma paisagem incrível do restaurante). Aquilo me incomodou um pouco, afinal, eu poderia passar frio por ele, mas ele não poderia passar calor por mim? Enfim, fomos acomodados numa mesa e eu continuava me tremendo de frio.

– Você precisa andar com blusa de frio, porque aqui todos os lugares terão ar-condicionado. – Ele disse, todo ranzinza.

Tinha um pouco de razão, mas, em quatro dias, era a primeira vez que eu sentia tanto frio assim, estava mil vezes pior que o restaurante Tailandês de outro dia.

– Você quer ir para outro restaurante? – Ele ofereceu e por estar oferecendo, achei que estaria tudo bem para ele essa mudança.

– Quero.

Entramos em um outro bem badaladinho, ele deu uma olhada no cardápio antes de irmos para qualquer mesa e após poucos segundos olhando (provavelmente conferindo os preços), sentenciou que não queria aquele, num tom não muito amigável, parecendo até um pouco irritado.

Acabamos indo para o peruano, aquele que tinha cogitado inicialmente. Quando adentramos neste, o ar estava super agradável, muito melhor que o anterior. O garçom indicou algumas mesas vazias e na mesma hora me encantei por uma charmosinha de dois lugares. Contudo, ele quis sentar numa mesa de quatro lugares ao lado de uma parede branca estranha com uma iluminação fria. A mesa que eu tinha visto aparentava ser muito mais aconchegante, quis convencê-lo a ficarmos nela.

– Aquela mesa é pequena, essa aqui é muito maior. – Ele rebateu.

– Mas estamos em dois, rs.

– Sim, mas essa mesa é maior, gosto de ter mais espaço.

Ficamos nesse impasse por alguns segundos. Ele ainda teve a audácia de pedir uma fita métrica para o garçom, para medir a mesa que eu queria e comparar com a outra espaçosa que ele escolhera. Que constrangimento. Eu não tinha argumentos válidos que justificassem eu não ter gostado da energia daquele canto da sala que ele estava escolhendo, então me dei por vencida e falei que tudo bem. Daí, ele não acreditou que eu estava sendo sincera, cedendo tão rapidamente, e continuou falando, justificando a sua escolha.

– Peter, tudo bem. Podemos ficar nessa mesa. – Enfatizei.

Ele ficou emburrado, como se eu estivesse sendo irônica, mas falava com total sinceridade, só queria evitar mais confusão. Pedi licença para ir ao banheiro e quando estava voltando, avistei outra mesa de dois lugares ainda mais aconchegante que a anterior!

Enquanto a mesa atual estava posicionada numa quina de duas paredes brancas, sem graça, a mesa que eu tinha visto ficava encostada numa parede de tijolos marrons, com uma iluminação diferenciada, cor quente, tornando o ambiente em que ela se localizava muito mais agradável e romântico.

Voltei comentando sobre tal mesa, tentando lhe despertar alguma curiosidade pelo que eu estava descrevendo, mas foi inútil. Ele sequer se dispôs a ver com os próprios olhos o que eu estava falando. E aquilo serviu para criar mais atrito entre a gente. Eu só esperava que ele dissesse: “Tá bom, vamos para a mesa que você quer”, ainda que contrariado, pois eu tinha certeza que quando nos sentássemos na nova mesa ele também se agradaria, mas isso não aconteceu.

Quando vi que era causa perdida, que ele não trocaria de lugar, não importasse o que eu dissesse, mais preocupado em se auto satisfazer, do que tentar agradar uma mulher que ele estava tentando conquistar, calei a minha boca e fiquei igual uma estátua, olhando para o horizonte. Só me mexia para dar alguns goles no copo de água. O achei muito infantil, mas talvez eu também estivesse sendo.

Chegou a entrada que ele pediu, ceviche, me ofereceu, mas recusei. O jantar, que era para ser um momento de descontração e interação entre a gente, se tornou uma atividade banal e sem significado. Somente quando nossos pratos chegaram – o que demorou bastante, ouso dizer, mais de quarenta minutos – foi que voltamos a conversar, quando ele puxou algum assunto sobre a comida. Eu já estava bastante incomodada com aquele silêncio e colaborei para que tivéssemos uma boa experiência juntos.

*

– Mas gente, tá uma montanha russa isso! Acho que assim como pra você está ruim, pra ele também deve estar. Amiga, vê com ele a possibilidade de alterar a passagem e você voltar antes. Porque vocês estão num ponto que eu não acredito que vá reencantar, sabe? Já estragou.

– Sim amiga, mas falta pouco para eu ir embora e amanhã temos o Cabaret que ele já comprou os ingressos. Já temos programação para amanhã e domingo. Segunda iremos voltar em Wynwood. Já que estou aqui, então vou extrair o máximo que puder dessa viagem. Engraçado que pra transar com ele está sendo bom, tenho mais tesão nessa coisa de macho alfa, mas para conviver não, porque também quero as coisas do meu jeito.

– Não conhecia esse seu lado. Eu estaria doida para voltar.

A terceira briga foi ainda pior.

Terceira Briga

Não tínhamos mais um dia de paz. Todo dia ocorria uma situação nova desagradável. A terceira briga chegou para mostrar que realmente não éramos compatíveis, pois jamais teríamos um saudável convívio.

O plano daquele quinto dia juntos era:

  1. Academia
  2. Praia
  3. Cabaret

Eu não fazia a menor questão de treinar em viagem, mas, concordei, pois, percebi que era importante para ele fazermos essa atividade juntos. A praia não seria um evento especificamente nosso, não ficaríamos deitados numa cadeira tomando sol, nem entraríamos no mar bem namoradinhos, nada disso. Ele iria jogar voleibol com seus amigos e eu ficaria avulsa.

Guardem essas informações. Agora voltamos a programação normal.

Nosso pré-treino foi apenas uma salada de frutas, daquela mesma que ele fez para mim no primeiro dia, e quando estávamos quase chegando na academia, ele se deu conta que não tínhamos comido ovo, querendo fazer uma parada no mercado, para comprar barras de proteína. Eu tinha entendido que aquelas barrinhas eram para comermos antes do treino, um reforço do café da manhã, mas não, ele disse que era para depois.

Quando terminamos de treinar, uma hora e meia depois, eu estava começando a ficar com fome, já que tinha gastado muita energia e se aproximava do horário de almoço. Perguntei se iríamos almoçar antes de ir para a praia e fui surpreendida com uma resposta negativa.

– Por isso comprei as barrinhas. – Ele respondeu.

Não era possível que ele quisesse emendar horas na praia sem uma alimentação decente! Olha bem pra mim, sou toda magrela, preciso de sustância! Contestei que meus pós treino, seguindo a dieta do meu nutri, precisava ser algo muito mais nutritivo que uma simples barrinha de cereal.

Ele queria pular o almoço para chegar mais cedo na praia? Para que? Já tinha dito que seus amigos só chegariam mais tarde, que talvez nem fosse possível jogar voleibol, então não entendi a pressa.

Ao perceber o meu humor mudando drasticamente, ele disse que poderíamos parar em algum lugar para comprarmos um lanche para viagem. Ele não estava com fome e não teve a menor preocupação que eu estivesse. Após sairmos da lanchonete, a caminho do carro, ele disse algo muito deselegante, reforçando a minha percepção dele ser um extremo pão duro:

– Não serão todos os dias que conseguiremos comer fora. Algumas vezes teremos que comer em casa também.

Oi?? O cara que morava na melhor localização de Miami estava me dizendo que não poderia levar para jantar uma pretendente que ele trouxe do Brasil para passar uma semana com ele? Veja que não estamos falando de um mês ou uma vida inteira, mas apenas uma semana, que àquela altura só restava dois dias! Qual a necessidade de trazer o seu pão durismo à tona, fortemente daquele jeito?

– Não estou falando de comer fora, mas sim de comer. Eu poderia muito bem voltar no apartamento e comer a sobra do lanche que trouxe do Big Pink ontem. Só não sabia que não íamos almoçar antes de ir a praia. – Rebati.

A partir daquele momento se instaurou um grande ranço em mim. Tudo nele passou a me incomodar, principalmente a sua mania irritante de sempre falar “Oh fuck”, quando alguma coisa estava prestes a dar errado. Me soava tão falso e artificial, longe de conter qualquer charme americano na pronúncia. Comi metade do meu lanche no caminho e quando chegamos no estacionamento, ele não teve a paciência de esperar eu terminar, perguntando se eu não poderia finalizar na praia. Sim, claro, tudo que eu mais queria era fazer uma refeição debaixo de um sol de 40 graus.

– Claro. – Respondi, a fim de evitar novos conflitos.

Quando chegamos na praia, sequer havia a quantidade necessária de jogadores para que começassem a partida. Ou seja, eu poderia ter terminado o meu lanche na sombra e no conforto do ar-condicionado do carro tranquilamente. Me sentei num banco de cimento e continuei comendo a minha comidinha, encolhida numa fresta de sombra, graças ao tronco de uma árvore. Não tive o menor prazer em conhecer os seus colegas de jogo. Eles conversavam entre eles, tentando me inserir no assunto, mas eu só mexia a cabeça, com a boca sempre cheia, mastigando. “Como ele é egocêntrico”, eu pensava. Desde o início do dia fazendo as coisas dele. O treino DELE, a partida de voleibol DELE, nenhuma programação que fosse nossa. E ainda por cima queria me deixar sem comida ou então comendo embaixo de um sol daqueles.

*

Para que não nos atrasássemos para o show de Cabaret, teríamos que sair da praia pontualmente às 18h, que seria dali a duas horas. Contudo, ele se empolgou com a partida e mesmo que eu fizesse o típico sinal das horas, batendo com as costas do meu indicador em cima de um relógio de pulso invisível, ele continuou jogando por mais meia hora. Comecei a juntar as suas coisas para que entendesse o meu movimento de “vamos embora”, o que acabou funcionando, daí ele veio e fomos andando na maior pressa, separados, rumo ao estacionamento.

“Oh fuck”, perdi as contas de quantas vezes ele soltou essa irritante exclamação no caminho. Me senti na série Black Mirror, no episódio “Hang the DJ”, quando a protagonista já está de saco cheio do som que o cara faz toda vez que termina de beber alguma coisa, rs. Não nos falamos muito no trajeto de volta. Quando chegamos na garagem do prédio, enquanto ele dirigia até a sua vaga, chequei o horário e tentei esquematizar o nosso cronograma.

– A gente saindo umas 19:30, conseguimos não chegar atrasados.

Ao invés de simplesmente concordar comigo, parecia que ele sentia prazer em contribuir com a discórdia.

– 19:30? Temos que sair o quanto antes!

– Sim, eu sei, o quanto antes, mas pelo horário que já é agora, 19:30 é o mínimo que conseguiremos.

– Que horas são?

– Já são 19h. Até um tomar banho e depois o outro, será 19:30.

– Eu me arrumo rápido.

Fiquei quieta. Ao adentrarmos no apartamento, sugeri que ele fosse tomar banho primeiro, já que estava mais sujo de areia, mas ele disse que eu poderia ir. Tomei o banho mais rápido da minha vida e assim que terminei, fui avisá-lo para que também fosse. Nos arrumamos em silêncio.

– Tô pronta.

– Eu também. – Mentira, ele ainda estava finalizando.

Enquanto ele vestia uma camisa que ele tinha acabado de passar no vapor, todo desajeitado com a pressa, aproveitando que ele já estava na reta final e que eu não o atrapalharia, tentei quebrar o gelo:

– É ruim se arrumar com pressa, né? Rs.

– Não.

Ele não entendeu que a minha pergunta era para ser engraçada, como se eu estivesse me solidarizando com a correria dele.

– Os momentos podem ser bons ou ruins, de acordo com a maneira como você conduz. Uma coisa não muito boa pode ser engraçada, se você tiver jogo de cintura e senso de humor. – Ele disse, querendo me dar lição de moral.

Oi?? Eu não entendi por que ele estava me dando aquela alfinetada, como se eu estivesse reclamando de alguma coisa, quando eu simplesmente só tentei puxar assunto! Engoli aquilo em seco e ignorei, percebi que ele tinha entendido tudo errado e estava com preguiça demais para explicar.

– Pegou as chaves? – Perguntei quando estávamos saindo do apartamento.

– Você ouviu o que eu disse?

–  Ouvi, pegou as chaves? – Ele achava que eu estava fugindo do assunto?

Entramos no elevador em silêncio e o ar estava pesadíssimo. Eu não acreditava que já estava azedando de novo. Olhei para o relógio e adivinha que horas eram? 19:30! Brincalhona, tentei quebrar o gelo mais uma vez:

– Olha só, estamos saindo no horário que eu falei que sairíamos! 19:30!

– SIM! 19:30!! – Visivelmente alterado.

– Você está bravo?!

– ESTOU! PORQUE VOCÊ ESTÁ BRAVA!

Eu não estava. Mas a partir daquele instante eu fiquei.

– EU NÃO ESTOU BRAVA!

– FICOU SE ARRUMANDO TODA EMBURRADA!

– Genteeee, eu estava concentrada!

– GENTEEEEE… – Ele teve a audácia de me imitar!

A partir daí começamos a falar ao mesmo tempo, soltei bem alto um: “VOCÊ É INSUPORTÁVEL!”, mas não sei se ele ouviu, já que falava junto comigo. Eu entrei num estado de alerta fortíssimo em que me calei, travei o meu maxilar e comecei a respirar fundo, forte e rápido, tentando eu mesma me acalmar, pois a minha vontade era de explodir e voar no pescoço dele. Nunca em toda a minha vida eu estive num estado de fúria como aquele. Eu sou muito tranquila, foi bizarro me ver sentindo algo que eu nunca vivenciei antes.

Por um segundo pensei em desistir de ir ao evento, mas numa fração de segundo, lembrei que a outra alternativa seria ficar no apartamento com ele. Pelo menos saindo eu me distrairia da sua cara.

Quando percebi que discutir não adiantaria, porque ele falava junto comigo, me calei e comecei a respirar fundo, tentando me acalmar internamente. Porém, mais do que as grosserias que ele cuspia, a sua voz estava me irritando. A porta do elevador abriu no andar do estacionamento, e mesmo comigo em silêncio, ele continuava reclamando, enquanto ia na frente.

– Tudo você reclama! Nada tá bom pra você!

Do que eu tinha reclamado? Só estava tentando puxar assunto e ainda era acusada de algo que eu não tinha feito! Isso me enfureceu ainda mais! Meu sangue foi esquentando e, de repente, me vi gritando mais alto que ele:

PARA DE FALAAAAR!!! EU NÃO TÔ FALANDO NADA! ENTÃO CALA A BOCA TAMBÉM!!!!!

Cheguei

no meu

limite.

CONTINUA

Puta Day

2 de junho, dia Internacional das Trabalhadoras Sexuais

Querido diário,

Tenho vivido coisas novas e muito legais ultimamente.

Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente outras mulheres que também são trabalhadoras sexuais, assim como eu, e pela primeira vez me senti pertencente a um grupo. Mais do que isso, me senti acolhida, zero julgada e parte de algo maior.

Continue comigo nessas páginas para descobrir como tudo aconteceu! 😎

DILETA

“Amiga, semana que vem estarei em São Paulo. Vamos marcar um rolê.”

A Dileta era uma colega de trabalho (digo era pois agora somos amigas) das redes sociais, mais especificamente do TikTok. Quando criei a minha conta, em outubro de 2024, ela começou a me seguir imediatamente, fui conferir o seu conteúdo – muito similar ao meu, falando sobre seu trabalho e visão de mundo – me identifiquei com a forma sensata de como ela se posicionava e a segui de volta.  Passou-se um tempo e ambas fomos convidadas para participar de uma reportagem da BBC – caso não tenha visto, só clicar aqui – uma coincidência que acabou nos aproximando ainda mais, mesmo sem nunca termos nos visto pessoalmente. Dileta mora e trabalha em Araraquara e viria para SP apenas para ir a um evento, o “Puta Day”, em sua primeira edição, que quase deixei de ir para atender um cliente. Ainda bem que consegui remanejar meu compromisso e também compareci ao evento!

Sol Rara

“Oii, tudo bem? Eu vou no evento hoje. Estou animada pra te ver, estou com saudades.”

Em meados de dezembro de 2024, Sol entrou em contato comigo pelo Instagram, querendo contratar a minha mentoria para acompanhantes. Como final de ano é sempre tão corrido, falei que não estava fazendo no momento, mas me deixei a disposição para tirar dúvidas e fui auxiliando da maneira que pude. Lhe dei algumas dicas enquanto ela montava seu PDF com as informações de trabalho e até divulguei seu insta no meu storie, quando me pediu ajuda com isso. 

Como tivemos interações recorrentes através das redes sociais, resolvi conhecê-la pessoalmente, pois, diferente da Dileta, que não mora na cidade de São Paulo, foi possível combinarmos algo facilmente. A chamei para irmos a uma peça de teatro, de um amigo meu que estava no elenco, de lá fomos jantar e depois lhe dei uma carona até em casa. 

Após esse encontro, até tentamos manter contato, mas, devido a correria do meu lado, acabamos nos afastando. Eis que nos reencontraríamos neste evento.

Margô

“Estarei lá também! Você vai ficar brava se eu te tietar? Kkkkk”

Margô também já me acompanhava no insta e interagimos algumas vezes, sendo a mais marcante quando postei sobre uma peça de teatro que eu tinha ido e ela respondeu dizendo que conhecia a figurinista do espetáculo. Aquilo me fez ver como o mundo é pequeno. Ela conhecia a galera do figurino, eu conhecia a galera do elenco e cá estávamos nós, cada uma no seu corre, trabalhando com job, rs.

Chegamos ao Puta Day!

O evento começava às 17h, mas cheguei às 18h. Ocorreu num lugar chamado Lovenox, no Centro de São Paulo. Era um casarão com uma porta de entrada pequena e discreta. Um rapaz muito simpático, com ar divertido, me atendeu e me conduziu para o porão, um cômodo de luz vermelha, que ficava logo a esquerda da entrada, para que eu me identificasse. Depois liberou a minha entrada e lá fui subindo as escadas sozinha, que me levaram até um extenso corredor. Nas paredes havia quadros de fotos pornográficas, que achei um pouco chocante, me perguntando o que seria aquele lugar.

O primeiro cômodo à direita tinha uma poltrona, ring light e uma decoração mais caprichada para criação de conteúdo. No cômodo seguinte, mais aberto e amplo, de onde se ouvia muitas mulheres conversando, era uma sala, aconchegante, nem muito grande, nem tão pequena, com duas janelas enormes que davam para a rua. Fiz um rápido raio x pra ver se conhecia alguém e me acomodei, timidamente, num puff perto da janela. O evento não estava tão cheio (ainda), algo em torno de dez mulheres. A sexóloga Andréa Oliveira fazia um discurso, que tentei acompanhar o conteúdo, mas chegando com o bonde andando fiquei um pouco confusa. Me ocupei em apenas observar o espaço e as outras mulheres presentes.

Aos poucos fui tendo pequenas interações com as organizadoras do evento: a @agata.kyll e @svetlanna.jpg, até que a Dileta chegou no recinto, sendo ovacionada pela mulherada. Aos poucos mais garotas foram chegando, entre elas a Sol e a Margô e as interações foram fluindo naturalmente.

HELENOIR

“É estranho ver pessoalmente quem a gente segue no Insta, rs. Oi, eu te sigo!”

– É mesmo? Então me dá um abraço! 

E ali já engatamos uma conversa. Em pouco tempo descobri que a Helenoir trabalhava como dominatrix online e já havia realizado alguns encontros presenciais apenas para realizar sessão de BDSM em que ela era dominadora, contratada apenas para humilhar, sem que houvesse o ato sexual envolvido. Achei do caralho. 

Ela me contou que seus clientes virtuais adoravam ter conversas intelectuais com ela, descobri que ela também tem uma veia artística, e tivemos um diálogo muito engraçado sobre “dildos”. Ela contou que um cliente que era diretor de cinema, estava desenvolvendo uma produção cinematográfica em que no contexto da produção, ele teve a ideia de filmar uma mulher pendurando calcinhas. Daí Helenoir deu-lhe a ideia de que ao invés de pendurar calcinhas, e se essa mulher pendurasse dildos?

– Diu? – Não entendi muito bem.

– Dildos. 

Eu não sabia o que era dildo e fiquei refletindo por dois segundos se perguntava o significado ou se fingia que entendi, sem querer parecer uma burra.

– Desculpa a minha ignorância, mas o que é dildo?

– Um suporte peniano que você usa quando vai comer alguém. 

– Como assim?

– Que você coloca na cinta peniana.

– Ahhh tá. Nossa, eu conhecia por outro nome.

– Por qual nome você conhecia?

– Pinto de borracha kkkkkkkk.

– Kkkkkkkkkkkk.

Caímos na risada. 

– É, pinto de borracha é o nome popular kkkk. Dildo é o nome correto. 

Olha pra mim, dez anos como trabalhadora sexual, e ainda assim sigo aprendendo.

Achei muito interessante conversar com ela. Helenoir contou que era bissexual e que adorava comer o cu dos homens. O que achei impressionante, comparado a mim que nunca vi a menor graça em fazer inversão e até retirei essa modalidade do meu atendimento. 

– Eu sinto muito prazer fazendo isso. – Ela continuou. 

– Mas como você consegue sentir prazer se não é seu pinto de verdade?

– Quando eu tô usando o meu pau e a pessoa está ajoelhada na minha frente chupando, eu sinto como se eu tivesse um pau de verdade. 

– Mas como assim? Você sente como se fosse uma massaginha? – Tentei comparar com a gostosa sensação de quando alguém nos faz um cafuné. 

– Isso. Eu sinto como se a pessoa estivesse chupando os meus dedos. 

– Caramba… 

– Eu já levei isso pra terapia, e a minha psicóloga disse que é como quando as pessoas tem um membro amputado e ainda conseguem sentir a sensação do mesmo.

– Caramba…

Ela também contou que tinha uma coleção de dildos.

– Quantos você tem?

– 6! – Visivelmente orgulhosa.

– Caramba! Menina eu só tenho um. Por que você tem tantos?

– Ah tenho de vários tamanhos. Porque cada pepeka é diferente – ela também usava para as relações sexuais com suas ex-namoradas. – Eu namorei uma menina que não gostava de remeter o dildo a um pênis masculino, então eu tenho um que é todo cheio de purpurina, outra cor, pra que ela pudesse ter prazer. 

– Caramba… rs

*

Em outro momento fizemos uma rodinha ao lado da janela, e quando a Dileta, Helenoir e Margô se deram conta que todas elas eram domme (dominadoras), deram gritinhos histéricos ao mesmo tempo, se reconhecendo como membros da mesma tribo. Foi gostoso de ver aquela conexão imediata.

Ali, sem dúvida era um ambiente muito acolhedor e de conexão para todas nós. Rolaram conversas que qualquer pessoa de fora do nosso meio acharia engraçado acompanhar:

– Ninguém imagina que muitos clientes nos contratam só pra ficar de chamego.

– Ou que a maioria deles tem pau médio pra pequeno.

– Pois é! Eu achava que a média dos homens era grande, mas os grandes são a minoria, rs.

– Verdade, mas eu não gosto de pau grande não.

– Eu também não.

– Machuca e mal cabe na boca.

– Outro dia um cliente pediu pra eu avaliar o pinto dele.

– E aí?

– Falei que era pequeno.

– Kkkkkkkkkkkkkkkkk. – Todas riram.

– Mas falei que era bom pra ele comer um cu. Essa é a única hora que eles gostam de falar que tem pau pequeno, kkkk.

Quando que eu teria esse tipo de prosa com amigos do teatro, do jornalismo ou de qualquer outra área que não fosse a do job?

Roda de Conversa

Depois as organizadoras anunciaram que iniciariam uma roda de conversa, discursaram e passaram o microfone para quem quisesse se apresentar e contar um pouco da sua trajetória. Fiquei cativada pela desenvoltura que algumas refletiam e debatiam sobre o nosso trabalho:

– A gente não tá no tempo da escravidão, o nosso corpo não é moeda de troca. A gente vende O TEMPO, o psicólogo vende o tempo, o personal trainer vende o tempo, a porra do médico vende o tempo, o advogado vende o tempo. O cara quando procura uma profissional do sexo ele procura um CONTATO. Qual é esse contato? Não sabemos. O cara vem pra falar no nosso ouvido que a mulher tem periquito torto. – Todas rimos kkkk. – Entendeu? Então ele busca um contato, então o governo tem que entender isso, eu não vendo sexo, eu vendo o meu tempo e dentro desse tempo determinamos qual contato vai existir. Agora se vocês aqui (o governo) ridiculamente falar que nunca usou o serviço de uma profissional do sexo, vocês vão mentir descaradamente, porque assim, a gente tá vendo na cara de vocês que vocês tem tudo cara de cliente. – Rimos mais ainda. – @laboratoriodeprazer

– Se eu vendesse pura e simplesmente sexo eu tava passando fome. Então sim, é tempo e é um trabalho criativo do caralho, porque você tem que ambientar o seu cliente, tem que atender a fantasia, quando existe, e não tô nem falando sobre  fantasias extremas, BDSM e etc, a experiência com uma garota de programa ela já é um fetiche por si só. Porque ele acha que você é muito experiente, que você é muito rodada e que você trepa até no teto. – Todas rimos kkkk.  – “Vou contratar uma profissional porque ela sabe o que faz”. @deusaynas_

– Mas é isso mesmo, a gente sabe o que tá fazendo! – Alguém gritou do fundo.

– Claro, exatamente, é óbvio. Então assim, toda essa ambientação, todo esse esforço que a gente faz também é um trabalho intelectual e criativo. Tipo assim, pra eu falar pro meu cliente que ele não pode misturar pó e tadala porque senão ele vai morrer! – Todas rimos novamente kkkkkk. – Porra… você acha que em casa ou na roda de amigos ele vai ter esse tipo de instrução? Não vai! Então assim, procurar uma profissional, as vezes tem muito disso, e é o que ela falou da questão do contato.

– Às vezes salva! – Outra gritou.

– Salva pra cacete.

“Não cheira! Para de cheirar senão essa porra desse pau não sobe mais!!”

E assim foi seguindo a roda de conversa com interessantes debates.

Infelizmente poucas tiveram a oportunidade de falar, uma senhora monopolizou o microfone várias vezes, – uma looonga linha do tempo a se compartilhar, rs – do nosso grupo apenas a Dileta conseguiu falar um pouco no final. O evento estava programado para encerrar às 22h e esticou por mais meia hora. Fomos embora querendo mais.

Saí de lá com uma sensação tão boa de irmandade e acolhimento. Como muitas disseram, nosso trabalho é de certo modo solitário, pois, somos nós com o cliente e nada mais. E não é o tipo de coisa que podemos compartilhar com qualquer pessoa, sem receber um olhar de julgamento. Nos conectarmos com outras semelhantes a nós foi mesmo libertador. Que delícia poder sermos nós mesmas.

O match foi tanto que saímos do evento já formando um grupo no Whatsapp e combinando de jantar dali a três dias, antes da Dileta voltar para Araraquara.  

Preparados para a segunda parte dessa resenha?

Girls Just Want To Have Fun


A definição do lugar carrega uma resenha engraçada. Quando a Dileta mencionou sobre sairmos todas pra jantar antes que ela voltasse pra sua cidade, tivemos o segundo desafio que era encontrar um lugar que todas gostassem.

– Eu gosto de boteco pé sujo. – Ah Dileta falou e mais alguém concordou que também.

– Mas calma, vamos pensar em algo meio termo porque boteco pé sujo só tem fritura! Kkkkkk. – Defendi meu lado kkkk.

Daí no dia seguinte seguimos tentando definir no grupo:

– Jantarzinho na sexta então, a partir das 19h. Quem quiser manda sugestões de lugares aqui. Vamos definir. – Lancei a missão.

– Urbe, Riviera, Braz Elétrica, Futuro Refeitório… Alguns lugares que estão entre o boteco pé sujo da Dileta e o estrela Michelin da Sara kkk. E tem boas opções vegetarianas. – Margô.

– Eu voto no Urbe! – Escolhi.

– Braz elétrica e futuro refeitório tá do lado de casa, mas de todos eu gostei do Urbe também. – Dileta.

– Não conheço nenhum, então vou confiar no bom gosto de vocês. – Helenoir.

– Vamos no Refeitório amanhã? O que acham de ir às 18h? Vi que fecha 22h30. – Sol.

– Eu topooo. – Dileta.

– Esse horário não consigo. Mas encontro vocês lá por volta das 19h ou 20h. Ficou definido nesse refeitório então? – Perguntei.

Daí a Margô lançou uma enquete e o Urbe Café Bar ganhou!

*

Novamente, adivinha quem chegou antes de todo mundo? Euzinha aqui. E olha que geralmente eu sou a atrasada do rolê, não sei o que tá acontecendo, rs. Dali a pouco, Margô chegou.

– Cadê aquela sainha do seu story? – Brinquei, pois mais cedo ela tinha postado uma foto toda sexy.

– Ai menina voltei em casa pra trocar de roupa. Muito frio, rs.

– E como foi o cliente? Foi bom?

Ela fez uma pausa dramática, que a princípio me pareceu que tinha sido ruim, mas logo acrescentou:

– Foi muito bom!!

E aí ela compartilhou que era um cliente fetichista, que ela fez golden shower nele. Esse mundo das dominatrix é fascinante. Adoro ouvir as histórias, ainda que eu não tenha vontade de atender esse perfil.

Depois o assunto foi avançando e ela me contou de um fetiche insano que pedem pra ela.

– Marmita com fezes.

– Não é possível. Com fezes mesmo?

– Aham.

– E envia como? Pelo correio?

– Não sei como seria isso, nunca fiz. Mas já me pediram várias vezes.

– Eu tô passada. Você teria coragem?

– Eu teria. Só não faço porque fico pensando no que a pessoa pode fazer com meu DNA.

– Nossa eu também não vendo calcinha usada com medo de fazerem macumba pra mim kkkkkk. Mas eu tô passada com isso. Que prazer será que a pessoa sente com isso? Fezes é o descarte do seu corpo, não tem nada de bom ali.

– Tem uma teoria seguindo a psicanálise…

E bem nessa hora a Sol chegou, interrompendo algo que a minha ansiedade estava doida para descobrir.

Na teoria psicanalítica clássica, especialmente em autores influenciados por Sigmund Freud, as fezes não são vistas apenas como resíduos biológicos. Elas podem adquirir um forte valor simbólico ligado a temas como:

• relação com o corpo;

• limites entre eu e o outro;

•  posse e entrega;

• controle e submissão;

• intimidade extrema;

• amor e agressividade misturados.

Em algumas leituras psicanalíticas, o desejo de incorporar algo tão íntimo e visceral do outro poderia simbolizar uma busca de fusão radical, uma tentativa fantasmática de eliminar a separação entre “eu” e “você”.

Autores posteriores, como Melanie Klein, exploraram muito a fantasia inconsciente de incorporar partes do outro amado ou desejado. Embora ela não estivesse falando especificamente de coprofagia, a noção de “incorporação” é central: o sujeito fantasia colocar o outro dentro de si, possuí-lo completamente ou unir-se a ele de forma absoluta.

Também existe uma linha de pensamento que relaciona o fascínio por secreções corporais (fezes, urina, sangue, sêmen etc.) à experiência de acessar aquilo que normalmente é excluído, escondido ou considerado abjeto. Nesse sentido, consumir fezes poderia representar não apenas união, mas uma transgressão máxima das fronteiras sociais e corporais.

Algumas correntes psicanalíticas citam a chamada fantasia de retorno a um estado indiferenciado, anterior à separação entre eu e outro. Nessa lógica, quanto mais se atravessam os limites corporais, mais se encena simbolicamente essa união absoluta.

Interessante, não?

Depois de um tempo chegou a Dileta e por último a Helenoir.

Reparei que a dinâmica da nossa roda de conversa foi muito bem conduzida. Quem chegava naturalmente virava o centro das atenções por alguns minutos, compartilhando sobre o seu dia, e aos poucos, a conversa voltava a circular entre todas. Às vezes estávamos em grupos menores, outras vezes todas envolvidas no mesmo assunto, mas tudo acontecia de forma muito fluida. Ninguém ficava de lado.

AS MARCAS QUE NÃO APARECEM NAS FOTOS

Em algum momento chegamos a uma pauta muito delicada na vida de toda mulher. E apesar de não ser uma pauta gostosa, fiz questão de ouvir o trauma de cada uma. 

Eu tenho uma teoria de que todas as mulheres (da minha geração, pelo menos, como também das gerações anteriores), sofreram algum abuso sexual na infância. E digo mais, arrisco dizer que toda trabalhadora sexual está inclusa nesta estatística.

Mas me surpreendi que uma de nós, naquela mesa, não sofreu abuso na infância, mas sim já na vida adulta:

– Eu tinha um namorado que a gente sempre ia no motel transar sob efeito de bala (êxtase). Daí ele tava me comendo de bruços e em algum momento disse: “Agora eu vou fazer seu cu de buceta”, e entrou com tudo, sem lubrificante, sem camisinha e o principal: sem a minha autorização. Fiquei uma semana sentindo dor na região e ele ainda fez piadinha que tinha saído feijão, sendo que eu nem tinha me preparado para aquilo. E eu só fui me dar conta que tinha sido estuprada dois anos depois, quando ouvi um relato parecido de outra mulher, quando estava cursando sociologia.

Felizmente eles já não estavam mais juntos.

*

O segundo relato me deixou ainda mais perplexa. Ela tinha 6 anos e estava numa festa de casamento. Brincava com outra criança, até que as lembranças ficaram confusas e de repente estava com um homem dentro de um cômodo. Este tampou sua boca e ameaçou matá-la se ela contasse para alguém. Ela não lembra da situação em si, mas tem a lembrança de sentir a boca com algo dentro de modo que ela não conseguisse movimentar a língua e então um gosto ruim. Depois foi até seus pais chorando, dizendo que queria ir embora, que estava com um gosto ruim na boca, mas estes estavam alcoolizados e não lhe deram a devida importância.

*

– Eu tinha 13 e ele 32 quando começamos a “namorar”. Perdi a virgindade com 14, que ele falava que tinha que esperar até os 14 pra não ser preso. Foi um relacionamento abusivo, ele fazia muita violência psicológica comigo, que no final avançou para violência física. Várias vezes quando eu tava dormindo, acordava com ele transando comigo. E eu fazia mais para agradar, ele queria fazer todo dia e eu, com aquele pensamento de querer agradar o meu namorado, fazia sem vontade. Ficamos juntos por seis anos. Quando eu estava mais velha, encontrei um pen drive na gaveta dele, e fui ver o que tinha, adivinha? Se tratava de um vídeo de pornografia infantil.

*

E para quem pensou: “E o seu trauma, Sara?”, já contei essa história aqui no blog em outra postagem, só clicar aqui.

Afinal, quando isso vai acabar? Quando o homem vai respeitar o corpo da mulher? Ou ele abusa na infância, ou estupra na vida adulta. Eles gostam de abusar e tomar, mas quando temos controle e cobramos, nos criticam. Se fosse um homem no nosso lugar, recebendo dinheiro para comer uma mulher, duvido que eles discriminariam a si mesmos. Pelo contrário, se sentiriam o pica das galáxias. 

Então, na verdade, o que incomoda não é “a venda no nosso corpo”, já que a história mostra que nunca respeitaram o corpo feminino. O que incomoda mesmo é a nossa liberdade. É a gente decidir por nós mesmas quem terá acesso e ainda lucrarmos em cima disso. E a mulher que tem seu próprio dinheiro, não depende da submissão a um homem. Aproveitando o ensejo, recomendo este livro:

As Prostitutas na História - Nickie Roberts


Segundo Nickie Roberts, autora do livro: “As Prostitutas na História”, em tempos antigos, as prostitutas já foram consideradas deusas sagradas e os ritos sexuais uma tradição divina. Foram homens, invejosos do governo, querendo “recuperar” o poder sobre a gente, que criaram o moralismo, o cristianismo e por fim, o casamento, no intuito de controlar ainda mais as mulheres. Infelizmente, muitos ainda não estão preparados para essa conversa. E o mais ridículo é que esses mesmos que condenam, são os que consomem escondido. 

Espero contribuir, nem que seja um pouquinho, para que num futuro distante, a mulher possa ser respeitada e nunca mais abusada ou difamada por um homem.

E como é bom fazer parte de uma irmandade. Onde podemos nos apoiar, compartilhar nossas dores, rir de situações que só a gente entende e sonhar juntas por um futuro melhor para a nossa classe social. A classe das mulheres e principalmente das trabalhadoras sexuais

Que o evento “Puta Day” repita todo ano e que mais mulheres possam se apoiar. Amei conhecer universos diferentes do meu, amei formar uma nova rede de apoio com quem também é do meio, amei encontrar um lugar seguro para compartilhar o que eu vivo de forma acolhedora e extremamente empática. Amei sentir esse aconchego vindo de uma deliciosa sensação de pertencimento. Acho que enfim encontrei a minha tribo. Fui embora com o coração quentinho, com novas amizades e a certeza de que caminhar junto torna qualquer jornada mais leve.

Que venham os próximos encontros! ❤️

Nem Todo Gringo é Um Bom Partido – Parte 6

Primeira Briga

Estávamos sem grandes planos para aquele resto de noite, então ele sugeriu assistirmos uma ‘película’ – filme em espanhol – em casa. Topei de bom grado, seria legal termos uma programação mais amorzinho juntos diante de tantos tropeços. Daí ele me entregou seis filmes em DVD que ele tinha comprado. Eu achei que fôssemos escolher um filme juntos, na Netflix, com infinitas e variadas opções, não que fosse restrito a filmes que ele já tinha comprado. Mas tudo bem, não criaria caso por conta disso, só questionei se aqueles filmes teriam legendas em português e ele respondeu que achava que não.

Muito legal.

Daí ele ligou a TV e já estava passando Pearl Harbor, um filme muito bonito por sinal, que mesmo pegando pela metade e sem entender muitas coisas – já que estava em inglês e sem legendas – ainda chorei no final. Quando esse acabou, ele me entregou os filmes para que eu escolhesse e conforme eu olhava capa a capa, para escolher o que mais me agradava, notei que todos eram finos. Pensei: “Nossa, estão aderindo capas slim agora?” A qualidade das imagens no papel estava impecável demais para pensar que eram filmes pirata. Porém, quando abri o DVD do filme que eu tinha escolhido, “DOG” com Channing Tatum, notei pelo CD que não era original. Você vai me achar uma chata, mas aquilo me indignou de certa maneira. Primeiramente porque sou atriz e sei o quanto o comércio de filme pirata é desleal com o trabalho de todos os envolvidos naquela produção. Segundo porque tenho coleção de filmes originais em casa, o que só reforça o meu desprezo por filmes ‘do Paraguai’. Não consegui ficar quieta e soltei um comentário sarcástico:

– Filme pirata? Então você incentiva a criminalidade? Rs.  

Ele disse que sempre comprava de um senhorzinho quando ia ao México. Que eram filmes que ele não encontrava para assistir em nenhum lugar. Achei a justificativa fraca, já que hoje em dia é possível encontrar qualquer filme em várias plataformas de streaming, ainda mais uma produção tão atual, de 2022. Fiquei na minha, não era o momento de iniciar um debate.

Quando acabou o filme que estava passando na TV e ele colocou este que escolhi, era gritante a mudança. Imagem ruim, acompanhado de um som contínuo, que demorei a identificar de onde vinha. Sabe quando uma caixa de som está no último volume, mas não tem nada tocando, e só fica aquele som chato “tummmmmm”? Pois então, exatamente esse som. Perguntei:

– Que barulho é esse??

Eu mesma perguntei e eu mesma respondi, quando me dei conta do que era.   

– Ahh… é o filme pirata. – Completei desaforada.

Ele se ofendeu e a discussão foi iniciada.

– Você disse que não encontra esses filmes em lugar nenhum, mas tem para comprar original na internet. – Falei numa boa.

– Como vou colocar para passar na TV algo da internet?!

Agora sim eu senti na pele nosso problema de comunicação. Eu estava falando de arroz e ele entendendo abobrinha. Ele achou que eu me referia aos torrents da vida, tipo baixar o filme na internet, e ficou se defendendo, dizendo que não seria possível porque a TV dele não era Smart. Ficamos nesse embate chato, até que fui buscar o meu celular para ilustrar o que eu estava dizendo. Joguei o nome do filme mais a palavra ‘comprar’ no google e lhe mostrei que eu me referia a comprar o filme original pela internet, não baixar.

– Se está tão incomodada pode assistir a Netflix na TV do quarto.

Engoli seco aquela grosseria. Tudo bem que eu também fui irritante com aquela questão, admito, mas ele não precisava descer ao mesmo nível, cadê toda a sua maturidade de homem mais velho? Vencida, apenas mexi a cabeça, como quem diz “tá bom” e voltei a sentar do seu lado, porém, mais afastada, a fim de apenas terminar de comer a pipoca. Assim que terminei, me levantei e fui lavar a vasilha. Depois, sem dizer uma palavra, fui para o quarto, o deixando sozinho na sala. Eu não estava acreditando no que estava acontecendo. Segunda situação desagradável em tão pouco tempo. Como se tudo isso já não fosse péssimo o suficiente, ainda teve um plus, pois, ele foi até o quarto ver o que eu estava fazendo.

– Você não vai mais assistir? – Perguntou.

– Tô com sono. – Menti, a fim de evitar mais discussão.

– Eu coloquei o filme por sua causa! Porque você queria assistir! – Em tom de acusação.

Oi?? Eu queria assistir? Ele falou de um jeito como se eu não tivesse tido que escolher entre seis filmes que ele já tinha comprado. Quem o visse falando até pensaria que eu estava louca de vontade de ver aquele filme, rs.

– Eu queria assistir? Escolhi entre as opções que tinham! Ainda um filme sem legendas! – Rebati.

Nesse momento descobri que ele é uma pessoa muito irritante para discutir, pois, não entende a regra básica de uma discussão, em que cada um tem a sua vez de falar e ficou falando junto comigo, ou seja, ele não ouvia nada do que eu estava dizendo.

– Você está sendo mal-educada! Senão queria mais assistir era só ter falado: “Peter, estou enojada (brava em espanhol), não quero mais assistir!” e não vir para o quarto sem falar nada! – Num tom bastante alterado.

– Eu não tenho que dar satisfação dos meus movimentos, já estava subtendido que eu não queria mais assistir.

– Não estava! Você tem que comunicar, não ser mal-educada. – Ele que estava sendo mal-educado, tratando uma visita daquele jeito!

Na cultura dele era um absurdo que eu tivesse feito aquilo, assim como na minha também era extremamente grosseiro o que ele estava fazendo, indo atrás de mim falar umas groselhas, apenas porque não comuniquei que não queria mais assistir o precioso filme dele.

– Eu nem queria assistir esse filme, coloquei porque você escolheu! – Continuou me atacando.

– Você não queria assistir ao filme que você mesmo comprou?! Kkkkk. – Debochei.

Ele estava com a voz alterada, visivelmente irritado. Saiu do quarto batendo porta, convencido que eu não tinha recebido a devida educação na minha criação.

Assim que ele saiu, eu só consegui pensar numa coisa: “Vou embora”. No mesmo momento mandei mensagem para um amigo ver quanto ficava para trocar a minha volta para o dia seguinte. Amigos são tudo nessas horas. Daí descobrimos que a minha passagem foi comprada com milhas, ele teria que cancelar, os pontos retornariam e só aí poderia emitir uma nova. Droga. Teria que falar com ele sobre isso. Naquele momento não tinha o que fazer, eu não iria para a rua, procurar um hotel, tarde da noite e correr outros riscos num lugar que eu não tinha o menor domínio. Outro idioma, outra moeda, tudo que eu não precisava era ter mais estresses naquela noite. Procurei me acalmar e dormir. Ele dormiu na sala, ótimo. Em algum momento da madrugada, o senti deitando-se na cama, mas não nos tocamos.

Na manhã seguinte, ele acordou antes de mim e foi para a sala. Fui para o banheiro e comecei a juntar as minhas coisas. Tirei tudo meu que estava lá e trouxe para o quarto, onde estava a minha mala. Após um tempo, percebi que ele tinha ido ao banheiro pela porta da cozinha, e não muito depois me chamou na varanda, dizendo que queria me mostrar uma coisa. Se tratava de um lindo arco íris.

– Eu nunca vi um desse aqui. – Ele falou.

– Bonito mesmo. – Respondi seca.

Silêncio.

– No Brasil quando vemos um arco íris fazemos três pedidos. – Falei.

– Ahh é? Vamos fazer esse pedido então.

Mais um tempo de silêncio, até que me abraçou, comigo de lado.

– Não quero que termine assim. Me desculpa. – Ele disse.

Qual a probabilidade de ter um arco íris ali, sendo que nem tinha chovido? Me pareceu muito um sinal do universo para que eu desse mais uma chance. Eu também gostei que ele tinha baixado a guarda e reconhecido que tinha errado. Aceitei o pedido de desculpas e decidi continuar vivendo aquela história. No entanto, por mais que ele tivesse se desculpado e eu aceitado, não conseguia voltar ao meu mood extremamente feliz como no começo. Eu precisava de um tempo para processar o ocorrido, o que só se resolvia 100% na cama. Inclusive, achei muito curioso que as nossas transas, para mim, tinham ficado mais interessantes após o episódio da briga. Era como se eu gostasse de fazer as pazes na cama. Será que eu gostava de amor bandido? Me analisei preocupada.

*

– Eu estava mais otimista em relação a vocês. Aquelas, não shippo mais! Já pode vir embora! Kk.

– Calma amiga, não estragou tanto assim. Gostei que ele pediu desculpas.

– Alguém tinha que ser maduro. Que comentário desnecessário o seu também, do filme pirata. Você tá na casa da pessoa e critica isso, um pouco indelicada.

– Sim, também tive culpa. – Reconheci.

Partida de Tênis

Depois que me pediu desculpas, me convidou para jogar tênis. Tem uma quadra pública na frente do seu prédio. Ele também tinha comprado uma roupa a caráter para mim. Achei que seria aquele conjuntinho branco clássico, composto de blusinha e saia, mas foi um vestido preto da Calvin Klein. Bacana também. A regra para utilizar a quadra pública era muito simples, cada usuário poderia usufruir por 1h, sendo esperado esse bom senso de cada um, pois, não tinha ninguém para supervisionar.

No entanto, um rapaz que chegou antes da gente, não estava jogando, mas também não liberava a quadra para que utilizássemos. Depois entendemos se tratar de um professor de tênis, que estava esperando o aluno chegar, cujo chegou meia hora depois de já estarmos aguardando. Achamos esse tal professor bastante folgado, pois, o tempo que ele ficou esperando o outro jogador chegar, poderia nos ter liberado a quadra e depois aguardado terminarmos, mas, não foi bem assim que as coisas aconteceram. Durante aquela espera tentei nos distrair com alguns vídeos engraçados de páginas que sigo no Instagram, contudo, foi inevitável uma discussão entre o Peter e esse rapaz depois, quando encerrou a sua 1h de uso e ele continuou jogando, provavelmente querendo contar o tempo somente depois que o seu aluno tinha chegado. As coisas só se resolveram quando o jogador da quadra ao lado – eram duas quadras – anunciou que já estava terminando e que a outra quadra ficaria disponível.

Eu tinha avisado ao Peter que nunca joguei tênis na vida, apenas de mesa, muitos anos atrás, mas acho que ele não esperava que eu fosse tão inexperiente. Aquela 1h foi dividida entre aulas e treinos. Ele me ensinou como jogar, dispensou um bom tempo comigo praticando e no final joguei algumas bolas para que ele praticasse seus lances também. Sinceramente falando, aquela 1h não foi um momento divertido. Primeiro porque iniciamos logo depois da discussão entre ele e o outro usuário, então o clima estava pesado, essa situação roubou um pouco o prazer de estarmos ali. Segundo que como eu não sabia jogar, estava me sentindo pressionada a acertar de primeira, não o achei muito paciente, e não foi uma cena romântica como vemos nos filmes, com o parceiro te abraçando por trás para te ensinar como segurar do jeito certo. Claro que ele reconhecia quando eu acertava, mas eu não estava nem um pouco relaxada. E terceiro que tudo isso foi debaixo de um sol escaldante. Cada partícula do meu corpo pingava, eu só queria que desse a uma hora logo para sairmos daquele sol e irmos para a sombra. Quando enfim encerramos e voltamos para o apartamento, até meu sutiã estava molhado de tanto suor.

Como jogar tênis não tinha sido aquela atividade romântica e prazerosa que tivesse reaproximado a gente, o sentimento da briga da noite anterior se instalou em mim novamente, me fazendo ficar mais fechada. Ele percebeu a minha cara de poucos amigos e quis conversar sobre o que estava acontecendo. Falei que não consigo virar a chavinha tão rapidamente, que ainda estava chateada pelo ocorrido e aí ele disse que não precisaríamos continuar ficando se eu não quisesse, que poderíamos aproveitar o restante da minha viagem como amigos, que ele só queria ter bons momentos juntos. Essa conversa fez muito bem para nós, pois, depois fiquei até com tesãozinho e quando transamos, logo após tomarmos banho, ao voltar da quadra, parecia que a briga era a pimenta que estava faltando! Passei a achar a nossa transa muito mais gostosa, ainda que nada de novo estivesse acontecendo na sua performance.

– Foi tão gostosa a transa menina! Acho que eu transei com uma vontade que eu não tinha transado até então, nessa viagem. Gozei duas vezes e ele nenhuma, rs. – Compartilhei com a minha amiga por mensagem.

Depois do sexo cochilamos e mais tarde passeamos. Fomos em Wynwood, mas assim que chegamos no bairro começou a chover, então nem saímos do carro e alteramos a rota. Fomos para um Shopping de Outlets, por iniciativa dele, que precisava comprar algumas coisas, e deixamos para voltar em Wynwood outro dia que estivesse ensolarado.

Nesse outro passeio que fizemos, pude notar mais coisas nele que não gostei.

CONTINUA

Cuidado ao Abordar uma GP

Mala

Querido diário,

Desde a última postagem deste quadro, em 2024, eis que ressurjo com um compilado engraçado de homens que estavam muito à toa em suas vidas, carentes de atenção, mas sem nenhum tostão para saírem do imaginário. 

Conseguiram roubar um pouco do meu tempo (e a minha paciência), por um curto período em que desenrolávamos um possível agendamento, até eu me dar conta de que estava sendo trollada. E aí, meus queridos e minhas queridas, quando eu percebo que estou sendo sacaneada, eu sacaneio de volta. 😌

E o resultado deste duelo cibernético, vocês verão abaixo.

Dedico esta postagem a todas as minhas colegas profissionais do sexo que já passaram por isso ou que irão aprender, a partir de agora, a como identificar esses tipinhos! 

COMO IDENTIFICAR UM CAROÇO 

Vamos começar com o XAVEQUEIRO

Até aqui tudo bem, nada demais. Lhe enviei as informações e aí que o jogo começou:

Ele trouxe bom humor, quebrou o gelo, mostrou que entende de signos e ainda brincou sobre eu ser ‘bravinha’. O fato de eu ter dado uma pequena corda no início, o incentivou a continuar puxando assunto, ao que eu também tentei do meu lado, falando do parcelamento no cartão. Mas quando vi que não daria em nada e que ele continuaria com papinho furado… :

Ele queria foder e eu queria dinheiro. Ele não tinha um, eu não faria o outro de graça. Incompatibilidades. Encerrando aí, uma promissora transação que tinha tudo para render um relato erótico rs. 

Dica: Quando eles começam com conversinha fiada, não vai rolar. Quem quer agenda logo e vai pra ação.

*

Agora vamos para o da FANTASIA

Confiei que ele viria a São Paulo e lhe enviei as informações. Se ele não viesse de fato, quem sabe ao menos assinaria o meu clubinho? 😎

Daí vieram algumas exigências:

Aqui as coisas já começaram a ficar um pouco duvidosas. Não é todo dia que vemos um doido dizendo que vai dar conta de 9 meninas sozinho. 😅

Fui dando corda, pra ver até onde ia dar…

Achei que a conversa fosse morrer aí, mas 1h30 depois ele retornou:

Sabia que tudo aquilo era conversinha furada! 👮🏻‍♀️

Eu que não ia gastar minha saliva pra convencer ninguém da minha idoneidade, a minha reputação na internet já cumpre esse papel. Até porque, quem vai em casa de massagem busca preço mais em conta e não faria sentido ele pagar mais caro no meu cachê, apenas para eu ser só mais uma entre 9. Lorota desde o princípio.

Quando me deparei com aquela acusação, rebati a altura:

Dica: Uma foto pode revelar muita coisa. Desde o princípio desconfiei de que ele não era o meu perfil de cliente, mas, resolvi dar uma chance. No entanto, foi confirmado algo que eu já sabia. E números de outro estado tem um agravante, porque a pessoa pode nem estar aqui pra início de conversa.

*

O INSISTENTE ESQUECIDO

Dica: Meninas, SEMPRE guardem o histórico de todas as mensagens que receberem de trabalho! Isso é ótimo para você não repetir um cliente ruim, como também não ficar mil vezes encaminhando as suas informações para alguém que já provou não ter a condição ou real interesse em sair com vc. 

*

Esse próximo vamos chamá-lo de O NERDÃO

Me bombardeou com textões desde o início, como se estivesse testando a minha paciência:

Alguém aí entendeu alguma coisa? Eu não entendi bulhufas.

Eu não acreditei que o cara estava me alugando de graça com aqueles dois textões sem sentido. Ele queria ser convencido a sair com uma acompanhante, em segurança? Olha a minha cara de quem precisa convencer alguém a sair comigo, que dirá com alguém, tenho mais o que fazer, né? 🙄

Dica: O nosso contato é simples e objetivo, se vejo alguém criando dificuldade, logo penso que o intuito da pessoa não é o mesmo que o meu e já cria-se uma incompatibilidade. Quem vem com historinha confusa, claramente não vai agendar. 

*

Chegamos agora no meu preferido: O SUPOSTO PAUZÃO

Esse aqui me enganou por bastante tempo, fazendo a linha do gentil e simpático:

Esse foi o primeiro contato dele em 2025. Que não virou em nada.

Um ano depois, ele ressurge: 

Novamente o mesmo script do seu contato anterior. Até que avançamos:

Tava tudo indo muito bem, muito bom,  até que ele meteu essa:

O que mais que nós, profissionais do ramo sexual, detestamos? Receber foto de pau alheio. 🙄 Esse aqui ainda veio contando toda uma historinha, para não parecer que ele só queria exibir o pau, se fingindo de preocupado com o meu bem-estar, o tipo de preocupação que obviamente eles não tem. 

Ai que preguiça, todo aquele lero lero pra chegar nisso.

Bem que eu desconfiei dele sendo simpático demais. 

Dica: Se tem alguma menina aí que já recebeu esse tipo de mensagem, sabe muito bem o que significa: é uma tentativa masculina de trazer a conversa pra putaria e assim tirar casquinha, a distância, de graça. E para aquelas que nunca passaram por isso ainda, fiquem ligeiras. Esse é o tipo de mensagem que só é bem vinda quando você está flertando com alguém. De cliente é muito papo furado pra você elevar o ego dele e para que ele se masturbe enquanto fala com você. 

Eis o que respondi:

Fingi não ter percebido a jogada dele e segui protocolar, falando sobre a necessidade do sinal de agendamento, cortando a sua tentativa de exibição, não havendo a necessidade de me mostrar nada antes do encontro.

Daí, como não segui o roteiro que ele gostaria, rapidamente cortou o assunto do lado de lá também, com a desculpa esfarrapada de não ser meu tipo de cliente. Vejam:

Dica: Uma profissional iniciante logo se culparia, achando que perdeu o cliente por não ter entrado na brincadeira dele. Afinal, se eu tivesse dito: “Manda a foto pra eu ver” e depois continuasse desenvolvendo a partir disso com: “Nossa que pauzão você tem” ou “Nossa, é grande, mas eu aguento”, qual seria a continuação disso? Ele não ia parar por aí, e talvez até se empolgasse perguntando: “Qual posição vc acha que podemos começar primeiro, sem te machucar?” E nessa, minha filha, quando você vê ele já gozou, se masturbando enquanto falava contigo, e você iludida achando que ganhou o cliente pra sair no presencial. 

Isso pra mim se chama atendimento online, se ele quer trocar putaria por mensagem, então adquira outra modalidade de serviço. 

Eu até poderia ter ido por essa linha e ter dito: “Olha Fulano, o que vc acha de adquirir então meu atendimento online, para trocarmos umas putarias e aí você me manda a foto do seu pau durante a conversa?”, mas eu já tinha pegado bode de todo esse lero lero dele e me senti muito melhor dizendo isso:

Vocês acreditariam se eu dissesse que recebi todas essas pérolas NO MESMO DIA?! Nem eu acreditei nessa maré, rs. Pelo menos me gerou conteúdo. 😁

Espero ter contribuído para que minhas colegas de profissão não caiam nesses papinhos.

Qual vocês acharam mais sem noção? 👀

Manifesto Feminino

De repente cheguei aos trinta e me vi mulher.

Passei a me identificar com causas femininas e me deparei com a triste realidade da mulher na sociedade: A mulher objetificada, que é estuprada e desvalorizada. 

E vamos lembrar que eu faço parte de um grupo muito específico: A puta, a garota de programa, a mulher da vida, a PROSTITUTA. Sim, sou tudo isso. Mas também sou a mulher que gera vida (se eu quiser), a que seduz, a que hipnotiza, a que traz alegria pra dentro de uma moradia. 

Ser mulher é viver em ciclos. É habitar fases que mudam nosso corpo, nossa mente e a nossa percepção. TPM, menstruação, gestação… Mas também temos muita sensibilidade e uma forte intuição feminina. Temos um corpo que sangra e que, por muito tempo, foi ensinado a ser visto como sujo, impuro, quando na verdade carregamos criação, consciência e renovação.

Crescemos sendo pressionadas a caber em padrões: belas, jovens, desejáveis. E existe um custo constante para existir como mulher: tempo, dinheiro, energia e adaptação. Historicamente atravessadas por experiências que nos exigiram sermos mais fortes, mas nunca livres demais.

Eu cresci e tomei a consciência de como o mundo pode ser cruel ao se aproveitar de uma mulher. Homens frágeis que não sabem ouvir um não. Ou que se aproveitam da inocência de uma menina em formação, que nos olham por vezes com um desejo nojento, mesmo quando o ambiente não condiz com tal comportamento.

Esses dias eu estava me servindo num restaurante self service dentro de um shopping, e um homem muito mais velho, de traços árabes e asqueroso, me encarou de um jeito invasivo, que me deixou desconfortável. Rapidamente desviei o olhar para deixar claro que eu não estava correspondendo, mas ainda assim, mesmo olhando para o meu prato, enquanto me direcionava a balança, ainda pude sentir o seu olhar sobre mim, enquanto cruzávamos o espaço. Ele estava indo se servir no mesmo estabelecimento também, e fez questão de guardar o seu lugar justamente onde eu acabara de me sentar, mesmo com muitos lugares vagos em torno da gente. Teatralmente colocou sua nécessaire à minha frente e nesse momento marcou presença, me dando um forte: “Boa tarde”, em português, ainda que com os outros dois que estavam com ele, falasse em outro idioma. Forçando uma interação desnecessária com uma estranha, que só estava ali comendo.

Eu, que já tinha percebido seu olhar de interesse anteriormente, nem queria responder ao seu cumprimento, mas fui ensinada a ser educada e lhe devolvi o “Boa tarde”, mesmo que sem vontade. 

Se sentou de frente para mim, no intuito de que rolasse algum contato visual, e para não ter que trocar de lugar e talvez deixar ainda mais claro que me senti invadida, me limitei a comer olhando para o meu prato. Olhei de sorrateiro para o vazio de assentos pela extensão da mesa compartilhada e não compreendi essa inconveniência, dele sentar junto com seus amigos bem no espaço que eu tinha me abrigado.

Sim, eu sou puta. Sim, eu trabalho com sexo. Mas isso não quer dizer que fora do meu contexto de trabalho, eu me sinta confortável com olhares lascivos, numa situação cotidiana.  Não interessa a minha roupa (que nem era sexy ou vulgar), ou a cor do meu batom (que nem era vermelho), nada dá o direito a um homem qualquer achar que tem essa liberdade, de tentar uma proximidade, através de um forçado “Boa tarde”

Sim, eu trabalho com sexo. Mas não é qualquer um que se deita comigo. E o homem sabe quando algo não é para o seu bico, mas ele tenta porque não respeita o nosso espaço.

Frequentemente vejo comentários machistas nos meus vídeos do TikTok, de homens que se acham soberanos por se considerarem “homens de respeito”, enquanto eu sou uma mulher que cobra por algo que eles gostam de ter ou tomar de graça. Mas antes de serem rudes com qualquer mulher, independente de quem ela seja, ou do que ela faça, deveriam se lembrar de que só estão aqui…

Por terem nascido de uma.