Nem Todo Gringo é Um bom Partido – Parte 8

Depois do meu grito histérico, pareceu que ele ia continuar resmungando, mas se interrompeu e ficou quieto. Entramos no carro e enquanto ele dirigia para a saída, num tom bem mais calmo, me perguntou se eu tinha o endereço do lugar. Ele que compra e eu que tenho que saber?!

– Não.

– Eu te mandei.

– No print só tem as informações do espetáculo.

– Eu te mandei no e-mail.

– Não mandou, no e-mail só tem a passagem aérea.

Ele ficou insistindo que tinha mandado no meu e-mail e fiz questão de mostrar, através do meu celular, que quando eu buscava pelo nome dele no meu e-mail, só aparecia a passagem.

Daí ele encostou o carro para procurar no celular dele. E eu fiquei entretida mexendo no meu, contando em tempo real para a minha amiga, o que estava acontecendo.

– Encontrou? – Ele me perguntou.

– Não.

– Você está procurando ou fazendo outras coisas?

– Fazendo outras coisas.

Enfim, ele encontrou o endereço, estávamos muito perto, a 7 ou 17 minutos, a pronúncia dele me confundiu e eu estava mais atenta a conversa de WhatsApp, então não sei precisar o tempo exato.

Quando chegamos onde teria o show de Cabaret, um barzinho charmoso chamado ‘Savage Labs’ em Wynwood

… ele mudou completamente o comportamento, tentou puxar assunto, mas eu ainda estava tensa. Achei muito falso ele se comportar daquele jeito amistoso, sendo que tínhamos acabado de brigar. Eu era incapaz de virar a chave tão rápido assim.

Nos acomodaram no melhor lugar e nos serviram uma taça de espumante. Estava tudo muito bacana, mas eu não conseguia aproveitar, tinha perdido o prazer de estar ali. Ele perguntou se eu queria pedir algo para comer umas duas vezes e recusei, não conseguia nem sentir fome. Ele fez um comentário positivo sobre os nossos lugares e eu só acenei.

– Você vai ficar sem falar? Só me fala porque aí eu não falo também. – Ele questionou.

– Eu não quero falar agora.

– Tá bom.

Ele se levantou e foi não sei aonde – suspeito que ao banheiro –, demorando bastante para voltar. Foi uma boa estratégia, pois comecei a ficar preocupada. Daí quando ele voltou, me esforcei em ser mais agradável. Ele perguntou mais uma vez se eu gostaria de pedir alguma coisa e falei que queria mais uma bebida – álcool sempre ajuda nessas horas -. Aos poucos voltamos a conversar.

A apresentação foi incrível, um show de cabaret com uma pegada circense, cheio de acrobacias e uma atriz cantava muito bem.

Durante algum número, ele, empolgado que eu não perdesse o registro, me cutucou para que eu filmasse, contudo, ele não viu que eu tinha acabado de pegar a minha taça, me fazendo derrubar a bebida toda no meu colo, molhando o meu vestido.

Ele não percebeu o que tinha acontecido e nem se desculpou na hora, somente quando a bebida começou a escorrer nele também, que percebeu o estrago. Por sorte aquilo não me deixou irritada, pelo contrário, acabei dando risada da situação, foi uma eventualidade engraçada e o clima ficou mais leve.

Consegui desligar e conceder uma trégua durante a apresentação. Contudo, bastou o show acabar, que o sentimento da briga voltou. Me dei ao luxo de me embebedar um pouco, mas nem a bebida disfarçou a minha chateação por tudo que eu estava passando numa viagem que tinha tudo para ser incrível.

Ele tentava puxar assunto, mas eu não engrenava. Pelo contrário, tudo que ele fazia tinha efeito rebote. Como quando tiramos uma foto com um integrante do elenco, que a imagem não ficou boa, e ele jogou a culpa na mulher que fez a gentileza de nos fotografar, resmungando depois, que ela tinha desligado o flash.

Eu também tenho Iphone e sei que para colocar o flash, não é só ativar o flash simplesmente, precisa ir lá na função e apertar outro botão, senão entra no flash automático, que não altera em nada. Na mesma hora pedi que ele ativasse o flash no celular dele e tirasse uma foto, a foto não saiu com flash e daí expliquei o caminho para colocar o flash corretamente, e mesmo ele tendo a prova naquele instante, ficou insistindo que no momento da foto tinha sido a mulher, como se fosse comum alguém ter essa postura invasiva de mexer no nosso celular, enquanto está fazendo um favor de tirar uma foto.

Quando voltamos para os nossos lugares, após a foto, tinham levado nossas bebidas, recém abastecidas, pois pensaram que tivéssemos partido. Ele solicitou os drinks de volta, mas como demoraram muito, começou a reclamar dos atendentes de lá. Quando tentei resolver, indo falar com a gerente eu mesma, ao voltar para a nossa mesa, me pareceu que ele não tinha gostado muito da minha iniciativa, como se eu tivesse passado por cima da autoridade dele, ao invés de ver aquilo como um trabalho em equipe. Então todos esses pequenos detalhes no comportamento dele, corroboraram para que voltasse aquele sentimento ruim da briga.

Mais tarde, quando chegamos no seu prédio, ele fez um comentário sobre o apê dele ser bem localizado, por termos chegado em casa tão rápido. Achei o comentário esnobe. Diante de todo o contexto, pouco me importava. Nada falei e ele fez questão de reclamar do meu silêncio:

– Você ouviu o que eu falei?

– Ouvi. 

– Não vai falar nada?

– Não tem o que falar, você não fez uma pergunta, só está comentando.

– Vejo que você não se importa com as coisas que eu falo.

Eu estava mais preocupada com os meus sentimentos, do que com o quanto ele era privilegiado por morar ali. Continuei muda, estava cansada demais para discutir. 

*

Nessa noite me permiti desabar um pouquinho.

Me troquei, peguei meu fone de ouvido e fui me sentar na varanda para ouvir música. Ele estava na cozinha, preparando algo para comer, enquanto eu continuava sem a menor fome.

Tenho uma playlist muito específica no meu Spotify, que criei justamente para os momentos em que estou triste, precisando por pra fora, chamada: “Músicas Para Ouvir na Bad”, com 6h de duração. Enquanto ouvia, começaram a cair algumas lágrimas. Chorei olhando para uma vista incrível. Foi poético.

O que eu precisava aprender com tudo aquilo? A conhecer melhor as pessoas antes de me jogar numa aventura daquela? Ou que eu deveria ficar agradecida por pelo menos não ter tido nenhuma situação que colocasse a minha vida em risco?

Acho que fiquei uma hora ali, jogando para fora toda aquela angústia. Em algum momento ele foi até lá perguntar se eu queria comer.

– Não estou com fome. – Respondi sem desviar o olhar do horizonte, com a voz levemente embargada.

Felizmente ele saiu, sem perguntar mais nada.

É impressionante como colocar para fora faz bem, de repente a vontade de chorar foi diminuindo e comecei a me sentir melhor. Fui criando coragem para conversar com ele, pois seria muito ruim dormirmos brigados novamente. Comecei a sentir muita fome e àquela altura ele já tinha comido e estava dormindo na sala. Precisei acordá-lo, pois não estava encontrando a sobra daquele lanche na geladeira e fui perguntar se ele tinha jogado fora. Ele respondeu que não, então voltei a procurar na geladeira, até que encontrei, camuflado entre alguns itens. Comi metade da metade e então fui falar com ele.

Quando me sentei na ponta do sofá, imediatamente ele abriu os olhos, e após uma longa hesitação, falei:

– Estou muito chateada com as coisas que estão acontecendo.

Fiz uma longa pausa, esperando que ele dissesse algo, mas como não disse, segui adiante. 

– Eu não estava brava quando saímos do apartamento. Quando falei: “é ruim fazer as coisas com pressa, né?” Eu estava apenas puxando assunto para quebrar o silêncio. Quando você começou a falar aquelas coisas de que o momento pode ser como quisermos que seja, eu não entendi por que você estava falando aquilo, pois eu não estava reclamando de nada, apenas puxando assunto. No elevador, quando falei “olha, estamos saindo no horário que eu falei que sairíamos, sete e meia” eu não estava brava, novamente estava apenas puxando assunto. Você criou toda uma situação sem necessidade. Ali sim eu fiquei brava, pois detesto ser acusada de algo que eu não fiz. Eu nunca cheguei ao ponto de gritar com ninguém que eu tenha me relacionado. E aí chegando lá você começou a puxar assunto como se nada tivesse acontecido, eu não sou assim. 

– Eu fiz aquilo para que tivéssemos um bom momento. É natural fazer isso. No meu casamento ela também adotava essa postura para cessarmos uma briga.

– É fácil agir dessa maneira porque você não foi o lado atacado, mas sim o que atacou. É como aquele ditado, ‘quem bate esquece, quem apanha não’. Como por exemplo ontem, no restaurante, nunca ninguém criou caso comigo por eu querer escolher uma mesa.

– Por que você está falando disso agora?

– Estou te trazendo o meu lado da história.

– Não sou culpado por tudo sozinho. Os dois tem culpa.

Daí ficamos nos olhando, em silêncio, cada um com a sua razão.

Ficamos algum tempo assim, até que me puxou para perto, de modo que eu me deitasse de costas para ele, numa conchinha, me abraçando por trás. Eu estava tão exausta de tudo, que cedi.

Daí começou a beijar o meu pescoço, aos poucos passou as mãos para os meus seios e, surpreendentemente, também fui ficando excitada. A transa foi desenrolando de um jeito muito gostoso. Nossos corpos se viraram de frente um para o outro e aí ele veio por cima. Novamente foi ardente, por ter sido logo após uma briga. Ficamos pouco tempo no sofá, até que me pegou no colo e me levou para a cama. Sempre dominante, não tinha muita variação de posição, senão era com ele por cima, então era comigo de bruços. Peguei meu brinquedinho e caminhei para o orgasmo também. A paz foi celada. Dormimos abraçados.

– Nossa menina, que coisa. Uma experiência que tinha tudo para ser bacana. – Acho que minha amiga já estava cansada de ouvir meus dilemas. – Você está de TPM?

Outlet em Miami

No nosso penúltimo dia juntos, tiramos para ir no Sawgrass Mills, outro outlet, muito maior que o anterior, desta vez a meu pedido, que queria conhecer os tão falados Outlets de Miami. Neste andamos bastante tempo separados, pois queríamos ver coisas diferentes e assim otimizamos o nosso tempo. O que, confesso, achei ótimo, pois, apesar de ter transado na noite anterior, no fundo ainda nutria um certo ressentimento por todo aquele combo de brigas dos últimos dias.

Nos reencontramos pouco antes do horário do almoço e adivinhem só, ele queria comer na praça de alimentação, com o argumento de que eu não aguentaria o ar-condicionado dos outros restaurantes que tinham na área externa. Ou seja, ainda estava me alfinetando pelo ocorrido de outra noite. Não debati, mas achei aquela postura péssima. A praça de alimentação estava entupida de gente, sem bons restaurantes e sem lugar para sentar. Paramos na fila de um fast food qualquer, dei uma boa olhada em volta e fiquei muito decepcionada que ele preferisse comer ali, do que num restaurante mesmo, sentados numa mesa só nossa, sendo atendidos por um garçom. Desgostosa, soltei:

– Não tem nem lugar pra gente sentar.

Ele observou em volta e deve ter visto o mesmo caos que eu.

– Você prefere comer num restaurante com ar-condicionado?

– Prefiro. – Tive que admitir.

Levamos mais trinta minutos para encontrar a saída e então fomos para o The Cheesecake Factory, onde o ar-condicionado nem estava forte, o que me fez crer que aquela outra noite foi mesmo uma situação atípica.

Mais tarde, quando estávamos indo embora, passamos pela Victoria’s Secret, cuja loja eu tinha olhado mais cedo, sozinha, mas não encontrei nada com um desconto extraordinário que me encorajasse a comprar alguma coisa. Ele quis entrar, dizendo que me daria um regalo – presente em espanhol -.

Só que o presente que ele queria me dar eram umas calcinhas estampadas, horrorosas e broxantes, que custavam 5 por U$ 30. Cujas calcinhas nem eu mesma compraria para mim. “Ele gostaria mesmo de me ver usando isso?”, pensei indignada. Era o que nós mulheres chamamos de ‘calcinhas de ficar em casa’.

Expus a minha opinião e falei que achava aquelas calcinhas feias, ele concordou e saiu em busca de uma mesa que tivessem outros modelos daquela mesma promoção. Em contrapartida, fui até uma camisola lindíssima, super sexy e delicada, que eu tinha visto mais cedo, mas que não tive coragem de comprar por conta do valor. Mostrei para ele.

Ele teve a audácia de olhar para a camisola com a maior cara de desdém e dizer que não tinha gostado. Ele sabia, pelo nível de beleza da peça, que deveria ser mais cara do que o que ele estava querendo me dar. Foi como se ele olhasse para um anel da Tiffany e dissesse: “Não é bom o bastante para mim”. A camisola custava U$ 89. Desisti dela e fui em busca de outra coisa que eu também gostasse.

Encontrei um sutiã lindíssimo, preto, com strass, perfeito para usar com roupa aberta nas costas. Fui mostrar para ele, que me ignorou, tentando me levar de volta para as calcinhas de vó. Aquilo estava começando a me irritar, se era um presente, nada mais justo que fosse algo que eu realmente gostasse, senão qual o sentido? Bati o pé e falei que não queria aquelas calcinhas, que o sutiã seria muito mais útil para mim. Ele fez uma cara de que não gostou muito de eu querer escolher outra coisa, daí eu perguntei logo:

– Você está preocupado com o preço?

– Não.

– Então eu vou provar. 

E o sutiã ficou incrível no meu corpo! Eu ainda não tinha um como aquele, que me permitisse usar roupa aberta nas costas. Voltei toda empolgada, contando para ele como tinha me servido bem, ao que ele veio com um balde de água fria:

– Você vai comprar?

– Você não ia me dar um presente?

– Mas as calcinhas são outro valor. Quanto custa esse sutiã? – Eu não estava acreditando que estávamos tendo aquele tipo de discussão. 

Fomos até onde o sutiã estava – o que eu peguei não tinha etiqueta de preço e no meio daquele transtorno eu esqueci completamente qual valor eu tinha visto – e constatamos que custava U$ 60.

– É o dobro das calcinhas. – Ele disse.

Se estava difícil para ele que recebe em dólares, imagine para mim, que ganho em real?!

– Então tá bom, você paga o equivalente as calcinhas e eu pago a outra metade. – Sugeri, a fim de resolver aquela desagradável situação.

– Espero que você entenda, eu já estou pagando outras coisas, comida e etc… – Ainda jogou na minha cara que estava tendo gastos com a minha alimentação, sendo que era o mínimo esperado, já que me tirou do Brasil para passar uma semana com ele.

– Claro.

Quando saímos da loja, eu não tinha nem vontade de agradecer o ‘presente’, mas me forcei a ser minimamente educada, ainda que aquela situação tivesse tirado completamente o brilho.

Última Noite em Miami

Pegamos muito trânsito na volta, o que foi mesmo péssimo, pois ele tentava puxar assunto e eu não estava na vibe por conta do ocorrido. Fazia um balanço mental da viagem e só me decepcionava. Paramos no mercado para ele comprar algumas coisas e preferi aguardar no carro.

Quando chegamos no apartamento, ao me dar conta que faltava menos de 24h para eu ir embora e que aquela seria minha última noite com ele, como um passe de mágica, todo o meu ranço passou e enquanto eu arrumava a mala, senti uma coisa muito boa por finalmente estar acabando. Foi como se tivesse voltado aquela energia gostosa do primeiro dia.

Ele perguntou se eu gostaria de tomar um vinho. Bem-humorada, respondi: “Gosto da ideia” e ele ficou todo animado por eu ter topado. Terminaria a tarefa de arrumar as minhas coisas primeiro e então teríamos nossa última noite juntos regada a algumas taças de vinho.

Lembra que eu comprei uma mala enorme, aquela da Samsonite?

Pois então, eis que chegou o momento de eu pensar na logística para levar as duas malas embora. Tentei colocar a minha mala antiga dentro da nova, que era bem maior, mas, por pouco não coube. Tentamos ver a possibilidade de comprar uma bagagem extra, mas isso me custaria U$ 65, o equivalente a R$ 325. Então ele se ofereceu para me levar quando viesse ao Brasil, pois, como ele viaja muito, tem direito a malas extras, sem custo.

– Eu levo para você e se não quiser sair comigo de novo, só me dá um beijo como pagamento e tá tudo certo.

Meus planos de nunca mais vê-lo estavam sendo frustrados. Pensei, quer saber, por que não? Não sou obrigada a nada, sair para beber com ele, em outras circunstâncias, pode até ser divertido.

Terminei de arrumar a mala e ele abriu a garrafa de vinho para nós. Nos sentamos na mesa e papeamos bastante. Tinha voltado aquela sintonia do primeiro dia, quando ainda não tinha acontecido nenhum desentendimento entre a gente.

Conversamos bastante sobre música, ele me mostrou alguns artistas que gostava, compartilhei algumas músicas do meu gosto musical também, estava bastante agradável, até que a conversa foi migrando para o campo sentimental.

Ele revelou que eu era a terceira mulher que ele levava para a casa dele nesse contexto. – O contexto de conhecer por aplicativo quando está viajando em outro país. – Sendo que no primeiro dia que cheguei, quando ainda estávamos no carro, nos encaminhando para o seu apartamento, logo após ele me buscar no aeroporto, eu perguntei se ele já tinha feito isso antes e ele negou, agora eis que descubro a verdade. Assim como também confessou que estava dormindo, quando eu te liguei do aeroporto. Mentiroso.

A sua primeira experiência tinha sido ok, mas não quiseram seguir adiante com a relação, após ela ir embora. A segunda tinha dado muito errado.

Logo perguntei:

– Vocês brigaram? – Já sabendo a resposta.

– Sim. Mas não foi por isso. – Imagina, se não. – Não tivemos química. Ela não gostou de mim e eu não gostei dela.

– Você a trouxe sem terem transado antes?

– Isso. Tive até que trocar a passagem para ela ir embora antes.

– É mesmo? – Por dentro eu me solidarizava com a moça. – Mas eu também quis ir embora antes, até pedi para um amigo ver sobre alterar a passagem, mas descobrimos que você tinha comprado com pontos, então precisaria que você cancelasse para emitir uma nova. – Também trouxe meu lado sincero.

E enquanto ele continuava contando, eu ia processando a minha análise: Nossas brigas foram insuportáveis para mim, o que salvou, claramente, foi o sexo, porque de uma maneira muito louca, continuei sentindo tesão nele, até mais, por ter achado picante fazer as pazes na cama. Agora imagine aguentar o seu humor, temperamental, sem um sexo bom que ajude? Entendi completamente a situação da tal argentina.

Daí o assunto chegou na sua experiência atual, nós, e ele disse que apesar de tudo, não achava que as coisas ruins que aconteceram se sobressaiam as boas, que gostava bastante de mim e que gostaria de continuar me conhecendo. Fez-se aquele silêncio, esperando que eu também me pronunciasse, mas do meu lado não foi tão positivo:

– Olha Peter, as brigas me assustaram bastante. – Comecei. – Estávamos tendo brigas como se fôssemos um casal já desgastado. Nunca tive brigas desse nível com meus ex-namorados. Eu preciso pensar sobre isso, voltar para casa, refletir sobre tudo que aconteceu e avaliar se vou sentir saudade.

Instantaneamente a sua linguagem corporal mudou. Ajustou a postura, se sentando mais afastado e o discurso sobre o que faríamos no dia seguinte também sofreu rudes alterações. Tínhamos combinado para o último dia voltarmos em Wynwood para que eu pudesse conhecer o museu de arte, Wynwood Walls, almoçaríamos por lá e depois faríamos o passeio. Daí ele falou:

– Entendo. Bom, amanhã você está com o dia livre, pode fazer o que quiser até o horário do seu voo.

– E o que tínhamos combinado?

– Você pode ficar à vontade para fazer o que quiser sozinha.

– Então só porque estou dizendo que não sei se vou querer continuar saindo com você no futuro, você está mandando eu me virar amanhã?

– É.

Aff muito escroto. O típico hétero top mimado, que se não ouve o que quer, não está nem um pouco disposto a batalhar para mudar o cenário.

– Mas olha só, você devia observar isso em você. Brigou com ela, também brigou comigo… – Falei.

– Por que eu deveria ouvir algum conselho seu?

– Como assim?

– Se você não quer ficar comigo, por que devo dar ouvidos aos conselhos de uma pessoa que não vai ficar comigo?

– Da mesma maneira que existe aquele ditado: “Se conselho fosse bom não se dava, vendia”. – Falei para descontrair, mas acho que não entendeu a referência. Afinal, eu não queria ficar com ele no futuro, mas isso não me impedia de lhe dar um conselho sincero para que amadurecesse. Não queria que outra mulher passasse pelo que passei.

E como eu estava bastante alcoolizada do vinho, levei todo aquele azedume na esportiva e não me ofendi. Contraditoriamente, eu ainda estava com tesão e não queria minar as minhas chances de transar naquela noite. Achei muito infantil ele azedar a noite por conta de algo que ainda nem tinha acontecido. Eu não queria ficar com ele lá na frente, mas ali, naquele momento, queria sim aproveitar com tudo que eu tinha direito. Pedi licença para ir ao banheiro e quando voltei, usei meu poder de sedução para reverter a situação.

Eu sei o que você deve estar pensando: como que eu ainda tinha vontade de transar com um homem daqueles? Mas a verdade é que o álcool tinha me deixado excitada, eu queria transar, não importava a pessoa.

– Mas quem disse que não sinto nada por você? – Falei enquanto ele estava lavando as taças.

– Você mesma.

– Eu sinto sparks.  – Falei em inglês para soar mais engraçadinho.

– Ah é?

– Aham.

E rapidamente nos beijamos. O chupei ali na cozinha mesmo, depois me pegou no colo e me levou para a cama. Tivemos a nossa última transa e foi muito gostosa.

Wynwood Walls

No dia seguinte fomos almoçar em Wynwood e depois visitamos Wynwood Walls, conforme o planejado.

*

– Não tirou foto na cabine de salva vidas, na praia? – Minha amiga me cobrou.

– Não.

– Pq?

– Amiga eu te falei, eu não tive oportunidade, fui pra praia um dia sozinha, não ia ter como fazer fotos de mim mesma lá, entendeu? E a outra vez que a gente foi na praia, não entramos na água, ficamos numa parte bem antes, que ele tava jogando voleibol e eu tomando sol, não tinha contexto pra ir fazer a foto.

– O lugar mais charmoso e instagramável de Miami e você não fez.

– Tudo bem amiga, não faço muita questão.

– Esse Peter é um bosta. Faz sim. Não volte sem essa foto! Você já vai embora hoje, tudo que você pedir pra esse cara, dentro do possível, ele vai fazer. Fala que você quer muito tirar uma foto na praia, ele vai te levar e vai bater a foto. Ai amiga essa foto é tão bafo na praia! O lugar mais fofinho de Miami, icônico! Pelo menos pra fingir que a viagem foi legal.  Não precisa ser de biquini ou maiô. Olha: – daí ela me enviou algumas imagens do Pinterest como referência – Se esses closes não te animarem, então você tá morta por dentro. – E para finalizar ainda mandou uma figurinha que dizia: “Hora de ensinar o sol como se brilha”.

Depois de todo esse discurso e as imagens lindas, tive que me movimentar para tirar aquela foto.

– Pedi aqui para ele. Vamos na praia depois, só para eu fazer essa bendita foto. Já vi que com ele funciona pedindo bem fofinha e não impondo. Ele faz com mais boa vontade.

– Pau mandada kkkk.

– A menina ao invés de falar “Isso aí amiga, fez ele te levar lá só pra fazer uma foto!” Vem me chamar de pau mandada! Você só vê as coisas ruins, o progresso aqui da amiga ela não vê!

– Kkkkk. Tem que jogar na cara mesmo! P-A-U-M-A-N-D-A-D-A! Tô começado a achar que pode ser bom dar uma chance pra ele, kkkkk, nem te reconheço. Parecendo esposa submissa.

– Rá rá rá.

– E se esforça pra foto ficar boa amiga, essa foto é foto de feed hein! Pelo amor de Deus! Posta uma foto no feed em Miami, vai ficar bem linda, coloridinha. Ai eu gosto.

5 horas depois…

– Conseguiu fazer as fotos?

Sim, eu tinha conseguido fazer as fotos.

Tivemos uma tarde super agradável juntos, parecia o primeiro dia de novo. Ele estava gentil e solicito, me tratando imensamente bem. Fomos até a praia fotografar e ele estava um poço de pró atividade. Fizemos vários cliques, até eu dizer chega. Em nenhum momento reclamou ou me pressionou para que fôssemos embora.

Voltando para o seu apartamento, paramos numa loja de suplementos, onde ficamos praticamente uma hora, com ele pegando referências e escolhendo os produtos com o atendente. Eu nem me incomodei com a demora também, pois estava bastante entretida editando a minha foto e pensando na legenda:

Mais tarde, pouco antes dele me levar no aeroporto. Adivinha? Azedou novamente. ¬¬

Tem Horas

Tem horas que me sinto plena

E tem horas que me sinto uma fracassada

Tem horas que sou autossuficiente 

E tem horas que tô carente 

Tem horas que eu me amo

E tem horas que nem eu me aguento

Tem horas que quero socializar 

Tem horas que me isolar

Tem horas que tô brava

Tem horas que calma

Tem horas que eu quero 

Tem horas que eu me obrigo 

Tem horas que eu me lembro 

E tem horas que é como se nunca tivesse existido 

Tem horas que eu me preocupo 

Tem horas que eu quero se foda

Tem horas que eu acho engraçado 

Tem horas que me irrita

Tem horas que eu tô muito feliz 

Tem horas que tô na merda

Tem horas que me sinto culpada 

E tem horas que me sinto injustiçada 

Tem horas que eu sinto demais

E tem horas que odeio sentir alguma coisa

Tem horas que eu engajo 

Tem horas que só observo 

Tem horas que eu reflito

Tem horas que vou no impulso 

Tem horas que sou agradável 

Tem horas que sou ranzinza 

Tem horas que tô excitada 

Tem horas que tô frígida  

Tem horas que eu me empolgo 

Tem horas que só suporto 

Tem horas que admiro 

E tem horas que ojerizo 

Tem horas que eu quero mudar o mundo 

E tem horas que quero passar despercebida 

Tem horas que eu lamento 

Mas tem horas que eu aceito

Tem horas que eu sonho 

E tem horas que eu encaro a realidade 

Tem horas que sou comunicativa

Tem horas que introspectiva

Tem horas que eu tô motivada 

Tem horas que desanimada 

Tem horas que acredito 

E tem horas que sei que é mentira

Tem horas que choro de soluçar

E tem horas que passo mal de tanto rir

Tem horas que caminho 

E tem horas que eu me arrasto 

Tem horas que eu tô cega 

E tem horas que eu enxergo os fatos

Somente eu sou atravessada por esses contrastes?

Nem Todo Gringo é Um Bom Partido – Parte 7

Não tem nada mais broxante em um homem, do que o pão durismo.

Mulher nasceu para ser mimada, presenteada, paparicada, homens que não são generosos perdem muitos pontos na conquista. Ao longo desses dias juntos, tive alguns sinais de que talvez ele fosse um pão duro e eis a primeira situação:

Adentramos na Armani, uma marca que ele gosta bastante. O deixei à vontade para ver as suas coisas e fui dar uma espiada na parte feminina. O estilo dessa marca não combina muito comigo. A única coisa que me cativou de fato, foi uma bolsa pequena, rosa clara cintilante, que custava U$ 120, o equivalente a R$ 600. Achei que seria um belo mimo para ele me dar, afinal, estávamos fazendo uma programação dele, me presentear seria gentil e ganharia muitos pontinhos.

Após provar todas as suas peças, ele começou a olhar o setor feminino, onde tinham umas camisetas bem desinteressantes, em promoção, por U$ 29. Quando me toquei que ele estava procurando um presente para mim naquela sessão, fiz questão de esclarecer que camisetas não fazem parte do meu estilo. Gosto de blusinhas pequenas – até porque sou bem magrinha e camiseta não me valoriza em nada – e que somente quando eu gosto muito da estampa, que arrisco comprar uma.

Ele entendeu o recado e foi explorar outras partes. Decidi ajudá-lo na escolha e indiquei o único item que eu tinha gostado, aquela bolsa.

Ele a olhou de longe, sem demonstrar nenhum interesse, completamente blasé, sequer perguntou o preço ou quis vê-la mais de perto.

Diante da possibilidade de ganhar aquele presente, decidi fazer uma nova tentativa e mostrei uma foto que tirei, enquanto estava provando-a, na frente do espelho.

– Olha, você não acha que ficou linda em mim?

Era uma bolsa nada convencional, de usar em balada ou rolê, acrescentei a descrição dos eventos em que poderia usá-la, e me dei conta de que não seriam rolês que eu iria com ele, logo, minaria as chances de me presentear com aquilo.

– Por que você não compra? – Ele soltou essa.

– Porque está cara, convertendo em real é muito dinheiro.

– Quanto?

– U$ 120, o que dá R$ 600.

Cento e vinte dólares, para ele que ganhava em dólares, não era nada exorbitante. No entanto, se calou, não me ofereceu de presente e o assunto morreu aí. Percebi que se não fossem as camisetas em promoção que ele queria me dar, então não me daria nada. Não que ele fosse obrigado a me dar alguma coisa, mas vamos combinar que seria muito galanteador me presentear depois de todos os atritos que vínhamos tendo, com certeza me deixaria mais feliz.

Depois entramos na Nike para que olhasse se tinha algo legal, não que ele estivesse procurando alguma coisa em específico. Já eu fiquei completamente desinteressada de ver algo para mim, pois não ganharia nenhum presente e a minha moeda estava desvalorizada.

Ele foi até o provador e ficou me mostrando como cada roupa ficava no seu corpo. Não sei por que, mas comecei a vê-lo como um homem egocêntrico, que agia como se fosse um super entretenimento para mim vê-lo escolhendo roupas para ele.

Talvez tivesse se instalado um pequeno ranço pelo ocorrido na Armani, sei lá, só sei que eu estava começando a ficar entediada. Ele tinha muito mais condições financeiras do que eu, no entanto, via-se que generosidade não era o seu forte.

Depois entramos numa loja de malas e fui fisgada por uma rosa da Samsonite que eu estava namorando há muito tempo no Brasil, mas que nesse outlet estava muito mais em conta. Para terem uma ideia de valores, a mala grande nessa loja, em Miami, custava R$ 500 mais barato que uma pequena que eu vi no Brasil.

Ou seja, seria um ótimo negócio levá-la. Fiquei na dúvida se comprava ou não, pensando na logística de como a traria junto com a outra mala grande que eu já levava em viagem, daí ele, para me incentivar a comprar, disse que se eu levasse, contribuiria com um valor. Não que ele fosse obrigado a algo, claro que não, mas ao oferecer uma contribuição, esperava que fosse algo realmente significativo. No entanto, me ajudou com U$ 40, sequer arredondou para cinquenta, rs.

Quando eu me interessava por algum souvenir baratinho, de U$ 7 ou U$ 9, aí sim ele comprava para mim, sem pensar duas vezes.

Naquele mesmo dia, um pouco mais tarde, durante o jantar, nos desentendemos mais uma vez. Já estava virando rotina. Uma rotina bem desagradável e estressante.

Segunda Briga

Ele estava em dúvida se me levava para jantar no The Cheesecake Factory ou num restaurante peruano. Decidiu pela primeira opção. Quando adentramos neste, o ar-condicionado estava tão forte, que senti frio imediatamente. Não era refrescante e sim congelante mesmo.

A atendente nos levou até a parte externa para darmos uma olhada, onde tinham uns ventiladores, visto que comecei a me tremer todinha. Me posicionei embaixo de um deles para sentir a potência da ventilação e chamei ele, que estava parado longe – eu tinha avançado até uma possível mesa sozinha, só depois percebi que ele não tinha vindo junto. – Ele se recusou a vir até onde eu estava, fazendo sinal com a cabeça em negativo, dizendo que não ficaria ali fora. Por mais que ele não quisesse, não lhe custava ir até onde eu o chamava e pelo menos fingir que tentou. Insisti para que viesse – se ele era teimoso, eu sou mais ainda. – Mesmo assim ele disse que não comeria ali, que além de estar muito quente, a vista também era feia (como se dentro fosse ter alguma paisagem incrível do restaurante). Aquilo me incomodou um pouco, afinal, eu poderia passar frio por ele, mas ele não poderia passar calor por mim? Enfim, fomos acomodados numa mesa e eu continuava me tremendo de frio.

– Você precisa andar com blusa de frio, porque aqui todos os lugares terão ar-condicionado. – Ele disse, todo ranzinza.

Tinha um pouco de razão, mas, em quatro dias, era a primeira vez que eu sentia tanto frio assim, estava mil vezes pior que o restaurante Tailandês de outro dia.

– Você quer ir para outro restaurante? – Ele ofereceu e por estar oferecendo, achei que estaria tudo bem para ele essa mudança.

– Quero.

Entramos em um outro bem badaladinho, ele deu uma olhada no cardápio antes de irmos para qualquer mesa e após poucos segundos olhando (provavelmente conferindo os preços), sentenciou que não queria aquele, num tom não muito amigável, parecendo até um pouco irritado.

Acabamos indo para o peruano, aquele que tinha cogitado inicialmente. Quando adentramos neste, o ar estava super agradável, muito melhor que o anterior. O garçom indicou algumas mesas vazias e na mesma hora me encantei por uma charmosinha de dois lugares. Contudo, ele quis sentar numa mesa de quatro lugares ao lado de uma parede branca estranha com uma iluminação fria. A mesa que eu tinha visto aparentava ser muito mais aconchegante, quis convencê-lo a ficarmos nela.

– Aquela mesa é pequena, essa aqui é muito maior. – Ele rebateu.

– Mas estamos em dois, rs.

– Sim, mas essa mesa é maior, gosto de ter mais espaço.

Ficamos nesse impasse por alguns segundos. Ele ainda teve a audácia de pedir uma fita métrica para o garçom, para medir a mesa que eu queria e comparar com a outra espaçosa que ele escolhera. Que constrangimento. Eu não tinha argumentos válidos que justificassem eu não ter gostado da energia daquele canto da sala que ele estava escolhendo, então me dei por vencida e falei que tudo bem. Daí, ele não acreditou que eu estava sendo sincera, cedendo tão rapidamente, e continuou falando, justificando a sua escolha.

– Peter, tudo bem. Podemos ficar nessa mesa. – Enfatizei.

Ele ficou emburrado, como se eu estivesse sendo irônica, mas falava com total sinceridade, só queria evitar mais confusão. Pedi licença para ir ao banheiro e quando estava voltando, avistei outra mesa de dois lugares ainda mais aconchegante que a anterior!

Enquanto a mesa atual estava posicionada numa quina de duas paredes brancas, sem graça, a mesa que eu tinha visto ficava encostada numa parede de tijolos marrons, com uma iluminação diferenciada, cor quente, tornando o ambiente em que ela se localizava muito mais agradável e romântico.

Voltei comentando sobre tal mesa, tentando lhe despertar alguma curiosidade pelo que eu estava descrevendo, mas foi inútil. Ele sequer se dispôs a ver com os próprios olhos o que eu estava falando. E aquilo serviu para criar mais atrito entre a gente. Eu só esperava que ele dissesse: “Tá bom, vamos para a mesa que você quer”, ainda que contrariado, pois eu tinha certeza que quando nos sentássemos na nova mesa ele também se agradaria, mas isso não aconteceu.

Quando vi que era causa perdida, que ele não trocaria de lugar, não importasse o que eu dissesse, mais preocupado em se auto satisfazer, do que tentar agradar uma mulher que ele estava tentando conquistar, calei a minha boca e fiquei igual uma estátua, olhando para o horizonte. Só me mexia para dar alguns goles no copo de água. O achei muito infantil, mas talvez eu também estivesse sendo.

Chegou a entrada que ele pediu, ceviche, me ofereceu, mas recusei. O jantar, que era para ser um momento de descontração e interação entre a gente, se tornou uma atividade banal e sem significado. Somente quando nossos pratos chegaram – o que demorou bastante, ouso dizer, mais de quarenta minutos – foi que voltamos a conversar, quando ele puxou algum assunto sobre a comida. Eu já estava bastante incomodada com aquele silêncio e colaborei para que tivéssemos uma boa experiência juntos.

*

– Mas gente, tá uma montanha russa isso! Acho que assim como pra você está ruim, pra ele também deve estar. Amiga, vê com ele a possibilidade de alterar a passagem e você voltar antes. Porque vocês estão num ponto que eu não acredito que vá reencantar, sabe? Já estragou.

– Sim amiga, mas falta pouco para eu ir embora e amanhã temos o Cabaret que ele já comprou os ingressos. Já temos programação para amanhã e domingo. Segunda iremos voltar em Wynwood. Já que estou aqui, então vou extrair o máximo que puder dessa viagem. Engraçado que pra transar com ele está sendo bom, tenho mais tesão nessa coisa de macho alfa, mas para conviver não, porque também quero as coisas do meu jeito.

– Não conhecia esse seu lado. Eu estaria doida para voltar.

A terceira briga foi ainda pior.

Terceira Briga

Não tínhamos mais um dia de paz. Todo dia ocorria uma situação nova desagradável. A terceira briga chegou para mostrar que realmente não éramos compatíveis, pois jamais teríamos um saudável convívio.

O plano daquele quinto dia juntos era:

  1. Academia
  2. Praia
  3. Cabaret

Eu não fazia a menor questão de treinar em viagem, mas, concordei, pois, percebi que era importante para ele fazermos essa atividade juntos. A praia não seria um evento especificamente nosso, não ficaríamos deitados numa cadeira tomando sol, nem entraríamos no mar bem namoradinhos, nada disso. Ele iria jogar voleibol com seus amigos e eu ficaria avulsa.

Guardem essas informações. Agora voltamos a programação normal.

Nosso pré-treino foi apenas uma salada de frutas, daquela mesma que ele fez para mim no primeiro dia, e quando estávamos quase chegando na academia, ele se deu conta que não tínhamos comido ovo, querendo fazer uma parada no mercado, para comprar barras de proteína. Eu tinha entendido que aquelas barrinhas eram para comermos antes do treino, um reforço do café da manhã, mas não, ele disse que era para depois.

Quando terminamos de treinar, uma hora e meia depois, eu estava começando a ficar com fome, já que tinha gastado muita energia e se aproximava do horário de almoço. Perguntei se iríamos almoçar antes de ir para a praia e fui surpreendida com uma resposta negativa.

– Por isso comprei as barrinhas. – Ele respondeu.

Não era possível que ele quisesse emendar horas na praia sem uma alimentação decente! Olha bem pra mim, sou toda magrela, preciso de sustância! Contestei que meus pós treino, seguindo a dieta do meu nutri, precisava ser algo muito mais nutritivo que uma simples barrinha de cereal.

Ele queria pular o almoço para chegar mais cedo na praia? Para que? Já tinha dito que seus amigos só chegariam mais tarde, que talvez nem fosse possível jogar voleibol, então não entendi a pressa.

Ao perceber o meu humor mudando drasticamente, ele disse que poderíamos parar em algum lugar para comprarmos um lanche para viagem. Ele não estava com fome e não teve a menor preocupação que eu estivesse. Após sairmos da lanchonete, a caminho do carro, ele disse algo muito deselegante, reforçando a minha percepção dele ser um extremo pão duro:

– Não serão todos os dias que conseguiremos comer fora. Algumas vezes teremos que comer em casa também.

Oi?? O cara que morava na melhor localização de Miami estava me dizendo que não poderia levar para jantar uma pretendente que ele trouxe do Brasil para passar uma semana com ele? Veja que não estamos falando de um mês ou uma vida inteira, mas apenas uma semana, que àquela altura só restava dois dias! Qual a necessidade de trazer o seu pão durismo à tona, fortemente daquele jeito?

– Não estou falando de comer fora, mas sim de comer. Eu poderia muito bem voltar no apartamento e comer a sobra do lanche que trouxe do Big Pink ontem. Só não sabia que não íamos almoçar antes de ir a praia. – Rebati.

A partir daquele momento se instaurou um grande ranço em mim. Tudo nele passou a me incomodar, principalmente a sua mania irritante de sempre falar “Oh fuck”, quando alguma coisa estava prestes a dar errado. Me soava tão falso e artificial, longe de conter qualquer charme americano na pronúncia. Comi metade do meu lanche no caminho e quando chegamos no estacionamento, ele não teve a paciência de esperar eu terminar, perguntando se eu não poderia finalizar na praia. Sim, claro, tudo que eu mais queria era fazer uma refeição debaixo de um sol de 40 graus.

– Claro. – Respondi, a fim de evitar novos conflitos.

Quando chegamos na praia, sequer havia a quantidade necessária de jogadores para que começassem a partida. Ou seja, eu poderia ter terminado o meu lanche na sombra e no conforto do ar-condicionado do carro tranquilamente. Me sentei num banco de cimento e continuei comendo a minha comidinha, encolhida numa fresta de sombra, graças ao tronco de uma árvore. Não tive o menor prazer em conhecer os seus colegas de jogo. Eles conversavam entre eles, tentando me inserir no assunto, mas eu só mexia a cabeça, com a boca sempre cheia, mastigando. “Como ele é egocêntrico”, eu pensava. Desde o início do dia fazendo as coisas dele. O treino DELE, a partida de voleibol DELE, nenhuma programação que fosse nossa. E ainda por cima queria me deixar sem comida ou então comendo embaixo de um sol daqueles.

*

Para que não nos atrasássemos para o show de Cabaret, teríamos que sair da praia pontualmente às 18h, que seria dali a duas horas. Contudo, ele se empolgou com a partida e mesmo que eu fizesse o típico sinal das horas, batendo com as costas do meu indicador em cima de um relógio de pulso invisível, ele continuou jogando por mais meia hora. Comecei a juntar as suas coisas para que entendesse o meu movimento de “vamos embora”, o que acabou funcionando, daí ele veio e fomos andando na maior pressa, separados, rumo ao estacionamento.

“Oh fuck”, perdi as contas de quantas vezes ele soltou essa irritante exclamação no caminho. Me senti na série Black Mirror, no episódio “Hang the DJ”, quando a protagonista já está de saco cheio do som que o cara faz toda vez que termina de beber alguma coisa, rs. Não nos falamos muito no trajeto de volta. Quando chegamos na garagem do prédio, enquanto ele dirigia até a sua vaga, chequei o horário e tentei esquematizar o nosso cronograma.

– A gente saindo umas 19:30, conseguimos não chegar atrasados.

Ao invés de simplesmente concordar comigo, parecia que ele sentia prazer em contribuir com a discórdia.

– 19:30? Temos que sair o quanto antes!

– Sim, eu sei, o quanto antes, mas pelo horário que já é agora, 19:30 é o mínimo que conseguiremos.

– Que horas são?

– Já são 19h. Até um tomar banho e depois o outro, será 19:30.

– Eu me arrumo rápido.

Fiquei quieta. Ao adentrarmos no apartamento, sugeri que ele fosse tomar banho primeiro, já que estava mais sujo de areia, mas ele disse que eu poderia ir. Tomei o banho mais rápido da minha vida e assim que terminei, fui avisá-lo para que também fosse. Nos arrumamos em silêncio.

– Tô pronta.

– Eu também. – Mentira, ele ainda estava finalizando.

Enquanto ele vestia uma camisa que ele tinha acabado de passar no vapor, todo desajeitado com a pressa, aproveitando que ele já estava na reta final e que eu não o atrapalharia, tentei quebrar o gelo:

– É ruim se arrumar com pressa, né? Rs.

– Não.

Ele não entendeu que a minha pergunta era para ser engraçada, como se eu estivesse me solidarizando com a correria dele.

– Os momentos podem ser bons ou ruins, de acordo com a maneira como você conduz. Uma coisa não muito boa pode ser engraçada, se você tiver jogo de cintura e senso de humor. – Ele disse, querendo me dar lição de moral.

Oi?? Eu não entendi por que ele estava me dando aquela alfinetada, como se eu estivesse reclamando de alguma coisa, quando eu simplesmente só tentei puxar assunto! Engoli aquilo em seco e ignorei, percebi que ele tinha entendido tudo errado e estava com preguiça demais para explicar.

– Pegou as chaves? – Perguntei quando estávamos saindo do apartamento.

– Você ouviu o que eu disse?

–  Ouvi, pegou as chaves? – Ele achava que eu estava fugindo do assunto?

Entramos no elevador em silêncio e o ar estava pesadíssimo. Eu não acreditava que já estava azedando de novo. Olhei para o relógio e adivinha que horas eram? 19:30! Brincalhona, tentei quebrar o gelo mais uma vez:

– Olha só, estamos saindo no horário que eu falei que sairíamos! 19:30!

– SIM! 19:30!! – Visivelmente alterado.

– Você está bravo?!

– ESTOU! PORQUE VOCÊ ESTÁ BRAVA!

Eu não estava. Mas a partir daquele instante eu fiquei.

– EU NÃO ESTOU BRAVA!

– FICOU SE ARRUMANDO TODA EMBURRADA!

– Genteeee, eu estava concentrada!

– GENTEEEEE… – Ele teve a audácia de me imitar!

A partir daí começamos a falar ao mesmo tempo, soltei bem alto um: “VOCÊ É INSUPORTÁVEL!”, mas não sei se ele ouviu, já que falava junto comigo. Eu entrei num estado de alerta fortíssimo em que me calei, travei o meu maxilar e comecei a respirar fundo, forte e rápido, tentando eu mesma me acalmar, pois a minha vontade era de explodir e voar no pescoço dele. Nunca em toda a minha vida eu estive num estado de fúria como aquele. Eu sou muito tranquila, foi bizarro me ver sentindo algo que eu nunca vivenciei antes.

Por um segundo pensei em desistir de ir ao evento, mas numa fração de segundo, lembrei que a outra alternativa seria ficar no apartamento com ele. Pelo menos saindo eu me distrairia da sua cara.

Quando percebi que discutir não adiantaria, porque ele falava junto comigo, me calei e comecei a respirar fundo, tentando me acalmar internamente. Porém, mais do que as grosserias que ele cuspia, a sua voz estava me irritando. A porta do elevador abriu no andar do estacionamento, e mesmo comigo em silêncio, ele continuava reclamando, enquanto ia na frente.

– Tudo você reclama! Nada tá bom pra você!

Do que eu tinha reclamado? Só estava tentando puxar assunto e ainda era acusada de algo que eu não tinha feito! Isso me enfureceu ainda mais! Meu sangue foi esquentando e, de repente, me vi gritando mais alto que ele:

PARA DE FALAAAAR!!! EU NÃO TÔ FALANDO NADA! ENTÃO CALA A BOCA TAMBÉM!!!!!

Cheguei

no meu

limite.

CONTINUA

Puta Day

2 de junho, dia Internacional das Trabalhadoras Sexuais

Querido diário,

Tenho vivido coisas novas e muito legais ultimamente.

Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente outras mulheres que também são trabalhadoras sexuais, assim como eu, e pela primeira vez me senti pertencente a um grupo. Mais do que isso, me senti acolhida, zero julgada e parte de algo maior.

Continue comigo nessas páginas para descobrir como tudo aconteceu! 😎

DILETA

“Amiga, semana que vem estarei em São Paulo. Vamos marcar um rolê.”

A Dileta era uma colega de trabalho (digo era pois agora somos amigas) das redes sociais, mais especificamente do TikTok. Quando criei a minha conta, em outubro de 2024, ela começou a me seguir imediatamente, fui conferir o seu conteúdo – muito similar ao meu, falando sobre seu trabalho e visão de mundo – me identifiquei com a forma sensata de como ela se posicionava e a segui de volta.  Passou-se um tempo e ambas fomos convidadas para participar de uma reportagem da BBC – caso não tenha visto, só clicar aqui – uma coincidência que acabou nos aproximando ainda mais, mesmo sem nunca termos nos visto pessoalmente. Dileta mora e trabalha em Araraquara e viria para SP apenas para ir a um evento, o “Puta Day”, em sua primeira edição, que quase deixei de ir para atender um cliente. Ainda bem que consegui remanejar meu compromisso e também compareci ao evento!

Sol Rara

“Oii, tudo bem? Eu vou no evento hoje. Estou animada pra te ver, estou com saudades.”

Em meados de dezembro de 2024, Sol entrou em contato comigo pelo Instagram, querendo contratar a minha mentoria para acompanhantes. Como final de ano é sempre tão corrido, falei que não estava fazendo no momento, mas me deixei a disposição para tirar dúvidas e fui auxiliando da maneira que pude. Lhe dei algumas dicas enquanto ela montava seu PDF com as informações de trabalho e até divulguei seu insta no meu storie, quando me pediu ajuda com isso. 

Como tivemos interações recorrentes através das redes sociais, resolvi conhecê-la pessoalmente, pois, diferente da Dileta, que não mora na cidade de São Paulo, foi possível combinarmos algo facilmente. A chamei para irmos a uma peça de teatro, de um amigo meu que estava no elenco, de lá fomos jantar e depois lhe dei uma carona até em casa. 

Após esse encontro, até tentamos manter contato, mas, devido a correria do meu lado, acabamos nos afastando. Eis que nos reencontraríamos neste evento.

Margô

“Estarei lá também! Você vai ficar brava se eu te tietar? Kkkkk”

Margô também já me acompanhava no insta e interagimos algumas vezes, sendo a mais marcante quando postei sobre uma peça de teatro que eu tinha ido e ela respondeu dizendo que conhecia a figurinista do espetáculo. Aquilo me fez ver como o mundo é pequeno. Ela conhecia a galera do figurino, eu conhecia a galera do elenco e cá estávamos nós, cada uma no seu corre, trabalhando com job, rs.

Chegamos ao Puta Day!

O evento começava às 17h, mas cheguei às 18h. Ocorreu num lugar chamado Lovenox, no Centro de São Paulo. Era um casarão com uma porta de entrada pequena e discreta. Um rapaz muito simpático, com ar divertido, me atendeu e me conduziu para o porão, um cômodo de luz vermelha, que ficava logo a esquerda da entrada, para que eu me identificasse. Depois liberou a minha entrada e lá fui subindo as escadas sozinha, que me levaram até um extenso corredor. Nas paredes havia quadros de fotos pornográficas, que achei um pouco chocante, me perguntando o que seria aquele lugar.

O primeiro cômodo à direita tinha uma poltrona, ring light e uma decoração mais caprichada para criação de conteúdo. No cômodo seguinte, mais aberto e amplo, de onde se ouvia muitas mulheres conversando, era uma sala, aconchegante, nem muito grande, nem tão pequena, com duas janelas enormes que davam para a rua. Fiz um rápido raio x pra ver se conhecia alguém e me acomodei, timidamente, num puff perto da janela. O evento não estava tão cheio (ainda), algo em torno de dez mulheres. A sexóloga Andréa Oliveira fazia um discurso, que tentei acompanhar o conteúdo, mas chegando com o bonde andando fiquei um pouco confusa. Me ocupei em apenas observar o espaço e as outras mulheres presentes.

Aos poucos fui tendo pequenas interações com as organizadoras do evento: a @agata.kyll e @svetlanna.jpg, até que a Dileta chegou no recinto, sendo ovacionada pela mulherada. Aos poucos mais garotas foram chegando, entre elas a Sol e a Margô e as interações foram fluindo naturalmente.

HELENOIR

“É estranho ver pessoalmente quem a gente segue no Insta, rs. Oi, eu te sigo!”

– É mesmo? Então me dá um abraço! 

E ali já engatamos uma conversa. Em pouco tempo descobri que a Helenoir trabalhava como dominatrix online e já havia realizado alguns encontros presenciais apenas para realizar sessão de BDSM em que ela era dominadora, contratada apenas para humilhar, sem que houvesse o ato sexual envolvido. Achei do caralho. 

Ela me contou que seus clientes virtuais adoravam ter conversas intelectuais com ela, descobri que ela também tem uma veia artística, e tivemos um diálogo muito engraçado sobre “dildos”. Ela contou que um cliente que era diretor de cinema, estava desenvolvendo uma produção cinematográfica em que no contexto da produção, ele teve a ideia de filmar uma mulher pendurando calcinhas. Daí Helenoir deu-lhe a ideia de que ao invés de pendurar calcinhas, e se essa mulher pendurasse dildos?

– Diu? – Não entendi muito bem.

– Dildos. 

Eu não sabia o que era dildo e fiquei refletindo por dois segundos se perguntava o significado ou se fingia que entendi, sem querer parecer uma burra.

– Desculpa a minha ignorância, mas o que é dildo?

– Um suporte peniano que você usa quando vai comer alguém. 

– Como assim?

– Que você coloca na cinta peniana.

– Ahhh tá. Nossa, eu conhecia por outro nome.

– Por qual nome você conhecia?

– Pinto de borracha kkkkkkkk.

– Kkkkkkkkkkkk.

Caímos na risada. 

– É, pinto de borracha é o nome popular kkkk. Dildo é o nome correto. 

Olha pra mim, dez anos como trabalhadora sexual, e ainda assim sigo aprendendo.

Achei muito interessante conversar com ela. Helenoir contou que era bissexual e que adorava comer o cu dos homens. O que achei impressionante, comparado a mim que nunca vi a menor graça em fazer inversão e até retirei essa modalidade do meu atendimento. 

– Eu sinto muito prazer fazendo isso. – Ela continuou. 

– Mas como você consegue sentir prazer se não é seu pinto de verdade?

– Quando eu tô usando o meu pau e a pessoa está ajoelhada na minha frente chupando, eu sinto como se eu tivesse um pau de verdade. 

– Mas como assim? Você sente como se fosse uma massaginha? – Tentei comparar com a gostosa sensação de quando alguém nos faz um cafuné. 

– Isso. Eu sinto como se a pessoa estivesse chupando os meus dedos. 

– Caramba… 

– Eu já levei isso pra terapia, e a minha psicóloga disse que é como quando as pessoas tem um membro amputado e ainda conseguem sentir a sensação do mesmo.

– Caramba…

Ela também contou que tinha uma coleção de dildos.

– Quantos você tem?

– 6! – Visivelmente orgulhosa.

– Caramba! Menina eu só tenho um. Por que você tem tantos?

– Ah tenho de vários tamanhos. Porque cada pepeka é diferente – ela também usava para as relações sexuais com suas ex-namoradas. – Eu namorei uma menina que não gostava de remeter o dildo a um pênis masculino, então eu tenho um que é todo cheio de purpurina, outra cor, pra que ela pudesse ter prazer. 

– Caramba… rs

*

Em outro momento fizemos uma rodinha ao lado da janela, e quando a Dileta, Helenoir e Margô se deram conta que todas elas eram domme (dominadoras), deram gritinhos histéricos ao mesmo tempo, se reconhecendo como membros da mesma tribo. Foi gostoso de ver aquela conexão imediata.

Ali, sem dúvida era um ambiente muito acolhedor e de conexão para todas nós. Rolaram conversas que qualquer pessoa de fora do nosso meio acharia engraçado acompanhar:

– Ninguém imagina que muitos clientes nos contratam só pra ficar de chamego.

– Ou que a maioria deles tem pau médio pra pequeno.

– Pois é! Eu achava que a média dos homens era grande, mas os grandes são a minoria, rs.

– Verdade, mas eu não gosto de pau grande não.

– Eu também não.

– Machuca e mal cabe na boca.

– Outro dia um cliente pediu pra eu avaliar o pinto dele.

– E aí?

– Falei que era pequeno.

– Kkkkkkkkkkkkkkkkk. – Todas riram.

– Mas falei que era bom pra ele comer um cu. Essa é a única hora que eles gostam de falar que tem pau pequeno, kkkk.

Quando que eu teria esse tipo de prosa com amigos do teatro, do jornalismo ou de qualquer outra área que não fosse a do job?

Roda de Conversa

Depois as organizadoras anunciaram que iniciariam uma roda de conversa, discursaram e passaram o microfone para quem quisesse se apresentar e contar um pouco da sua trajetória. Fiquei cativada pela desenvoltura que algumas refletiam e debatiam sobre o nosso trabalho:

– A gente não tá no tempo da escravidão, o nosso corpo não é moeda de troca. A gente vende O TEMPO, o psicólogo vende o tempo, o personal trainer vende o tempo, a porra do médico vende o tempo, o advogado vende o tempo. O cara quando procura uma profissional do sexo ele procura um CONTATO. Qual é esse contato? Não sabemos. O cara vem pra falar no nosso ouvido que a mulher tem periquito torto. – Todas rimos kkkk. – Entendeu? Então ele busca um contato, então o governo tem que entender isso, eu não vendo sexo, eu vendo o meu tempo e dentro desse tempo determinamos qual contato vai existir. Agora se vocês aqui (o governo) ridiculamente falar que nunca usou o serviço de uma profissional do sexo, vocês vão mentir descaradamente, porque assim, a gente tá vendo na cara de vocês que vocês tem tudo cara de cliente. – Rimos mais ainda. – @laboratoriodeprazer

– Se eu vendesse pura e simplesmente sexo eu tava passando fome. Então sim, é tempo e é um trabalho criativo do caralho, porque você tem que ambientar o seu cliente, tem que atender a fantasia, quando existe, e não tô nem falando sobre  fantasias extremas, BDSM e etc, a experiência com uma garota de programa ela já é um fetiche por si só. Porque ele acha que você é muito experiente, que você é muito rodada e que você trepa até no teto. – Todas rimos kkkk.  – “Vou contratar uma profissional porque ela sabe o que faz”. @deusaynas_

– Mas é isso mesmo, a gente sabe o que tá fazendo! – Alguém gritou do fundo.

– Claro, exatamente, é óbvio. Então assim, toda essa ambientação, todo esse esforço que a gente faz também é um trabalho intelectual e criativo. Tipo assim, pra eu falar pro meu cliente que ele não pode misturar pó e tadala porque senão ele vai morrer! – Todas rimos novamente kkkkkk. – Porra… você acha que em casa ou na roda de amigos ele vai ter esse tipo de instrução? Não vai! Então assim, procurar uma profissional, as vezes tem muito disso, e é o que ela falou da questão do contato.

– Às vezes salva! – Outra gritou.

– Salva pra cacete.

“Não cheira! Para de cheirar senão essa porra desse pau não sobe mais!!”

E assim foi seguindo a roda de conversa com interessantes debates.

Infelizmente poucas tiveram a oportunidade de falar, uma senhora monopolizou o microfone várias vezes, – uma looonga linha do tempo a se compartilhar, rs – do nosso grupo apenas a Dileta conseguiu falar um pouco no final. O evento estava programado para encerrar às 22h e esticou por mais meia hora. Fomos embora querendo mais.

Saí de lá com uma sensação tão boa de irmandade e acolhimento. Como muitas disseram, nosso trabalho é de certo modo solitário, pois, somos nós com o cliente e nada mais. E não é o tipo de coisa que podemos compartilhar com qualquer pessoa, sem receber um olhar de julgamento. Nos conectarmos com outras semelhantes a nós foi mesmo libertador. Que delícia poder sermos nós mesmas.

O match foi tanto que saímos do evento já formando um grupo no Whatsapp e combinando de jantar dali a três dias, antes da Dileta voltar para Araraquara.  

Preparados para a segunda parte dessa resenha?

Girls Just Want To Have Fun


A definição do lugar carrega uma resenha engraçada. Quando a Dileta mencionou sobre sairmos todas pra jantar antes que ela voltasse pra sua cidade, tivemos o segundo desafio que era encontrar um lugar que todas gostassem.

– Eu gosto de boteco pé sujo. – Ah Dileta falou e mais alguém concordou que também.

– Mas calma, vamos pensar em algo meio termo porque boteco pé sujo só tem fritura! Kkkkkk. – Defendi meu lado kkkk.

Daí no dia seguinte seguimos tentando definir no grupo:

– Jantarzinho na sexta então, a partir das 19h. Quem quiser manda sugestões de lugares aqui. Vamos definir. – Lancei a missão.

– Urbe, Riviera, Braz Elétrica, Futuro Refeitório… Alguns lugares que estão entre o boteco pé sujo da Dileta e o estrela Michelin da Sara kkk. E tem boas opções vegetarianas. – Margô.

– Eu voto no Urbe! – Escolhi.

– Braz elétrica e futuro refeitório tá do lado de casa, mas de todos eu gostei do Urbe também. – Dileta.

– Não conheço nenhum, então vou confiar no bom gosto de vocês. – Helenoir.

– Vamos no Refeitório amanhã? O que acham de ir às 18h? Vi que fecha 22h30. – Sol.

– Eu topooo. – Dileta.

– Esse horário não consigo. Mas encontro vocês lá por volta das 19h ou 20h. Ficou definido nesse refeitório então? – Perguntei.

Daí a Margô lançou uma enquete e o Urbe Café Bar ganhou!

*

Novamente, adivinha quem chegou antes de todo mundo? Euzinha aqui. E olha que geralmente eu sou a atrasada do rolê, não sei o que tá acontecendo, rs. Dali a pouco, Margô chegou.

– Cadê aquela sainha do seu story? – Brinquei, pois mais cedo ela tinha postado uma foto toda sexy.

– Ai menina voltei em casa pra trocar de roupa. Muito frio, rs.

– E como foi o cliente? Foi bom?

Ela fez uma pausa dramática, que a princípio me pareceu que tinha sido ruim, mas logo acrescentou:

– Foi muito bom!!

E aí ela compartilhou que era um cliente fetichista, que ela fez golden shower nele. Esse mundo das dominatrix é fascinante. Adoro ouvir as histórias, ainda que eu não tenha vontade de atender esse perfil.

Depois o assunto foi avançando e ela me contou de um fetiche insano que pedem pra ela.

– Marmita com fezes.

– Não é possível. Com fezes mesmo?

– Aham.

– E envia como? Pelo correio?

– Não sei como seria isso, nunca fiz. Mas já me pediram várias vezes.

– Eu tô passada. Você teria coragem?

– Eu teria. Só não faço porque fico pensando no que a pessoa pode fazer com meu DNA.

– Nossa eu também não vendo calcinha usada com medo de fazerem macumba pra mim kkkkkk. Mas eu tô passada com isso. Que prazer será que a pessoa sente com isso? Fezes é o descarte do seu corpo, não tem nada de bom ali.

– Tem uma teoria seguindo a psicanálise…

E bem nessa hora a Sol chegou, interrompendo algo que a minha ansiedade estava doida para descobrir.

Na teoria psicanalítica clássica, especialmente em autores influenciados por Sigmund Freud, as fezes não são vistas apenas como resíduos biológicos. Elas podem adquirir um forte valor simbólico ligado a temas como:

• relação com o corpo;

• limites entre eu e o outro;

•  posse e entrega;

• controle e submissão;

• intimidade extrema;

• amor e agressividade misturados.

Em algumas leituras psicanalíticas, o desejo de incorporar algo tão íntimo e visceral do outro poderia simbolizar uma busca de fusão radical, uma tentativa fantasmática de eliminar a separação entre “eu” e “você”.

Autores posteriores, como Melanie Klein, exploraram muito a fantasia inconsciente de incorporar partes do outro amado ou desejado. Embora ela não estivesse falando especificamente de coprofagia, a noção de “incorporação” é central: o sujeito fantasia colocar o outro dentro de si, possuí-lo completamente ou unir-se a ele de forma absoluta.

Também existe uma linha de pensamento que relaciona o fascínio por secreções corporais (fezes, urina, sangue, sêmen etc.) à experiência de acessar aquilo que normalmente é excluído, escondido ou considerado abjeto. Nesse sentido, consumir fezes poderia representar não apenas união, mas uma transgressão máxima das fronteiras sociais e corporais.

Algumas correntes psicanalíticas citam a chamada fantasia de retorno a um estado indiferenciado, anterior à separação entre eu e outro. Nessa lógica, quanto mais se atravessam os limites corporais, mais se encena simbolicamente essa união absoluta.

Interessante, não?

Depois de um tempo chegou a Dileta e por último a Helenoir.

Reparei que a dinâmica da nossa roda de conversa foi muito bem conduzida. Quem chegava naturalmente virava o centro das atenções por alguns minutos, compartilhando sobre o seu dia, e aos poucos, a conversa voltava a circular entre todas. Às vezes estávamos em grupos menores, outras vezes todas envolvidas no mesmo assunto, mas tudo acontecia de forma muito fluida. Ninguém ficava de lado.

AS MARCAS QUE NÃO APARECEM NAS FOTOS

Em algum momento chegamos a uma pauta muito delicada na vida de toda mulher. E apesar de não ser uma pauta gostosa, fiz questão de ouvir o trauma de cada uma. 

Eu tenho uma teoria de que todas as mulheres (da minha geração, pelo menos, como também das gerações anteriores), sofreram algum abuso sexual na infância. E digo mais, arrisco dizer que toda trabalhadora sexual está inclusa nesta estatística.

Mas me surpreendi que uma de nós, naquela mesa, não sofreu abuso na infância, mas sim já na vida adulta:

– Eu tinha um namorado que a gente sempre ia no motel transar sob efeito de bala (êxtase). Daí ele tava me comendo de bruços e em algum momento disse: “Agora eu vou fazer seu cu de buceta”, e entrou com tudo, sem lubrificante, sem camisinha e o principal: sem a minha autorização. Fiquei uma semana sentindo dor na região e ele ainda fez piadinha que tinha saído feijão, sendo que eu nem tinha me preparado para aquilo. E eu só fui me dar conta que tinha sido estuprada dois anos depois, quando ouvi um relato parecido de outra mulher, quando estava cursando sociologia.

Felizmente eles já não estavam mais juntos.

*

O segundo relato me deixou ainda mais perplexa. Ela tinha 6 anos e estava numa festa de casamento. Brincava com outra criança, até que as lembranças ficaram confusas e de repente estava com um homem dentro de um cômodo. Este tampou sua boca e ameaçou matá-la se ela contasse para alguém. Ela não lembra da situação em si, mas tem a lembrança de sentir a boca com algo dentro de modo que ela não conseguisse movimentar a língua e então um gosto ruim. Depois foi até seus pais chorando, dizendo que queria ir embora, que estava com um gosto ruim na boca, mas estes estavam alcoolizados e não lhe deram a devida importância.

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– Eu tinha 13 e ele 32 quando começamos a “namorar”. Perdi a virgindade com 14, que ele falava que tinha que esperar até os 14 pra não ser preso. Foi um relacionamento abusivo, ele fazia muita violência psicológica comigo, que no final avançou para violência física. Várias vezes quando eu tava dormindo, acordava com ele transando comigo. E eu fazia mais para agradar, ele queria fazer todo dia e eu, com aquele pensamento de querer agradar o meu namorado, fazia sem vontade. Ficamos juntos por seis anos. Quando eu estava mais velha, encontrei um pen drive na gaveta dele, e fui ver o que tinha, adivinha? Se tratava de um vídeo de pornografia infantil.

*

E para quem pensou: “E o seu trauma, Sara?”, já contei essa história aqui no blog em outra postagem, só clicar aqui.

Afinal, quando isso vai acabar? Quando o homem vai respeitar o corpo da mulher? Ou ele abusa na infância, ou estupra na vida adulta. Eles gostam de abusar e tomar, mas quando temos controle e cobramos, nos criticam. Se fosse um homem no nosso lugar, recebendo dinheiro para comer uma mulher, duvido que eles discriminariam a si mesmos. Pelo contrário, se sentiriam o pica das galáxias. 

Então, na verdade, o que incomoda não é “a venda no nosso corpo”, já que a história mostra que nunca respeitaram o corpo feminino. O que incomoda mesmo é a nossa liberdade. É a gente decidir por nós mesmas quem terá acesso e ainda lucrarmos em cima disso. E a mulher que tem seu próprio dinheiro, não depende da submissão a um homem. Aproveitando o ensejo, recomendo este livro:

As Prostitutas na História - Nickie Roberts


Segundo Nickie Roberts, autora do livro: “As Prostitutas na História”, em tempos antigos, as prostitutas já foram consideradas deusas sagradas e os ritos sexuais uma tradição divina. Foram homens, invejosos do governo, querendo “recuperar” o poder sobre a gente, que criaram o moralismo, o cristianismo e por fim, o casamento, no intuito de controlar ainda mais as mulheres. Infelizmente, muitos ainda não estão preparados para essa conversa. E o mais ridículo é que esses mesmos que condenam, são os que consomem escondido. 

Espero contribuir, nem que seja um pouquinho, para que num futuro distante, a mulher possa ser respeitada e nunca mais abusada ou difamada por um homem.

E como é bom fazer parte de uma irmandade. Onde podemos nos apoiar, compartilhar nossas dores, rir de situações que só a gente entende e sonhar juntas por um futuro melhor para a nossa classe social. A classe das mulheres e principalmente das trabalhadoras sexuais

Que o evento “Puta Day” repita todo ano e que mais mulheres possam se apoiar. Amei conhecer universos diferentes do meu, amei formar uma nova rede de apoio com quem também é do meio, amei encontrar um lugar seguro para compartilhar o que eu vivo de forma acolhedora e extremamente empática. Amei sentir esse aconchego vindo de uma deliciosa sensação de pertencimento. Acho que enfim encontrei a minha tribo. Fui embora com o coração quentinho, com novas amizades e a certeza de que caminhar junto torna qualquer jornada mais leve.

Que venham os próximos encontros! ❤️

Manifesto Feminino

De repente cheguei aos trinta e me vi mulher.

Passei a me identificar com causas femininas e me deparei com a triste realidade da mulher na sociedade: A mulher objetificada, que é estuprada e desvalorizada. 

E vamos lembrar que eu faço parte de um grupo muito específico: A puta, a garota de programa, a mulher da vida, a PROSTITUTA. Sim, sou tudo isso. Mas também sou a mulher que gera vida (se eu quiser), a que seduz, a que hipnotiza, a que traz alegria pra dentro de uma moradia. 

Ser mulher é viver em ciclos. É habitar fases que mudam nosso corpo, nossa mente e a nossa percepção. TPM, menstruação, gestação… Mas também temos muita sensibilidade e uma forte intuição feminina. Temos um corpo que sangra e que, por muito tempo, foi ensinado a ser visto como sujo, impuro, quando na verdade carregamos criação, consciência e renovação.

Crescemos sendo pressionadas a caber em padrões: belas, jovens, desejáveis. E existe um custo constante para existir como mulher: tempo, dinheiro, energia e adaptação. Historicamente atravessadas por experiências que nos exigiram sermos mais fortes, mas nunca livres demais.

Eu cresci e tomei a consciência de como o mundo pode ser cruel ao se aproveitar de uma mulher. Homens frágeis que não sabem ouvir um não. Ou que se aproveitam da inocência de uma menina em formação, que nos olham por vezes com um desejo nojento, mesmo quando o ambiente não condiz com tal comportamento.

Esses dias eu estava me servindo num restaurante self service dentro de um shopping, e um homem muito mais velho, de traços árabes e asqueroso, me encarou de um jeito invasivo, que me deixou desconfortável. Rapidamente desviei o olhar para deixar claro que eu não estava correspondendo, mas ainda assim, mesmo olhando para o meu prato, enquanto me direcionava a balança, ainda pude sentir o seu olhar sobre mim, enquanto cruzávamos o espaço. Ele estava indo se servir no mesmo estabelecimento também, e fez questão de guardar o seu lugar justamente onde eu acabara de me sentar, mesmo com muitos lugares vagos em torno da gente. Teatralmente colocou sua nécessaire à minha frente e nesse momento marcou presença, me dando um forte: “Boa tarde”, em português, ainda que com os outros dois que estavam com ele, falasse em outro idioma. Forçando uma interação desnecessária com uma estranha, que só estava ali comendo.

Eu, que já tinha percebido seu olhar de interesse anteriormente, nem queria responder ao seu cumprimento, mas fui ensinada a ser educada e lhe devolvi o “Boa tarde”, mesmo que sem vontade. 

Se sentou de frente para mim, no intuito de que rolasse algum contato visual, e para não ter que trocar de lugar e talvez deixar ainda mais claro que me senti invadida, me limitei a comer olhando para o meu prato. Olhei de sorrateiro para o vazio de assentos pela extensão da mesa compartilhada e não compreendi essa inconveniência, dele sentar junto com seus amigos bem no espaço que eu tinha me abrigado.

Sim, eu sou puta. Sim, eu trabalho com sexo. Mas isso não quer dizer que fora do meu contexto de trabalho, eu me sinta confortável com olhares lascivos, numa situação cotidiana.  Não interessa a minha roupa (que nem era sexy ou vulgar), ou a cor do meu batom (que nem era vermelho), nada dá o direito a um homem qualquer achar que tem essa liberdade, de tentar uma proximidade, através de um forçado “Boa tarde”

Sim, eu trabalho com sexo. Mas não é qualquer um que se deita comigo. E o homem sabe quando algo não é para o seu bico, mas ele tenta porque não respeita o nosso espaço.

Frequentemente vejo comentários machistas nos meus vídeos do TikTok, de homens que se acham soberanos por se considerarem “homens de respeito”, enquanto eu sou uma mulher que cobra por algo que eles gostam de ter ou tomar de graça. Mas antes de serem rudes com qualquer mulher, independente de quem ela seja, ou do que ela faça, deveriam se lembrar de que só estão aqui…

Por terem nascido de uma.

A Namoradinha do Seu Marido

Querido diário, 

Preparados para um post polêmico? 

Esses dias estava refletindo sobre como é uma delícia ser namoradinha de homem casado. Mas calma, não sou nenhuma talárica, apenas estou exercendo o meu trabalho, cumprindo uma função que frequentemente me é atribuída. 

90% dos meus clientes são casados, e olha… como são um perfil delicioso de atender! 😎 Outro dia, aconteceu uma coisa muito atípica, que em alguns anos como acompanhante nunca tinha me acontecido. Um cliente que eu já tinha saído algumas vezes, me contratou para uma brincadeira a três com a sua esposa, em que eu precisei fingir que nunca tinha saído com ele, rs.

Sim, os homens são muito safados. Tão safados, ao ponto de cada vez mais eu ter certeza que o matrimônio é uma grande mentira. Uma farsa criada pela sociedade para esconder a hipocrisia. Esses dias, quando estava na Scandallo, conversei com um rapaz muito inteligente, que me afirmou que 99,99999% dos homens são infiéis. Não que seja alguma novidade pra mim, eu também já cheguei a essa concepção, mas vendo um homem reconhecer isso, se apoiando em dados científicos, achei muito agregador na conversa. Ele afirmou que existe uma parte do cérebro masculino que está sempre em busca de dopamina. O homem não trai por falta de amor ou caráter, mas sim porque seu cérebro é programado para isso. Algo que eu até compreendo, não estou aqui para julgar, mas para refletirmos juntos o quanto lutamos contra nossa real essência, ao querermos nos enquadrar em algo que foge da nossa natureza.

As pessoas adoram me perguntar: “Você não quer casar e formar uma família?”, daí eu penso, pra que vou me enfiar numa prisão em que a longo prazo ambos diminuiremos o tesão pelo outro, passar para o lado da esposa que o marido engana saindo com outra, se ser a namoradinha do casado é muito mais gostoso?

E digo mais, é claro que não posso falar por toda a população do planeta Terra, mas diante do que vejo nesses bons anos trabalhando como uma profissional do sexo, é muito provável que todo homem casado tenha uma namoradinha, seja ela paga ou não, para se divertir fora do seu casamento. Eles casam com as puras, mas se divertem com as putas. 

As vantagens de ser uma esposa, ao meu ver, são bem poucas, na verdade. A oficial sempre está presente em datas comemorativas e eventos de família. Ponto. Essas são as únicas vantagens. 

A namoradinha fica com todas as outras partes boas. Sexo ardente que nunca esfria, pois não tem o desgaste da convivência, passeios diferentes por ele querer fugir do estresse da vida cotidiana, presentes interessantes por ele querer ver o deslumbre nos olhos de alguém que não está acostumado a ter isso todos os dias, não temos os estresses das contas a pagar, dos filhos a educar, dos parentes chatos a socializar, ficamos apenas com aqueles momentos íntimos em que ele se desconecta da sua vida real para ser outra pessoa.

Eu adoro ser namoradinha dos meus clientes. Não tem brigas, falta de tesão ou mesmice. O que você chama de solidão por as vezes eu estar sozinha na minha casa, eu chamo de paz, liberdade e sossego. Tem duas coisas que os homens têm de melhor: sexo e dinheiro. E eu consigo ter isso deles, sem a parte da dor de cabeça. É o paraíso. 

Daí você pensa: “Nossa, que coração de gelo”, até que não, sabia? Já me apaixonei perdidamente por dois clientes!

O primeiro foi logo ali no começo, no meu primeiro ano de experiência. Seu apelido aqui no blog é “Habib”, por ele ter traços árabes. Escrevi alguns relatos sobre ele. Empresário, tinha alguns comércios no Brás. Não foi um cliente que me apaixonei de primeira. O achava bonito, mas muito fumante e o sexo nem era lá essas coisas. Sabe como ele conseguiu me conquistar? Me levando para vários restaurantes caros. O meu ascendente é touro, ou seja, me conquistou pela barriga. A primeira vez que fui num restaurante chique, foi com ele. Lembro que fiquei espantada quando vi que a conta tinha ficado R$ 600, isso em 2015, quando o dinheiro tinha outro valor. Mais do que o deslumbre por coisas finas, ele não me contratava pelo sexo, mas sim pela companhia, quantas vezes saímos pra jantar, sem a obrigatoriedade do “algo a mais” depois? 

– Sabe qual é o meu sonho? – Ele me disse certa vez, durante o sexo, quando eu ainda não estava envolvida. 

– Qual?

– Que um dia, nem que seja só uma vez, você transe comigo sem eu precisar pagar. Que você queira transar comigo não pelo dinheiro, mas porque você quer mesmo. 

Lembro que quando o ouvi dizer isso, pensei “coitado”, mas o danadinho conseguiu reverter o jogo. Com o passar do tempo, conforme fui me apaixonando (saíamos mais de uma vez por semana), transar com ele passou a ser algo cada vez mais prazeiroso. A paixão é como um filtro de embelezamento numa rede social: traz um brilho extra para cada momento. 

O Habib só tinha um problema: era muito ciumento com o meu trabalho. Algo completamente ilógico, visto que me conheceu assim e ainda era casado, com filho pequeno. É ridículo como os homens adoram ter posse, quando nem eles se prendem ao que foi construído. 

E já que me queria de forma exclusiva, o que caberia a ele fazer então? Me bancar financeiramente. Tivemos essa conversa e colocamos no papel todos os meus gastos. Ficaria apertado, mas, segundo ele, conseguiria. Eu não poderia ter nenhum luxo extra, seria tudo contadinho, mas como eu estava apaixonada, topei do mesmo jeito. 

A grande questão foi que, até isso de fato acontecer, precisei continuar atendendo, o que resultou em mais brigas desgastantes por ciúmes. Eu não podia mais nem aceitar uma carona dos meus clientes. E se tem uma coisa que eu já percebi que detesto é ser controlada por alguém. 

Certa noite, o Habib quis me encontrar para discutir a relação e eu recusei. Já estava saturada de brigar e falei para nos resolvermos por mensagem mesmo, e só deixarmos para nos encontrarmos quando estivesse tudo bem. Queria encontrar pra curtir e não pra ter conversas exaustivas, que nunca resolviam o problema de fato. Daí, de pirraça, ele parou de me responder, mesmo eu demonstrando toda uma boa vontade de conversar a distância. 

Quando ele voltou a me dar atenção, disse o seguinte:

– Estava jantando com a minha esposa e precisei arquivar a conversa. Eu te chamei pra vir jantar comigo e você que não quis. A minha esposa, apesar de já ter jantado, veio me acompanhar. 

Eu apenas respondi:

– Palmas pra ela. 

Daí sabe o que ele fez? 

– Quem você pensa que é pra ofender a minha esposa? Vai se fuder!!

E me bloqueou. Assim, sem mais nem menos. E vamos combinar que eu nem tinha ofendido ela, apenas fiz um comentário irônico. Foi o rompimento mais ridículo que eu já vivi. Fiquei na maior fossa por vários dias. Não conseguia atender ninguém, fiquei na merda sem dinheiro, e ele tinha cortado o contato completamente. Ainda me senti uma grande idiota, por ter parado de cobrar dele, o que só reforçou o sentimento de ter sido usada. 

Quatro anos depois, novamente me apaixonei por um cliente. Aqui no blog ele está como: “O Fenomenal”. Um carioca careca, advogado, gostoso. Diferente do Habib que a conquista levou um certo tempo, pelo Fenomenal foi paixão imediata desde o primeiro encontro. Até aquele momento eu nunca tinha tido uma transa tão gostosa. Ele me apresentou o que era um sexo de respeito. Me conquistou pela cama. E desde o primeiro encontro passamos a nos falar todos os dias. A recíproca foi tão verdadeira que, para o nosso segundo date, ele comprou uma passagem de avião para que eu fosse encontrá-lo numa viagem de trabalho em Porto Alegre, onde tivemos o nosso primeiro pernoite. Transar com o P era coisa de outro mundo. Me apaixonei completamente, se tornou meu muso inspirador aqui no blog. Os textos: “P de Paixão”, “Romanticamente Safada” e “Eu, Tu e Ela” foram escritos inspirados nele. 

Diferente do Habib, o P não tinha ciúmes do meu trabalho, até porque ele morava no Rio e também era casado, com dois filhos pequenos. Mas assim como o primeiro, tentou me manipular para que eu deixasse de cobrar dele. 

– Olha linda, vai ter dias que eu vou pra São Paulo, mas não poderei sair com você. Não porque eu não quero, mas porque não posso. 

Imediatamente compreendi que se referia a um possível impedimento financeiro. Eu amava transar com o P, muito mais do que foi com o Habib, mas eu já tinha aprendido a minha lição e jamais cometeria o mesmo erro novamente. Deixar de cobrar de cliente casado, quando eu não tenho nenhuma garantia na relação, é a forma mais burra de me tornar uma amante. Obviamente não cai no seu joguinho.

– Tudo bem lindo, quando você não puder sair, a gente não sai. 

Mas mesmo assim o P tinha algumas regalias comigo, me pagava o equivalente a um pernoite e eu ficava com ele a noite e o dia seguinte inteiro. Nunca saíamos do quarto do hotel, nossos encontros eram regados a muito sexo. Tenho até um vídeo de 0:23 segundos, transando com ele, que envio no privado, como mimo, para os meus assinantes do Only

Na última vez que estivemos juntos, saímos para jantar e até tiramos uma foto na mesa do restaurante. Ele nunca tinha saído comigo em público, e naquela noite pareceu que estávamos avançando. Ledo engano, depois daquele encontro, nunca mais nos vimos. E como foi o rompimento? Determinada tarde, enquanto tínhamos nossa costumeira troca de mensagens diária, de repente ele reapareceu dizendo que sua esposa tinha descoberto, que ela estava com seu celular na mão e acabou vendo a minha mensagem. Ou seja, a casa caiu pro lado dele. 

Como ele vivia reclamando do casamento e fazia insinuações sobre um possível futuro comigo, achei que se separaria se em algum momento desse merda. Nada disso, quem ficou a ver navios fui eu. Novamente sofri um coração partido. O meu único consolo foi não ter deixado de cobrar dele em nenhum momento. Eu tinha perdido o meu brinquedinho, mas dessa vez não saí me sentindo usada. É muito importante aprender com os erros. 

Depois do P, eu tive um novo aprendizado: não mais me deixar enganar por xaveco de homem casado. E a terceira vez que me permiti ter esse envolvimento, foi por um cliente que não me atraiu pela aparência, nem pelo sexo, mas pela forma como ele me tratava. Pelos pernoites em que agendava e cozinhava pra mim em seu apartamento para depois assistirmos filme no sofá da sala, como um legítimo casal namoradinho. Não me apaixonei rapidamente, foi uma construção que levou tempo, resultando em um ano de namoro e um ano morando juntos durante a pandemia. Mas essa história você pode conferir completa em outra postagem, só clicar aqui

Eu já estive dos dois lados. Já morei junto, já fui casada. É um modo de vida diferente, você ganha a companhia e o amor do outro, mas perde a sua liberdade e solitude. Talvez ainda não fosse o meu momento de me prender a alguém, mas não sei se algum dia isso me fará totalmente feliz, já que todas as vezes que tentei me relacionar, não fui bem sucedida. Até mesmo com o Intenso, ainda que apaixonada e disposta a parar de atender mais uma vez, lá no âmago eu me sentia um pouco castrada ao vislumbrar o meu futuro. E deve ser por esse mesmo motivo que os homens traem, por lá no fundo eles também sentirem essa fobia, com a diferença de que eles dão o seu jeito para terem o melhor dos dois mundos. Mas será que apreciariam suas esposas também terem seus namoradinhos?

Talvez um dia eu volte a escolher o outro lado. Talvez não. Hoje, a verdade é que prefiro a lucidez à ilusão. Já fui esposa, já fui amante, hoje sou namoradinha de aluguel. E se tem algo que aprendi estando em todos esses lugares, é que o problema nunca foi onde eu estava, mas a mentira que contaram sobre onde deveríamos estar.

No fim das contas, talvez o problema nunca tenha sido a namoradinha do marido. Talvez o problema seja a fantasia que insistimos em sustentar sobre amor, posse e fidelidade, mesmo quando a realidade se apresenta todos os dias de forma oposta. Eu não sou vilã, nem heroína. Sou apenas uma mulher que escolheu não fingir. E enquanto o casamento continuar sendo um acordo social que ignora a natureza humana, sempre haverá uma esposa acreditando… e uma namoradinha sabendo. 😏

“O Intenso” – Parte 12

Nesses 5 meses em que ficamos juntos, nos aventuramos na Hot Bar mais vezes do que relatei. E a nossa última aventura foi… olha… nem sei como adjetivar essa experiência. Deixo esse desafio pra vocês nos comentários!

*

Cada vez mais o Intenso me revelava camadas sobre a sua possível bissexualidade. Isso me preocupou um pouco no começo, por receio dele acabar se descobrindo gay e me trocar por um homem, mas procurei adotar um pensamento mais altruísta de que se isso acontecesse, eu deveria ficar feliz por ele, por finalmente se conectar com a sua real essência e deixar de viver uma mentira. Afinal, amor é isso, você quer que a pessoa seja feliz, mesmo que não com você.

Então eu dava corda pras fantasias dele, e já rolava algumas trocas de putaria nesse sentido, sobre chuparmos um pau juntos, por exemplo. Então fomos na Hot Bar transformar a fantasia em realidade.

MÉNAGE MASCULINO

Troquei olhares com um japonês interessante na pista de dança, ele estava single na balada. Foi o nosso segundo ménage com outro cara, com a diferença de que dessa vez eu interagi mais com os dois juntos, diferente dele ficar só assistindo e se masturbando. Não fiz dp, nem nada do tipo, apenas encostei os dois paus um no outro, enquanto chupava os dois ao mesmo tempo, um roteiro já pré-definido entre a gente. Em algum outro momento o Intenso também masturbou o japa, mas não passou disso. Depois que transei com esse rapaz e ele chegou lá, a brincadeira acabou e saímos em busca de uma nova aventura.

*

Nessa noite, podemos dizer que consegui ter a minha vingancinha por tudo o que passei e pelo que ainda iria passar, quando me deparei com a seguinte situação:

– Vi que você vai pra Hot Bar hoje, também estarei lá, estou te avisando para não causar nenhum constrangimento.

– Olha só. Quem sabe fazemos uma troca de casal?

– Acho que não vai rolar, a mina que eu vou é ciumenta.

– Ahhh, que pena.

Um ex ficante e o meu atual sob o mesmo teto. Que emoção!

O BOY ECONOMISTA

Fazendo um breve resumo sobre esse personagem, ele quase virou capítulo aqui no blog, foi o último que saí antes de me envolver com o Intenso. Inclusive, ele brincava que todas que ele ficava, namoravam o próximo rs, e realmente aconteceu kkkk.

Como nos conhecemos?

De uma maneira que eu jamais imaginaria. Ele já era seguidor da Sara no Instagram e me abordou pela rede social com um papo sobre investimento. Uma abordagem confusa, respeitosa e educada:

– Sim, essa é uma mensagem totalmente aleatória sobre o que eu estava pensando. E eu pensei: Será que ela já tem alguém que a ajuda na parte da organização financeira dela? Então, lá vai: Você já fez um Planejamento Financeiro? Precisa de ajuda com isso?

Como a primeira frase começou desse jeito engraçado, não falando nada com nada,  conseguiu chamar minha atenção e fui dar uma olhada no perfil dele. Continham alguns vídeos profissionais dele falando sobre economia, o que me passou uma certa credibilidade e fui cativada pelo seu jeito de se comunicar, além de tê-lo achado bonito. Correspondi o flerte, ainda que ele não admitisse que estava flertando com aquele papinho de investimento, rs.

– Gostei da ousadia.

– Eh sério, rs. Eu admiro seu trabalho e como vc trata ele. E acho que você precisa de ajuda com finanças, porque a maioria das pessoas precisam. Então, se quiser tomar um café pra falar disso, podemos tomar. A gente mora perto, rs.

– De repente podemos. Como sabe que moramos perto?

– Vc mora perto da Paulista. Eu moro na Vergueiro. Pelo menos parece pelos lugares que frequenta.

– Que observador.

– Ah sim, isso sim. Mas não sou stalker, pode ficar tranquila, rs. Eu tô indo pra uma convenção da empresa e depois viajo pra Patagônia, senão já te chamaria pro café. Posso te chamar na volta?

E aí trocamos muitas mensagens até de fato nos conhecermos pessoalmente.

Bom… não vou me delongar no nosso lance agora (vai que ele vira um capítulo mesmo depois), mas no total saímos três vezes. Desencanei quando percebi que ele era bicho solto. Eu tava querendo um romancinho e ele não estava na mesma vibe. Segue na pegação até hoje com várias.

Enfim, me avisou que estaria na Hot Bar e fiquei na dúvida se comentava com o Intenso ou não, já que era muito ciumento. De repente, vi o Economista na pista de dança e pareceu cena de filme, rs. Não estávamos muito perto, mas nos vimos praticamente ao mesmo tempo, ele levantou sua garrafa de cerveja no ar, em saudação, e eu levantei a minha taça de gim. Nossos pares não perceberam essa singela interação. Depois, conduzi o Intenso para que fôssemos mais perto deles, e aí o cumprimentei. Antes que eu pudesse fazer as devidas apresentações, o Intenso já estava o cumprimentando também, e ali decidi não revelar nada, e deixar o Intenso tentar desenrolar as coisas por si mesmo. O boy Economista entendeu a minha jogada e também agiu como se não me conhecesse.

O Intenso tentou um troca de casal, mas como eu já sabia, a garota era ciumenta e não rolou. O que foi um tanto frustrante, seria legal ter os dois caras que eu curto na mesma cabine, nus, além do Intenso também ter achado o Boy Economista interessante.

Daí sugeri para o Intenso tentarmos algo com eles organicamente, quando estivessem lá no inferninho, às vezes, na hora do tesão, quem sabe ela se permitisse? E em outro momento os vimos lá, na maior pegação, numa parte que permitia esse contato com outras pessoas, e não estavam dentro de uma cabine, o que facilitaria esse contato. Quando o meu olhar e o do Economista, que estava comendo ela de costas, cruzaram, antes que eu pudesse tentar qualquer coisa, no mesmo segundo um outro casal nos abordou, interessados em nós.

A NOVINHA E O ITALIANO

Quem nos abordou foi a menina, dizendo que nós tínhamos sido o casal que chamou muita atenção do seu par, que era um homem, mais velho, italiano. Demos corda e foi divertido as interações do Intenso se comunicando com ele, também em italiano (tentando rs). Fomos os quatro para uma cabine. O italiano pirou em mim, com poucas preliminares, já queria transar, ao que o Intenso tentou dar um freio, quando viu o cara já pegando o preservativo: “Calma aí”, ele disse.

Essa foi a segunda vez que vi o Intenso interagindo com outra mulher. – A primeira experiência tinha sido numa outra noite que fomos na Hot Bar, com uma menina linda de 23 anos, que me atacou cheia de tesão, rapidamente me deixando no clima também. Inicialmente ela interagiu somente comigo e eu que puxei ele pra brincadeira depois, por eu mesma ter ficado com muito tesão nela e querer compartilhar aquela delícia. Mas ele só a chupou e beijou, transar com outra na minha frente ainda não tinha acontecido. – E desta vez, surpreendentemente, ele não queria transar com a menina (por isso tentou frear quando viu que o Italiano já ia avançar comigo).

– Melhor não, ela tem ciúmes. – Me usando como desculpa.

– Pode transar, lindo, tá tudo bem. – Incentivei.

(Os sinais estavam lá e eu não percebi, rs.)

Ambos transamos, mas ninguém gozou.

No término, o Italiano e o Intenso trocaram número de telefone e cada casal pegou seu caminho.

O MAROMBADO MUSCULOSO

Nossa terceira interação ocorreu naquele mesmo inferninho, em outro momento, em que uma mulher começou a interagir comigo, ao mesmo tempo em que interagia com o seu parceiro. Daí ela incentivou uma interação minha com ele também, olhei para o Intenso que deu sinal verde para seguirmos. Achei o cara gostoso e interagi com vontade. Dali a pouco sua parceira incentivou que transássemos e após encapar o menino, me pegou deliciosamente no frango assado. Eu continuei sentada onde estava, com as pernas abertas, e o Intenso fugiu de interagir com a mulher do cara, preferindo ficar sentado do meu outro lado, se masturbando, enquanto assistia (provavelmente se imaginando no meu lugar). Foi uma delícia aquela transa, não sou fascinada em homens musculosos, mas aquele tinha uma forte presença. Gozou gostoso comigo.

*

Após todas essas interações, o Intenso quis tentar uma estratégia diferente, nos conduzindo para uma cabine, onde entramos e ele trancou a porta, deixando a cortina aberta, para que quem tivesse passando nos assistisse. Como já tínhamos tido três significativas interações, ao nos fechar ali, pensei que seria um momento só nosso, mas ele só estava me usando como isca para atrair outros homens. E funcionou. Colou um na porta (que deveria estar com sua parceira do lado, pois naquele ambiente só entravam casais e não singles) e esse cara colocou o pau pra fora, naquele buraco da porta. Comecei a masturbá-lo e chamei o Intenso para interagir junto. Era a sua chance de explorar, sem culpa, a sua bissexualidade. Daí ele fechou a cortina da porta, para que o rapaz não visse quem estava na ação e abocanhou o pau dele. Revezamos. Ora eu chupava, ora ele. Determinado momento o deixei chupando mais, até que… o cara gozou na boca dele! O Intenso quase se engasgou – veio de surpresa  –  e parou de chupar. O rapaz guardou o pau e fez um sinal de joinha, agradecendo.

Eu me diverti com a situação, celebrei que ele tinha conseguido fazer um homem gozar (achando que era a sua primeira vez naquilo) e aí o Intenso se voltou para o casal da cabine ao lado, pelo buraco da parede, que permitia essa interação, se estivesse aberto.

O cara que estava comendo uma mulher, em algum momento deu descanso para ela e colocou o pau no buraco da parede, tal como o outro tinha feito no buraco da porta. Deixei que o Intenso interagisse sozinho com esse e me voltei para ele, o chupando. Ou seja, enquanto eu chupava o meu homem, ele chupava outro cara. Ficamos nessa por algum tempo, até que fiquei com vontade de transar e pedi que me comesse. Ele atendeu prontamente, mas, após pouco tempo transando, quis interromper para interagir com outras pessoas que tinham parado para nos assistir pelo vidro da porta.

– Olha, chegou um casal aqui.

– Me come.

Ele continuou, mas dali a pouco tentou novamente:

– É um casal bonito, vem ver.

– ME COME!

Me irritou profundamente ele querer interromper a nossa transa pra chupar outro pau. Já não bastava não?!

Daí, adivinha o que aconteceu?

Ele broxou.

Em cinco meses, ele nunca tinha broxado comigo.

Quando comecei a sentir o seu volume perdendo força, interrompi a transa e falei que queria voltar pra pista de dança. Ele se vestiu, mas ao contrário do que solicitei, nos conduziu para a saída. Não contestei, não tinha mais clima pra continuar ali mesmo.

No Uber viemos em completo silêncio.

Assim que adentramos no meu apartamento, instiguei uma conversa:

– Vamos conversar sobre o ocorrido?

– Vamos. – Num tom tranquilo, demonstrando uma falsa boa vontade.

– O que aconteceu ali?

– Eu só não queria mais transar.

– Você não quis mais transar para chupar outro pau.

– Não.

– Foi exatamente isso que aconteceu. Você só broxou depois que apareceu aquele outro casal, porque você preferia chupar um pau do que continuar comendo a sua namorada!

– Não foi isso.

– CLARO QUE FOI!

Daí, como de costume, sempre que lhe é exigido alguma resposta, ele fica ofendido e faz movimentos de ir embora. Desta vez não o impedi, eu também estava irritada e se ele queria ir embora, que fosse com Deus!

Saiu sem dizer uma palavra. Quando percebi que ele tinha deixado peças de roupa para trás, fui até o corredor para avisar, mas quando abri a porta ele já tinha sumido. Sequer ouvi o barulho do elevador. Voltei para dentro do apartamento, tirei minha make, tomei meu banho tranquilamente, coloquei meu pijaminha, fiz meu skincare e fui dormir com a cama toda só para mim.

Quando acordei, por volta das 9:30 liguei para ele. Duas chamadas não atendidas. Daí mandei a seguinte mensagem:

– Você esqueceu roupas suas aqui em casa. Depois só me avisa se chegou em segurança.

Quarenta minutos depois e as minhas mensagens continuavam não entregues.

– Estou preocupada com você. Seu celular está desligado. Me avisa se chegou bem, assim que acordar. E vamos fazer uma chamada pra conversar sobre ontem. Muito impulsivo e imprudente da sua parte ir embora daquele jeito.

Fui passar o domingo com a minha mãe.

Já era duas da tarde e ele continuava sumido, celular permanecia desligado.

– Estou preocupada com você. Que crueldade sua sumir desse jeito, eu fico aqui achando que você sofreu algum acidente na volta. Só não baixo na sua casa pq o risco de dar com a cara na porta é grande, já que vc está incomunicável por aqui e não sei nem se vc tá na sua casa. (Meu amigo Denis acha que ele foi pra sauna gay.)

Ele foi aparecer duas horas depois, por volta das quatro da tarde, respondendo a minha mensagem inicial, sobre ele ter esquecido roupas no meu apartamento:

– Quando vc vier buscar as suas vc traz.

– Achei que tinha acontecido alguma coisa.

– Não tem que se preocupar comigo mais.

– Quer que eu busque quando?

– Quando vc quiser. 

– Pode ser hoje?

– Pode. 

E a preguiça de sair de Guarulhos até Campinas? 

– Só me avise pra eu não estar em casa. – Ele acrescentou. 

– Você não vai querer conversar sobre o que aconteceu? Já quer terminar desse jeito?

– Vc mesma já terminou ontem.

– Eu não terminei. Você que foi embora.

– Não lembra de como ficou me pressionando pra dizer algo que vc queria ouvir, enquanto o que eu queria falar era outra coisa? Ontem eu tive muitos insights sobre mim mesmo.

– Eu estava te pressionando a me dizer a verdade. E você preferiu ir embora e me deixar com as minhas paranoias. Como se o seu silêncio fosse a confirmação do que eu estava achando. Você não se preocupou em me fazer mudar de ideia.

– Vc é irredutível em mudar de ideia. Ontem vc me levou para o parquinho pra brincar, me soltou e disse: pode brincar com o que quiser… e aí eu descobri um brinquedo novo… e gostei… e no começo vc me apoiou. Mas depois vc me chamou de volta e me repreendeu. Eu estava ali num momento de descoberta, concentrado, encantado com novas sensações e me sentindo seguro por estar a seu lado, até que o jogo mudou e você começa a me pressionar. Não sei se ficou com ciúmes pq percebeu que eu tinha curtido chupar pau também… não sei o que aconteceu. Já eu, em momento algum te repreendi nas suas brincadeiras. Deu pra 3, beijou mulheres e nem por isso fiquei te cobrando dar só pra mim. Era um ambiente de diversão mútua. Em casa seríamos só nós dois, de Lovezinho. Agora estou aqui com essa sensação de descoberta e ao mesmo tempo perdido e sem apoio.

– Sabe o que eu percebo de você? Que quando vc é confrontado com algo que foge do seu controle, você foge. Eu fui dormir me sentindo preterida. Por você preferir interagir com outras pessoas do que transar comigo. Como se o que a gente tem, não tivesse mais graça pra você. Foi esses insights que vc teve? Que o que nós temos perdeu a graça pra você?

– Não, foram insights muito maiores. Eu olhava a hot como um parque de diversão para os dois. O que temos um com outro não cabe dentro da hot. É muito maior. 

– Eu apoiei a suas brincadeiras com o maior gosto, te chupei por um tempão enquanto você chupava o outro cara, só que em algum momento eu queria você só pra mim. Igual quando você fica com ciuminho depois. E quando você quis interromper um momento nosso por uma pessoa estranha, aquilo pegou muito mal pra mim. Talvez eu devia ter falado com mais cuidado, tipo “lindo, quero fazer amor com você agora, quero ficar com vc um pouco agora” do que dizer “me come” daquele jeito impositora.

– Sim. Com certeza seria diferente. Eu entenderia e pararia a brincadeira. Nem eu e nenhum homem funciona sob pressão. Eu muito menos. Travo. É psicológico.

– Reconheço que não tive muito tato na hora, mas pq eu tava com ciuminho da atenção dispensada para outro. Queria uma confirmação de que você ainda preferia a mim, e quando você quis interromper pra de novo interagir com outro cara, me senti uma pessoa zero importante pra você.

– Dispensada para outro pq era meu momento de brincar. Não fiquei com ciumimho quando vc estava dando pra três ou beijando outras. Vc ficou com ciumimho pq descobriu que eu curti uma coisa nova. Vc sempre vai ser mais importante que eu, acontece que aquele tipo de brincadeira só teria ali. Fora dali seria só nós. Ontem eu descobri um lado muito importante a meu respeito: sim, curti chupar pau e achei muito excitante, e isso pode ser um problema pra vc e pra qualquer outra mulher… Vim a viagem toda pensando nisso e me recriminando sem querer aceitar isso… Mas veio a solução: não posso mais negar que gostei disso e não vou me limitar… se um dia eu quiser fazer isso dinovo, é fácil: faço igual os outros caras que fazem… contrato uma amiga sua GP e vou lá só pra isso. Só pra chupar pau.

AFFFFF

– Mas você também aproveitou quando eu dei pra esses três caras. Você fala como se tivesse sido algo só pra mim e foi pros dois. Eu embarco na brincadeira com vc, tanto que revezamos aquele que gozou na sua boca. Mas repara que em todas as nossas brincadeiras, acontecia e depois a gente brincava entre a gente. E dessa vez você queria emendar 3 interações suas com outras pessoas, sendo que eu tbm queria um pouco de você pra mim. Então entenda que o que me irritou não foi você ter essas interações, mas o fato de esquecer de mim nesses momentos.

– Desculpe mas vc não soube expor da maneira correta.

– A gente brinca direto sobre você chupar outro pau, já falamos sobre isso nas fantasias das nossas transas, se fosse algo que me incomodasse, eu não teria brincado com vc ontem quando chupou aqueles dois. Tanto que eu estava te chupando enquanto você chupava o segundo. Porém, eu fiquei com tanto tesão naquilo que queria ter prazer também e foi quando te chamei pra transar comigo, pq o meu maior prazer é interagindo com você, e ali o seu maior prazer não foi mais interagindo comigo.

– Era só ter deixado claro: amor tô com tesão nisso. Brinca comigo agora. Mas não pressionar: me come agora… me come. Eu broxei na hora e fiquei me sentindo péssimo pq 3 caras te comeram e eu não consegui. Minha masculinidade e insegurança foram lá embaixo. Eu não conseguia olhar na sua cara. 

– Você teve algum insight sobre preferir ficar só com homens a partir de agora? Gostar mais de homens do que de mim ou de outra mulher? Pode ser sincero. Não quero ser uma pedra no seu sapato, entre as suas novas descobertas.

– Não. Não sou gay. Sou viciado em mulheres. Mas sim, achei tesão chupar homens. Gostei dessa troca de energia a 3 mais próxima tipo o que aconteceu com o japa. Isso pra mim é um bom sexo, um bom ménage. 3 pessoas se pegando sem frescura e trocando energia. Sem tabu. Mas não. Isso não diminui meu desejo por mulher, não desejo gays, mas achei tesão pegar num pau e chupar. Assim como vc achou tesão chupar a buceta daquela mulher aquele dia.

– Sim, eu reconheço que poderia ter falado de outra forma. Mas você mais do que ninguém sabe que quando estamos com ciúmes não conseguimos agir com a razão.

– Por isso imediatamente eu parei tudo e conduzi pra irmos embora. Eu te conheço. Leio em seu olhar.

– Entendi. E por mim tudo bem quanto a isso. Ontem foi uma infelicidade pelo tom que falei e como você recebeu. E como pegou pra mim também. – Comecei a achar que a errada da história era eu.

– Eu me senti o pior homem do mundo. Enquanto centenas querem te comer, eu broxei quando vc me pressionou a te comer. Não conseguiria ficar na sua casa te olhando. Me senti péssimo. Lixo. Incapaz. Broxa. Julgado por ter me entregue a uma brincadeira que vc mesma me deu a liberdade e depois podou. Foi uma sensação horrível. Vim chorando a viagem toda. Me culpando por ter gostado de ter chupado um pau, me culpando por ter explorado mais minha sexualidade do seu lado. Hora, pagasse então alguém que seria neutro. Que não me julgasse. E não haveria esse tipo de sensação horrível. Hj eu acordei sabendo um pouco mais sobre mim, mas ao mesmo tempo sabendo que até mesmo as pessoas de mente mais abertas não aceitariam isso. Que é algo indigestivo principalmente quando tem amor envolvido. Entendo melhor os lances comerciais. A próxima vez que eu for na hot, será através de um lance comercial, e com tudo muito bem alinhado. Será prático e confortável.

– Você quer terminar comigo então? Pq eu jamais aceitaria você ir na hot sem mim, estando junto comigo.

– Não estou falando de ir lá sem vc. Estou falando de uma situação em que eu estaria solteiro.

– Eu não te julgo. Se eu te julgasse a gente nem faria essas brincadeiras. Te chamei pra chupar comigo e até te deixei se divertindo sozinho depois. A única coisa que pegou pra mim foi você querer interromper uma transa nossa pra interagir com uma pessoa estranha. Se você tivesse transado mais comigo ali, em algum momento nos daríamos por satisfeitos e continuaríamos a buscar mais interações com outras pessoas. Eu não fiquei puta por você ter chupado outros caras, já sabemos que vc curte isso não é de hoje e tá tudo bem. Eu desde o começo acolhi a sua bissexualidade, reconheça isso.

– Lembre bem como vc ficou me confrontando ontem. Não condiz com o que vc diz agora. Foi bem cruel.

– Eu só fiquei mal pq vc quis me deixar de lado pra fazer essas interações.

– Não, eu entendi que ali, naquele momento, vc estava me deixando livre pra brincar. Sob sua supervisão. Deixar eu no parquinho me divertir. Vc já tinha se divertido e eu tbm… e naquele momento eu estava em uma situação que era rara acontecer: um cara se deixar ser chupado. Então estava ali aproveitando aquela oportunidade. Nunca imaginei que seria uma questão pra vc.

– Mas como eu disse, eu poderia ter falado com mais jeito, que naquele momento eu queria ter um pouco só de você pra mim. Reconheço que me posicionei de uma forma ruim e deu no que deu.

– Pois é. Eu pararia tudo pra te dar atenção. E namorar só com vc. Não obstante, ficou me chamando de broxa. Não sabe como é humilhante isso.

– Eu não te chamei de broxa.

Oxe, colocando paravas na minha boca!

– Mas você ter broxado bateu pra mim que me comer não era mais interessante pra você. Que interagir com estranhos era muito mais prazeroso do que transar comigo. Você não precisava ter ido embora daquele jeito.

– Eu estava sendo atacado a todo momento. Não merecia aquilo. Achei injusto. 

– Eu estava te dizendo que vc preferia interagir com outros do que transar comigo e você em nenhum momento disse algo para tirar esse pensamento destrutivo de mim. Se você ficou mal por se sentir um broxa, eu tbm fiquei mal por me sentir sem graça pra você.

– Eu falei que não, que não era isso e vc não acreditava. Vc não acredita no que eu falo quando vc coloca algo na sua cabeça, ninguém tira. Vc insistia, insistia e insistia. 

– Você poderia ter insistido. Poderia ter tentado dizer de outra forma, quando vc coloca algo na sua cabeça eu tento te fazer mudar de ideia de mil maneiras. Você só tenta uma vez e se não der certo você vai embora e foda-se como eu estou me sentindo.

– Eu não gosto de ser confrontado quando a pessoa não está correta, quando minha forma de pensar não é igual. Não sou vc. Não sei agir como vc. Somos diferentes.

– Realmente, agimos e temos percepções diferentes da mesma situação. Mas se relacionar é um tentar se adaptar ao jeito do outro. E não ter a síndrome de Gabriela. Hoje de manhã eu busquei refletir sobre o ocorrido, tentando ver pelo seu olhar e cheguei na conclusão de que não me expressei muito bem, que talvez se eu tivesse falado com mais jeitinho, o resultado teria sido diferente. Mesmo sabendo como eu me senti indesejada, mesmo sabendo que o ocorrido tbm me afetou negativamente. Já você não costuma fazer esse exercício de se colocar um pouco no meu lugar também. E veja que se colocar no lugar do outro não é invalidar o que vc sentiu, mas tentar ver o que o outro sentiu tbm. 

– Um dia, no seu curso da faculdade, vc vai entender que situações como a de ontem causam sequelas psicológicas muito grandes. Eu tô bem mal com minha masculinidade. Marquei médico pra amanhã. Vc nunca foi indesejada. Eu apenas estava diante de uma situação rara: um cara deixar eu chupar ele. E vc estava me apoiando. E isso era a coisa mais incrível do mundo pra mim, então eu só estava aproveitando a oportunidade. Sempre que dava em outras situações ali eu interagia com vc… te chupava, te comia, te deixava a vontade. 

– Mas a questão é que vc já tinha finalizado a sua interação com o cara. Você estava querendo interromper uma interação nossa pra ter uma outra interação que poderia esperar após termos o nosso momento. Você entende como isso pegou mal pra mim? Eu pensei: “poxa ele já chupou um cara até gozar, já chupou o cara da cabine do lado até a interação estagnar naquilo, queria um pouco dele pra mim e ele preferiu interromper a nossa transa pq eu não estava mais sendo interessante pra ele.” Eu também poderia ficar com sequelas psicológicas, pensando “ele prefere chupar outro cara do que continuar transando comigo.” 

– É uma brincadeira arriscada. Sempre me envolvo em brincadeiras arriscadas por vc.

Por mim? Ou por ele mesmo?!

– Eu reconheci que falei de uma forma rude pra você continuar me comendo, mas antes mesmo de eu ter dito isso, isso não apaga o fato de que você quis interromper uma transa nossa pra chupar outro cara. Sendo que vc já tinha chupado dois na sequência.

– Já expliquei sobre isso. 

Daí eu voltei na parte da conversa que ele dizia ter marcado o médico. 

– Que médico? – Perguntei.

– Não interessa pra vc, são coisas minhas. Inseguranças minhas. 

– Não estamos mais juntos então?

– Depois de ontem acho que não neh. Eu não sou homem pra vc. Não me sinto mais homem suficiente pra vc. Depois me avise quando estiver na sua casa, vou mandar suas roupas por Uber. Você não precisa vir aqui. 

– Eu vejo a gente como um casal. E um casal vive suas crises, tem seus desentendimentos, mas depois se entende. Te deixei ir embora ontem, pq tbm estava irritada e também me senti fragilizada, por o meu namorado preferir ter outras interações masculinas do que sentir prazer me comendo. No entanto, hoje acordei de cabeça mais fria, refleti sobre o ocorrido, compreendi a minha parcela de culpa e te mandei msg pra saber se você tinha chegado bem e falei sobre fazermos uma chamada pra conversar sobre o ocorrido. Se eu achasse que vc não é homem suficiente pra mim, eu não teria esse tipo de preocupação de conversar com você. Agora se você chegou na conclusão de que não tem mais tesão em mim pq curtiu demais as interações masculinas de ontem, que você quer experimentar um novo modelo de relacionamento, então fale por você e não jogando nas minhas costas algo que em nenhum momento foi dito por mim.

– Vc já parou pra pensar o tamanho da responsabilidade sexual que é pra um homem ter vc? Vc é uma mulher muito desejada, linda, todos os homens te querem. É uma baita responsabilidade te satisfazer. E sinto que não consigo dar conta disso. Ontem isso ficou bem claro, vc me pedindo pra te comer, mandando e eu pressionado, não conseguia. Eu nunca disse que perdi o tesão em você.

– Assim como eu tbm nunca disse que queria terminar ou que você não é homem pra mim.

– Mais uma vez vc distorcendo tudo, enquanto eu tô te fazendo um baita elogio. 

– De que valem esses elogios se você está desistindo? O elogio se torna um fardo.

– Não tô desistindo. Fardo é não ser homem suficiente pra vc. 

– Você me dizendo essas coisas parece a minha amiga terminando com o namorado dela dizendo que ele é um cara incrível, mas que o problema era ela e não ele, quando na vdd ela já tava cagando pro cara e só não queria admitir que já tava a fim de outra pessoa. Então por favor, seja sincero comigo.

– Serei. 

– Você disse que teve insights enormes sobre você, que está repensando a sua masculinidade e até marcou médico (que vc não quer abrir pra mim qual especialidade) pra falar sobre isso. Então se vc não quer mais ficar comigo pq descobriu que ter outro modelo de relacionamento fará mais sentido pra você, não vem com esse papo de que eu sou incrível e bla bla bla, e me fala a verdade nua e crua. Pq senão eu vou ficar igual uma idiota aqui tentando fazer você mudar de ideia, quando na verdade nem é isso que vc quer mais de mim.

– São vários pontos. Ontem eu descobri algo novo sobre mim. E vc quem me deu liberdade pra isso. Descobri que sinto sim tesão em chupar pau. Mas isso não invalida em momento algum o que sinto por mulheres. Sou viciado em mulheres. Sou viciado em vc. Adoro buceta muito mais que pau. É só um brinquedo novo. Não tenho tesão em gays. Não teria um relacionamento homoafetivo. Não sairia com um cara sozinho

Gravem bem essas frases em negrito para a Parte 13.

– E só faria essas brincadeiras com uma pessoa de confiança (vc) ou com alguém que eu pagasse pra ir na HotBar comigo. – Ele continuou. – O outro ponto é que vc é muito desejada por todos e isso por si só me coloca uma pressão diária. Desde que eu comecei a sair com vc eu sempre penso que nunca sou bom o suficiente pra vc. Já levei isso várias vezes na terapia. Vivo querendo melhorar meu pau pra vc. Isso é insegurança minha. Por querer ser melhor pra vc, ser bom o suficiente, pra vc não me trocar por outro. Homens também são inseguros. Terceiro ponto: se tem algo que afeta o homem, é o psicológico. Ontem quando vc ordena que eu te coma e quando eu tento começar e vc muda a cara e continua ordenando, imediatamente eu broxo. Naquele momento vem em minha mente: “eu não posso falhar agora, 3 acabaram de comer ela gostoso, eu não posso falhar”. Pronto, é a receita perfeita pra eu falhar. Psicológico é tudo. E vc interpreta isso da maneira mais errada possível.

– Você quer terminar? É isso que você quer? Seja honesto comigo, por favor.

– Pq vc acha que eu quero terminar? Pq agora vc acha que eu gosto mais de pau do que vc? Vc cagou pra tudo que eu disse acima.

– Pq eu te mando msg em busca de nos entendermos e você vem com esse discurso de não ser homem pra mim.

– Te dei uma aula sobre como me sinto. Estou fragilizado. E sim, não me sinto o suficiente pra vc.

– Eu também me senti fragilizada ontem. E em nenhum momento eu cogitei rompermos o que temos. Eu pensei “ok, brigamos, ele foi embora, mas depois nos entendemos”. E você já acha que tudo é o fim da relação.

– Vc não entende a importância de tudo que estou te entregando aqui. Da sinceridade que estou te entregando.

– Eu tô sempre repetindo pra você o quanto eu sou doida por você. O quanto eu adoro dar pra você, o quanto eu amo o seu pau assim, que vc não precisa mexer em nada. O que mais eu posso fazer pra você ter confiança no que sinto por você? Ontem eu me senti zero desejada por ti e mesmo assim eu não pensei em abandonar a nossa relação.

– Eu não deixo de desejar vc um minuto sequer. Mas vc pensou isso. Eu falhei em algo. Talvez estivesse muito empolgado com meu brinquedo novo. Estava tão bom na primeira interação, vc brincando junto, sem ciúmes. Me senti tão livre e acolhido por vc.

– Entendi que a minha pressão bateu errado em você, assim como você querer interromper a nossa transa bateu errado pra mim. Foi uma situação infeliz, ok, acontece. Qual o nosso papel como casal a partir disso? Conversarmos, entender o que cada um sentiu, fazermos ajustes e seguir com a relação. Quando qualquer coisa te faz querer desistir da gente, novamente me vejo naquele cenário de incerteza, em que qualquer briga você vai terminar comigo.

– Não quero desistir da gente. Só me senti um horror e não queria ficar por perto. Me senti pressionado, acuado, acusado. Me senti muito mal tbm. Broxa, insuficiente. Eu só conseguia lembrar das dezenas de cara que desejariam te comer e eu não consegui pq meu psicológico foi afetado. Sexualmente falando, nunca me senti tão mal na minha vida. Não quero passar por uma situação onde eu mesmo me coloco em humilhação, jamais na vida.

– Então não fica trazendo pra conversa esses discursos derrotistas que vc não é homem o suficiente pra mim, pq se eu não acho isso, você tbm não tem que achar. Em nenhum momento te acusei por não ter me comido, pelo contrário, eu que fiquei me sentindo não gostosa o suficiente pra você.

– Mas ficou se sentindo assim justamente pq eu não consegui te comer, uma coisa puxa a outra.

– Eu fiquei sentindo isso pq você quis INTERROMPER a nossa transa pra interagir com outras pessoas. Ali eu pensei “eu não sou importante pra ele”, pq ele prefere dar prazer pra outras pessoas, vai sentir mais tesão com outras pessoas, do que comigo. Você ter broxado, eu entendi que foi pela forma rude que eu falei. Ninguém executa nenhuma tarefa bem na base da ignorância. Eu sei que falei grossa. Por isso repensei hoje de manhã que se eu tivesse falado com mais carinho, o resultado teria sido diferente.

– Eu jamais trocaria vc por outra pessoa ou casal.

–  Mas você quis fazer isso ontem quando quis parar a nossa transa pra interagir com as pessoas na porta. 

– Nós estávamos ali o tempo todo buscando um casal legal. Aí eu virei pra trás e vi um casal bonito, pensei: achamos… e fui lá chamar eles… mas aí vc entendeu tudo errado. Vc achou que eu estava trocando vc por eles e não era isso. 

– Sim. Entende que ambos tiveram percepções ruins e diferentes da situação? O que estamos fazendo agora é conversar sobre o ocorrido pra ajustar e entender o que o outro sentiu. É isso que casais fazem. Esse seu lance de brigou vem buscar suas coisas, não demonstra muita importância da nossa relação pra você. Pq qualquer briga você já quer decretar o fim. Se terminar não é algo que vc quer de fato, então não conduza a conversa por esse caminho. Opte pelo mesmo caminho que eu tento conduzir: o da reconciliação. Senão eu vou achar que de fato você quer terminar.

– Então pare de me agredir. Ontem o que eu recebi foram só agressões. E eu tentando me defender. 

– Hoje eu entendo que o que te confrontei, soou pra você como um ataque por você ter broxado, quando pra mim eu só estava querendo puxar de você uma declaração concreta de que vc ainda tinha tesão por mim. E repito, não achei que vc não tinha mais tesão em mim por ter broxado, eu, mais do que ngm, sei que os homens podem broxar, mesmo com muito tesão na pessoa, pq é algo psicológico e não necessariamente físico. O que me fez ter esse pensamento foi você interromper a nossa transa. Por você preferir interagir com outras pessoas. E hoje vejo que não foi com esse olhar que vc quis interromper.

– Nunca duvide disso. Eu declaro isso toda hora. A todo momento. Só te entrego elogios. 

– Peço desculpas da forma como falei com você ontem. Não é pq vc é meu namorado que vc é obrigado a me comer, eu poderia ter falado de uma forma mais amorosa. E tbm não quis te atacar por ter broxado. Sei o quanto isso pega mal pros homens. 

– Peço desculpas por qualquer coisa que possa ter te deixado mal. E por ter saído daquela forma da sua casa, mas eu estava me sentindo agredido. 

Enfim, não vou mais me alongar nesse diálogo. Nos entendemos. 

Isso foi num domingo.

NOVA BRIGA

Reiniciando a semana, ele retomou com aquele padrão de caçar briga quando estamos separados. Já na segunda mesmo, última semana de setembro:

– Quando vc chegar na sua casa, me avisa? Quero falar com vc. Só me dá uma previsão de horário que estará lá por favor. Pra eu me organizar. – Ele disse.

– Aconteceu alguma coisa?

– Sim.

– O que? – Eu, sem entender nada. 

– Nos falamos quando você puder. 

Eu estava numa lanchonete com a Manu, após atendermos um cliente juntas. Eu tinha compartilhado com ele um vídeo do lugar, que era todo cor de rosa, e aí ele veio com essas mensagens acima. 

– Hoje vai ser complicado falar por ligação, pq daqui vou pra aula e da aula vou ter cliente.

– Vá trabalhar. Depois falamos.

– Se puder adiantar o assunto, eu ficaria mais tranquila.

– Vamos terminar.

– Oi?

– Só quero falar isso por vídeo se vc preferir. 

– Falamos amanhã então, não tô a fim de estragar meu dia. Parece que vc sente prazer em não me ver bem.

Gente, qual a necessidade disso? Ele conseguiu estragar até o meu rolê com a minha amiga. 

– Eu tô mandando suas roupas por Uber. 

Reagi só com joinha.

Vendo que eu não me afetei, dois minutos depois tentou me desestruturar novamente:

– Vc sabe que o que vc fez hoje foi ridículo. 

– Eu não sei do que vc tá falando. 

– Sabe sim.

– Não, não sou adivinha. 

– Olha sua atitude de hj. Sumiu. Não falou nada. Não quero mais isso pra minha vida. 

*

Ele se queixava porque nossa última interação tinha sido quatro horas atrás e quando eu ressurgi, já foi mandando o vídeo do lugar onde eu estava. Que ele respondeu com um mero ponto de interrogação.

– Estou te mostrando o lugar que vim com a minha amiga. Todo cor de rosa. 

– Foi com sua amiga? Eu pensando que estava trabalhando. Obrigado por avisar. 

E aí na sequência ele veio com aquele diálogo do início, querendo terminar. 

*

– Nos falamos aqui. – Daí trouxe o print da nossa última interação, quatro horas antes. – Que vc ainda demorou 1h pra me responder. Depois disso você TAMBÉM não falou mais nada. As interações precisam partir de ambos os lados, não só de um. Ainda vim aqui compartilhar onde estou e você, ao invés de ficar feliz por mim, que estou vivendo um pouco, vem me atacar com essa possessividade desnecessária. Você sabe que estou com a minha amiga papeando e sente prazer de interferir pra estragar o meu dia. Não pode simplesmente ficar feliz por eu estar fazendo algo diferente.

– 5 horas depois vc aparece. – Ainda aumentou uma hora. – E eu achando que vc estava trabalhando, angustiado. E vc nem teve a coragem de me falar que ia sair pra passear. Vejo que vc não está preparada pra ter um relacionamento, dar satisfação. Custava ter me avisado?

– Sim eu estava trabalhando. Te falei que tinha um atendimento com ela. E depois viemos comer algo e fofocar. Qual o problema nisso? Você me trata como se eu tivesse te traindo com alguém. Que ridículo. Ao menos eu apareci, né. Você acha que só vc é ocupado. Eu te mandei vídeo da onde eu estava. Eu tenho que te pedir autorização de todos os meus passos antes de fazê-los? Esse seu comportamento é doentio. 

– Ok. Segue sua vida. Vou seguir a minha. 

E daí já sumiu a foto dele. 

– Tô vendo que já apagou meu contato e me removeu do Instagram. Então você nem vai esperar pela chamada, já terminou por mensagem mesmo?

– Te avisei. Você pediu pra eu adiantar o assunto. Hoje vc me excluiu completamente da sua vida. Fiquei bem mal, não quero mais passar por essa situação. Sabemos que já é muito difícil pra mim aceitar seu trabalho, que não consigo aceitar vc trabalhando, e quando ocorre esses sumiços seus, sem dar satisfação, me vem os gatilhos que desencadeiam sensações horríveis, que não desejo para ninguém. Por mais que eu goste de vc, quando vc some, sinto coisas horríveis. Vc prometeu pra mim que manteria contato mesmo quando fosse trabalhar e hj não cumpriu isso. Mais uma vez escondendo coisas, omitindo. Assim como vc não consegue confiar em mim, não consigo confiar em vc. Vive uma vida muito diferente da minha. Por mais que eu tenha tentado me adaptar, não consegui. E lutei muito por isso. Eu realmente espero que vc consiga sair dessa vida e achar alguém que vc ame de verdade e que faça valer a pena, ou então um cliente que aceite isso numa boa. Eu me machuco muito com tudo isso. Estou exausto. Não consigo mais. Hoje foi o fim da linha. Eu esperando contato seu, vc trabalhando, com sua amiga sem falar nada. Podia pelo menos ter comentado, mas preferiu omitir, como sempre. É mais fácil pra vc omitir do que falar, do que dar atenção. Vou seguir minha vida e desejo tudo de melhor pra vc. E eu realmente desejo que vc saia dessa vida o quanto antes. Sofri muito muito hj. Não aguento mais isso. Quero um amor que me traga paz e acho que sou merecedor disso. O seu trabalho e o que vc faz me machuca muito por gostar muito de vc. E isso só me machuca. Quero poder sentir paz no meu coração. Vai ser muito difícil agora no começo, mas vai passar, vou me recuperar. E tenho certeza que será menor do que essa angústia diária que eu vivo.  Hj vc tem dois clientes, não me falou de nenhum deles. Não deu a mínima para a pessoa que fala que te ama. Isso não é se importar. Às vezes vc esquece disso. Da minha insegurança. De que o que vc faz não é algo trivial pra mim. Espero que Deus te ilumine muito. Não sou homem suficiente pra te bancar nem financeiramente, nem sexualmente. Se eu tivesse grana vc não estaria nenhum dia a mais nesse trabalho.

E lá vamos nós! 

Eu, na minha aula de dublagem, que nem pode entrar com celular, fiquei disfarçadamente redigindo mensagem pra ele. Nem consegui prestar atenção na aula.

– Vamos olhar para o dia de hoje como um todo? Você acordou e sequer me deu bom dia. Puxei assunto com pela manhã, sobre a minha prova e você levou meia hora pra me responder, até perguntei se vc tinha ido trabalhar, pq sabendo que vc está sempre conectado, achei que estivesse dormindo, pra ter demorado tanto, e você disse que sim, que tinha acordado cedo, levou o carro pra revisão e foi trabalhar. Na hora eu pensei, “poxa, ele acordou cedo, não me mandou um bom dia, e quando eu puxo assunto, ainda levou meia hora pra me responder.” Te mandei várias coisas aleatórias durante o almoço, você levou mais de 1h pra me responder e ainda foi super sucinto nas respostas. Demonstrando zero empolgação pra interagir comigo. Fui fazer as minhas coisas e deixei vc fazendo as suas. Pensei: “quando ele quiser interagir comigo, vai me mandar msg.” Isso não aconteceu. Quando saí do encontro e fomos comer em algum lugar, quebrei o silêncio e fui compartilhar com você onde estava, super empolgada pela estética do lugar, que era todo rosa. Fui recebida com ataques, como se eu tivesse fazendo alguma coisa errada. Totalmente desproporcional com o momento. Eu já tinha comentado com você, no fim de semana, que teria esse atendimento com ela, quando estávamos falando sobre as mensagens do celular da Sara, mas como sempre, você nunca lembra das coisas e vem me acusar de estar te escondendo algo, sendo que o meu trabalho não é nenhuma novidade pra você. Você também disse, no fim de semana, que ia me deixar livre pra fazer o meu trabalho. Me deixar livre, entendo que não preciso ficar te reportando toda a minha agenda. Você diz as coisas e depois cai em contradição nas suas próprias sentenças. Você diz que eu não estou pronta pra ter um relacionamento, mas é você que tem uma ideia errada do que é se relacionar. Se relacionar é respeitar os afazeres do outro, sem qualquer retaliação por isso. Hoje, todas as vezes que interagimos, foi por iniciativa MINHA. Você quer que o meu dia seja em torno de você o tempo inteiro. Você não compartilha comigo NADA do seu dia. Você me exige algo, que você mesmo não faz.Também já estou cansada dos seus ataques e acusações. Estou cansada dessa infantilidade, qualquer chateação sua, você age de forma impulsiva, quer terminar, apaga meu contato, me exclui do Instagram, você não me dá segurança NENHUMA pra ir morar com você. Se eu tendo a minha independência você já me trata assim, imagina quando eu tiver morando debaixo do seu teto, dependente de você?

– Vc sabe muito bem o que causa todo esse meu comportamento. Com meus ex relacionamentos não existia isso. Vc sabe muito bem o motivo de estarmos terminando. Se vc morasse comigo, não estaria trabalhando. E esse tipo de situação não aconteceria.

– Essa discussão não vai levar em lugar nenhum. Ok. Segue seu caminho em busca de um relacionamento normal. Preciso de paz também.

– Só levaria a algum lugar se vc parasse de trabalhar com essa merda. Eu não aguento mais sofrer por isso.

– Estamos brigando não é pelo meu trabalho, é pela sua possessão e intolerância. Se eu trabalhasse com qualquer outra coisa, você ia se incomodar com as minhas ausências do mesmo jeito. O seu comportamento é só uma amostra do todo.

– Jamais. Pessoas trabalham. Eu não sou possessivo. Vc nunca vai olhar pra seu trabalho como deveria. Sempre vai romantizar como se fosse algo normal e que as pessoas devessem aceitar. Eu juro que queria muito ser rico pra falar que a partir de amanhã vc não trabalharia mais com isso. É muito difícil abrir mão de quem se ama por não suportar situações. Eu jamais pensei em passar por isso.

– Você é extremamente ciumento. Não posso ter um momento de descontração numa cafeteria com a minha amiga que vc já vem me atacar por eu ter ficado horas ausente. Você quer me controlar o tempo inteiro. Ao invés de valorizar eu ter te mandado msg, você me atacou pelo tempo que não mandei. Vc não sabe olhar pras coisas boas. Isso me faz disparar um alerta enorme de ir morar com você. O tanto que vc me controlaria.

– Não é o problema de vc estar descontraindo, é eu estar aflito enquanto isso acontecia e vc sequer me falou. Se tivesse falado eu estaria de boa… te incentivando. Nunca foi sobre controle, sempre foi sobre me sentir mal com seu trabalho. Vc estava com sua amiga justamente pra atender junto com ela. Trabalhar nesse trabalho que vc tanto vangloria. 

– Não se preocupe. Não precisará mais passar por isso daqui pra frente. Vai lá comentar numa foto da Bruna, igual vc fez dia 17 de agosto e quem sabe retoma o contato? Melhor e mais tranquilo, você retomar um relacionamento normal. Meu trabalho é esse, é o que paga as minhas contas no momento e se isso é demais pra você, mesmo quando já tínhamos planejado algo futuro, melhor você parar de se mutilar mesmo. Também estou sofrendo, a minha proporção, com todos esses estresses e desgastes. E para de jogar as coisas nas minhas costas. Você não cansa desse vitimismo não? Se vc tava tão mal assim, era só ter me mandado mensagem e perguntado o que eu tava fazendo. Seu dedo não iria cair. Tô cansada de ser sempre EU a ter que fazer as coisas.

– Você ama o que faz. Ama que te desejem. Mesmo que seja velhos babão. Por isso vc romantiza seu trabalho. E quando eu critico vc fala que é pq eu sou possessivo.

– Ok. Já estou exausta de discutir com vc. Depois manda minhas coisas pelo Uber. Farei o mesmo com as suas coisas que estão lá em casa.

– Não vou mandar. Juro que me arrependo do dia que te conheci. Do dia que me apaixonei por vc.

– Você não disse lá em cima que ia mandar?

– Não vou mais.

– Vai jogar minhas coisas fora?

– Não sou sem escrúpulos, posso estar nervoso agora, falando merdas, mas não faria isso. Mandarei suas coisas. Só preciso me acalmar mais pra conseguir tirar elas do guarda-roupa. É um sonho sendo destruído.

– Ok. Manda quando quiser. Vou tentar prestar atenção na aula.

– Boa aula. Bom trabalho. Divirta-se. 

Mas você pensa que acabou aí? Não. Essa discussão se estendeu até o dia seguinte, mas como é só mais do mesmo, vou poupá-los deste desgaste cansativo. 

Dois dias depois, enquanto víamos hospedagens para passarmos o réveillon juntos, tivemos uma briga definitiva. Impressionante como uma conversa leve e gostosa, fazendo planos para uma data tão especial, descambou em algo negativo e pesado. 

Ele possuía uma habilidade sombria de azedar tudo. 

 

“O Intenso” – Parte 11

O Grande Mentiroso

– Bruxaaaaaaaa!!

– Eu bruxa? Como assim? Kkkkk.

– Amiga, já reparei isso em você. Com certeza você é! – Dizia meu amigo, Denis, cheio de convicção, enquanto eu narrava mais uma das presepadas do Intenso.

E de tanto ele falar, comecei a achar que talvez eu fosse mesmo, já que as verdades caíam no meu colo feito mágica, como um presente do universo, me dizendo: “Ei, acorda pra vida! Desperte desse feitiço, quem enfeitiça aqui é você!”

Por mais que a sua manipulação estivesse evidente, eu permanecia cega de amor, muito apaixonada, porém, mesmo “cega”, houve situações em que esse véu sofreu singelos rasgos.

A primeira situação ocorreu aquela vez, quando descobri ele conversando com a tal Maristela, narrado na Parte 8. A segunda, enquanto ele dormia ao meu lado, na minha cama, numa tarde de domingo.

SEGUNDA MENTIRA

Seu celular apitou de mensagem. Bati o olho na tela para ver se era algo de trabalho, já que para alguns clientes ele precisava estar sempre online, independente do dia ou horário. Então se fosse algum nome de empresa, eu o acordaria.

Apareceu na tela o nome: “Dr. Rafael”. Pensei: “Nossa será que ele tá com algum problema de saúde? Por que um médico entraria em contato em pleno domingo à tarde?” Lembrando que eu ainda tinha a senha do celular dele, mas não vi aquela notificação como uma ameaça, só fiquei curiosa para perguntar depois, se ele estava com algum problema médico ou planejando fazer algum procedimento. – Ele vivia falando sobre aumentar o tamanho do pênis (que já era grande), ou deixar o pau com uma consistência mais rígida (que eu também falei que não precisava, pois pau duro igual pedra machuca, gostava que o dele tivesse uma consistência mais macia), ou até mesmo fazer a cirurgia para remoção daquela pele. Me passou pela cabeça que a mensagem pudesse ter alguma relação com coisas desse tipo. 

Nesse dia ele estava muito dorminhoco, dormiu praticamente o dia inteiro, teve uma hora que até preparei um café da manhã, no intuito de despertá-lo de uma forma gentil, que ele rudemente recusou e voltou a dormir. Achei bem  grosseiro, na verdade. Tomei meu café da manhã sozinha e depois voltei a deitar com ele, também sou dorminhoca e de buchinho cheio bateu aquele soninho novamente. 

Mais tarde, quando ele começou a despertar, transamos, e ali, naquele momento de descontração pós sexo, lembrei da tal notificação. 

– Quem é Dr. Rafael? – Perguntei despretensiosamente, apenas curiosa. 

– Como assim?

– Um tal de Dr. Rafael te mandou mensagem. Quem é?

– Você mexeu no meu celular?

– Não mexi, só vi a notificação na tela e agora estou te perguntando. 

– Você mexeu no meu celular! – Em tom acusador e ali meu alerta acendeu. 

Diante da resistência dele em responder uma pergunta simples, a resposta já não me supriria mais, agora eu queria ver a mensagem com os meus próprios olhos!

– Quero ver a mensagem que ele te mandou! – Exigi. 

– Você já viu no meu celular! – Novamente me acusando, não atribuindo a minha desconfiança a sua própria postura, que levantava suspeitas.

Aquela coisa né, quem não deve, não teme. Ele temia, porque devia. 

– Eu já falei que não mexi! Você acha que se eu tivesse mexido teria essa frieza de preparar o café da manhã e ainda transar com você?! O que é que tem essa pessoa?! 

Comecei a me alterar também, pois a relutância dele em responder uma simples pergunta, me confirmava que alguma coisa tinha!

Quando eu li a mensagem…

Gente…

Sério…

… mais uma vez ele conseguiu me surpreender!

Era um textão, não me recordo de tudo que estava escrito, só lembro das partes mais marcantes:

“Espero não estar sendo inconveniente…” “Penso muito naquela noite, no seu apartamento…” “Fico lembrando do seu gemido…” “Toda vez que estou com uma mulher de quatro, fico imaginando que é você…”

C A R A L H O

Que mensagem homossexual era aquela?!

– Que porra é essa?! – Perguntei e na mesma hora ele tomou o celular da minha mão.

– Que mensagem é essa?! – Repeti a pergunta, enquanto ele continuava mudo, provavelmente tentando estruturar qual mentira me contaria. 

– Anda, responde!! – Eu não queria dar tempo pra ele pensar em nada, mas continuava calado, com seu cérebro fritando em busca de uma rápida justificativa plausível.

Daí ele se fez de ofendido com a minha pergunta e se levantou da cama, com movimentos rápidos, começando a arrumar suas coisas para ir embora. Uma estratégia astuta para tirar o foco da minha pergunta, enquanto ele ganhava tempo para pensar em algo. Quando ele estava prestes a sair pela porta, fiz uma última inquisição:

– Sério que você prefere ir embora do que me contar a verdade?

– Você não está me deixando falar. 

Oi??? Como eu não estava o deixando falar, se justamente lhe exigia uma resposta?! Até nisso ele manipulava!

– Só está me pressionando, toda julgadora.

– Te pressionando? Eu só quero a verdade! 

– A gente fez um ménage com outra mulher.

– Não, isso não tá com cara de ménage, e sim algo só entre vocês dois! 

– Tá vendo? Você não quer ouvir o que eu tenho a dizer. Já está fazendo conjecturas a meu respeito.

– Não estou fazendo conjecturas, estou trabalhando com as provas que tenho, vamos reler a mensagem juntos?

– Mas não era, tinha uma mulher junto. 

– Ele disse que ficou pensando no seu gemido!

– Você sabe os barulhos que eu faço quando tô gozando, ele tá se referindo a isso.

– E ele disse que foi no seu apartamento! Você me disse que nunca levou nenhum rolinho pra dentro da sua casa!

– Era o apartamento do Ciclano. – Mentindo sobre a época em que ele morou de favor com aquele casal que eu conheci, quando ele se mudou pra Campinas, sem muitos recursos. 

Na hora até engoli essa história de não ter sido no apartamento dele, mas em outro conflito futuro, me dei conta que era mentira, pois ele era polido demais pra fazer esse tipo de baguncinha no apartamento de outra pessoa. E futuramente ele confessou que tinha mentido nessa parte mesmo (não só nessa, né meus amores?), por não querer piorar a situação naquele momento. 

*

Sempre que ele mentia pra mim, outras situações linkavam na minha cabeça, como quando uma vez ele me disse que sua diarista tinha falado “A ‘Maria’ veio aqui no fim de semana, né?”, quando ela “achou” uma xuxinha minha, sendo que semanas depois, quando calhou de eu conhecê-la, – numa noite em que ela precisou me receber por ele estar no barbeiro -, conversando com ela, me dei conta que até aquele momento ela sequer sabia da minha existência, logo, como ela poderia ter comentado com ele, sobre a minha xuxinha perdida?

– Mas não fala pra ele não, por favor. – Ela me pediu discrição, ao constatarmos juntas a mentira. 

– Claro, fique tranquila. 

Tinha sido uma mentirinha boba, que naquele momento interpretei como uma tentativa de me dar uma certa importância, me fazendo sentir mais especial, quando agora, diante dos novos fatos, vejo como tinha sido só mais uma de suas manipulações perversas. 

*

Mas voltando a história do Dr. Rafael, segundo o que me contou, era um ‘conhecido’ que fez ménage uma única vez, e que sempre esse Dr. lhe enviava mensagem tentando ajeitar outro ménage com mulheres do seu trabalho.

– Onde vocês se conheceram?

– No sexlog. – Para quem não sabe, é um site/rede social de putaria, onde pessoas se conectam para viver “aventuras sexuais”. – Conheci esse Rafael através de lá, fizemos amizade e aí ele ajeitou esse ménage pra gente. Mas eu percebi um comportamento dele estranho comigo, por isso mesmo que não saímos mais e ele tá sempre insistindo. 

– Quando foi isso?

– Sete anos atrás. 

Nesse momento eu ri. Ele realmente subestimava a minha inteligência.

– Para vai, ele não ia tá no seu pé até hoje de algo que aconteceu sete anos atrás!

– Mas foi isso mesmo!

– Deixa eu ver uma coisa no seu celular.

Ele me passou o aparelho, voltei na conversa deles e voltei até o início. Aquilo tinha se iniciado em 2024.

– Ué cadê as conversas de 7 anos atrás? 

– Eu apaguei né, não era uma pessoa que eu tinha interesse de ficar mantendo a conversa. – Manter a conversa ou provas contra si mesmo?

Comecei a ler tudo desde o ano passado e algumas coisas encaixaram com o que ele disse. Esse Dr. Rafael sempre tentava um novo encontro, falando de alguma enfermeira gostosa que tinha entrado no seu trabalho e muitas vezes até cobrando uma atenção do Intenso, com frases como: “Dá uma atenção pro seu amigo aqui” ou “Você anda muito ocupado hein”. Fora as várias mensagens em que ficou no vácuo ou respondido de forma genérica, sem muita empolgação por parte do Intenso. 

– Porque você ainda mantém contato com ele, se não é uma pessoa que vc gostaria de sair de novo?

– Só porque ele é médico, vai que em algum momento eu precise de alguma coisa dele?

Enfim, eu acreditei nele. Acreditei desconfiando, algumas justificativas batiam com o que vi nas mensagens, mas é claro que achei estranho alguém insistir tanto em algo que tinha acontecido tantos anos atrás, duvidava que aquilo estivesse tão no passado assim. Mas relevei, se ele mentia sobre o tempo, imaginei que fosse por sentir alguma vergonha e apesar dos seus traços bissexuais que, aos poucos, foi me trazendo, eu tinha mais ciúmes de mulher do que de homem. Percebi que não me senti tão mal como quando descobri dele conversando com aquela menina, ou também eu que já estivesse ficando mais calejada. 

– Eu quero que você bloqueei esse cara e apague o contato dele. – Ordenei.

– Farei agora mesmo.

– Mas antes quero que você responda, dizendo que foi inconveniente sim, pois A SUA NAMORADA viu e não gostou.

Ele fez na minha frente, sem pestanejar. Disse ao cara que eu tinha visto, que interpretei da pior maneira possível, não entendendo que tinha uma mulher com eles e pediu para nunca mais ser incomodado. O tal Dr. só respondeu com “desculpe”, e na sequência já foi bloqueado e deletado. 

Hoje me arrependo um pouco dessa postura, poderia tê-lo feito levar a conversa adiante, pra ver o que mais eu descobriria daquela noite deles, mas na hora nem me ocorreu seguir por essa linha investigativa, eu só queria cortar o mal pela raiz. 

O Intenso ficou extremamente sem graça pelo ocorrido, me pedindo desculpas pelo desenrolar da situação, mas procurei tranquilizá-lo, dizendo que estava tudo bem, afinal, se eu tinha escolhido acreditar na história dele, não tinha porque continuar naquele clima. 

TERCEIRA MENTIRA

Agora corta para a terceira situação, novamente envolvendo um homem, não sei quantos dias, semanas ou meses depois.

Estávamos na sua casa, finalizando um jantar fitness com muita salada, que ele gostosamente preparou pra gente, quando entrou no assunto sobre como era bom ter essas liberdades comigo, de ser quem ele era (bissexual), sem máscaras, trazendo até meus clientes como exemplo, sobre eles não terem essa cumplicidade com suas esposas e por isso buscarem os meus serviços. 

Daí trouxe também como exemplo um outro ‘amigo’, um tal de Marcelo – outra amizade advinda do sexlog – que por acaso ele estava combinando de tomar um café, para finalmente se conhecerem, na sexta-feira daquela próxima semana, em que ele estaria na minha casa e iria aproveitar enquanto eu estivesse na faculdade, pela manhã, para encontrar esse tal amigo. Cujo encontro ele já tinha pedido a minha autorização, me trazendo seu interesse de “pura amizade”. Quando ele tocou no nome desse Marcelo, minha bruxaria foi ativada e lembrei de uma vez que ele me contou de um cara que era anestesista no Einstein, que ele desconfiava curtir homens, por já ter dado em cima dele.

– Esse não é aquele cara que você me falou uma vez, que dava em cima de você?

– Não lembro de ter te falado isso. Acho que não.

– Deixa eu ver o Instagram dele. 

Comecei a zapear as fotos e me recordei com mais clareza, pois esse cara tinha uma foto com seu filho, este de cabelo verde, e aquele cabelo verde da criança foi bem marcante pra mim.

– É ele mesmo! Lembro desse cabelo verde! Você tinha me falado que ele ficava tentando te chamar pra tomar um café, sempre que você estava em São Paulo, e que você desconfiava dele ser bi. 

O Intenso continuou se fazendo de sonso, o que imediatamente fez o meu alerta disparar mais uma vez!

Fui para as conversas deles na DM e só tinha uma interação recente no story. Ou seja, ele tinha apagado as conversas anteriores e se apagou era pra esconder algo! 

– Vocês conversam pelo WhatsApp? – Questionei.

– Não, nem tenho ele no WhatsApp. 

– Deixa eu ver. – Nisso ele já tomou o celular da minha mão novamente. 

– Entra nas conversas do WhatsApp e busca pelo nome dele. – Exigi, já em pé do lado dele. 

Ele o fez, repetindo que não tinha ele no WhatsApp. Quando escreveu “Marcelo”, apareceram alguns, mas fui certeira em um que estava muito com cara de fake, “Marcelo SP” e a foto de um pôr do sol.

– Clica nesse pra eu ver. 

Batata! Era o dito cujo. Comecei a ler e conforme eu me exaltava com o que lia, o Intenso novamente tomou o celular da minha mão, não me deixando continuar investigando.

– POR QUE VOCÊ MENTE PRA MIM?! – Comecei a chorar de desgosto.

Outra mentira.

Outra decepção.

– Não estou mentindo.

– PARA DE ME TRATAR COMO IDIOTA! Está tudo aí, você sabe que tá!! QUERO QUE ME RESPONDA POR QUE VOCÊ MENTE PRA MIM?! 

Fiquei repetindo inúmeras vezes essa pergunta, sem nenhuma resposta. Ele se comportou igual quando eu li as conversas do Dr. Rafael: se calou, igual um réu que fica em silêncio pois qualquer coisa dita pode e será usado contra ele. 

Cara, eu era tão de boa com a bissexualidade dele, falávamos putaria durante o sexo, envolvendo outros caras, já combinávamos sobre fazer ménage com um outro amigo dele, já tínhamos feito brincadeiras com o cu dele, não tinha razões para esconder algo de mim. Quando rolou aquele lance com a Maristela, ainda perguntei se ele queria abrir a relação, e ele reforçou que não, que se completava com uma pessoa só, que tinha sido uma situação isolada. Por que mentia, então?!

– POR QUE VOCÊ MENTE PRA MIM?! – Repetia completamente histérica.

– Não vou te responder enquanto você estiver nesse estado alterada. 

– EU SÓ VOU ME ACALMAR QUANDO VOCÊ ME RESPONDER! POR QUE FICOU SE FAZENDO DE DESENTENDIDO, FINGINDO NÃO LEMBRAR QUE ERA O CARA E MENTINDO QUE NÃO TINHAM CONVERSAS NO WHATSAPP?? E POR QUE IA ENCONTRAR ESSE CARA, SABENDO QUE ELE ESTÁ A FIM DE VOCÊ?!

– Dá pra você falar baixo?

– TÁ COM MEDO DOS SEUS VIZINHOS OUVIREM QUE VOCÊ É BISSEXUAL?! – Baixou a barraqueira em mim. Incrível como algumas pessoas conseguem despertar o nosso pior.

– Não sabe ter uma conversa sem se alterar? 

– E VOCÊ NÃO SABE TER UMA CONVERSA SEM MENTIR?!

– Dá pra falar baixo? Você está na minha casa! 

Isso foi um soco no meu estômago. 

– Ahhh sua casa?! – Ironizei. – A casa que iríamos “morar juntos”, agora é a “SUA casa?” – Continuei com desdém.

Daí ele se levantou e veio pra bem perto de mim, falando colado na minha cara, num tom ameaçador, como se quisesse me botar medo.

– Você é barraqueira então? Não sabe falar baixo?

Naquele momento fiquei com a sensação de que se eu empurrasse ele, partiríamos para uma agressão física. 

– Está chegando perto de mim, por quê?!  – Rebati sem demonstrar intimidação, no entanto, dando dois passos pra trás. 

– Olha como você sabe falar baixo. É tão difícil assim?

– SE VOCÊ NÃO ME RESPONDER EU VOU EMBORA.

– Então pode ir. – Estupidamente calmo e tranquilo, sem qualquer resquício de culpa.

Fui imediatamente para o quarto, arrumar as minhas coisas. Porém, temos um agravante aqui, nesse final de semana em específico, eu tinha levado uma mala enorme de 32kg cheia de roupas pra lá. Como estávamos avançando nos planos de morarmos juntos em janeiro, eu tinha começado a levar algumas roupas, até para testar se caberia, pois suspeitava que o espaço seria pequeno, mesmo ele insistindo que daria. Então eu abri a minha mala e quando olhei para todas aquelas roupas, já acomodadas no guarda-roupa, senti uma enorme exaustão e voltei pra sala, a fim de retomar a discussão, pois preferia me resolver com ele a dirigir por 1:30 até São Paulo, de sangue quente, tarde da noite.

– É sério que você vai preferir me deixar ir embora do que me mostrar o que estou te pedindo e se resolver comigo?! – Eu queria que ele me deixasse continuar vendo as mensagens no seu celular, já que ele tinha me interrompido, quando comecei a ficar alterada com as coisas que eu estava lendo. 

– Você já viu.

– Eu não vi tudo! Da mesma forma que eu deixei você ver todas as minhas conversas com Fulano – um cliente fixo meu que ele morria de ciúmes e que me fez parar de sair – eu também tenho o direito de ver as suas mensagens com esse cara! EU TAMBÉM TENHO ESSE DIREITO! – Enfatizei.

Daí ele deixou. 

– Eu não acredito que você namorou com a Bruna!! Você tinha me dito que era só uma ficante de quatro meses!

– Mas foi isso mesmo.

– Não! Aqui você disse pra ele que era sua NAMORADA e que namoraram por 6 meses! Pra mim você ficava se fazendo de desentendido com a real duração.

– Eu arredondei pra ele e falei que era namorada pra passar mais credibilidade de fazermos alguma coisa a três ou troca de casal. 

Mas nas mensagens aquele Marcelo não demonstrava nenhum interesse em fazer algo a três ou a quatro, pelo contrário, já tinha sido claro que sua esposa não curtia, e quando o Intenso trazia sobre fazerem algo com a Bruna, o Marcelo não embarcava. Estava nítido que o interesse dele era em algo sozinho com o Intenso. 

– Por que você queria encontrar esse cara?

– Pra fazer amizade, eu já te falei. Você tem o Denis, tem seus amigos, rede de apoio, eu não tenho ninguém. 

Por que será, né?

– Você só consegue fazer amigos nesses sites de putaria?

Daí ele se fez de magoado, como se eu tivesse dizendo que ele só sabia fazer amigos assim. 

– Você entendeu muito bem o que eu quis dizer. Não estou dizendo que você SÓ é capaz de fazer amigos assim, estou justamente perguntando por que você só busca amizades dessa forma?!

– Eu não saio muito, é a forma que encontrei de fazer amizades sendo eu mesmo, sem máscaras.

– Por que você ia encontrar esse cara sabendo que ele tá a fim de você?

– Eu não percebi isso. 

– Como não?! Você mesmo já me disse isso uma vez!

– Eu desconfiava, mas levei pro lado da amizade, fui muito ingênuo. 

Ingênuo ele era de achar que eu iria cair naquele papinho. 

– Ele disse na mensagem: “se você quiser vir pra tomarmos um café, mas pode ser que não role nada”, o que você interpretou disso, afinal?!

– Interpretei que ele queria tomar um café.

– Não né! Quando a pessoa diz “pode ser que não role nada”, o que você acha que poderia rolar?

– Sei lá, alinharmos sobre ménage ou troca de casal.

– Para! Já estava claro que ele não queria nada disso! Você sabe muito bem que essa frase não quer dizer isso.

– Quer dizer o que? O que você acha que faríamos de manhã, durante um café? Ir pra motel?

– Mas é claro!

– Eu já te falei que não tenho interesse em fazer nada com homens, sozinho. Meu interesse é ter interações no momento da baguncinha somente. Jamais sairia com um homem sozinho.

MENTIROSO!

– Então por que estava marcando um café com ele, sendo que eu acabei de te trazer o visível interesse dele somente em você?! 

Daí ele quis tentar uma outra tática, dizendo que estava pensando em nós, em viabilizar uma brincadeira a três. 

– Você perguntou pra mim se eu queria algo com esse cara? Se eu me senti atraída por ele?

– Eu ia primeiro falar com ele.

– Não, primeiro você teria que falar comigo. Se o seu intuito era esse, de que adiantaria falar com ele, se eu não estivesse interessada?! 

– Você tem razão, agi errado. 

Eu que agi errado de passar por cima disso e ainda assim ter continuado com ele. 

Enfim, novamente o fiz bloquear a pessoa e deletar o contato. Eu sei, eu sei, podem se indignar, eu também estou muito indignada enquanto escrevo. 

Dormimos brigados. Eu dormi no quarto de hóspedes e ele na sala, nenhum dos dois quis dormir sozinho na mesma cama que dormíamos juntos. 

No dia seguinte, após ter uma noite extremamente mal dormida, acordei e fui me deitar com ele, sem dizer uma palavra. Ele me abraçou e transamos.

Eu precisava urgentemente parar de deixar ele me levar no papo, através do sexo.

Mas o universo não desistiu de mim. As verdades continuaram a cair no meu colo, se encaminhando para fatos cada vez mais incontestáveis.

Novas decepções.

Novos ataques por conta do meu trabalho.

O cara vivia me diminuindo e também não era nenhum exemplo de lealdade. A conta não estava fechando.

Mas calma, que o pior ainda está por vir!

“O Intenso” – Parte 10

Viagem para Ilhabela

Querido diário,

Mais uma vez fui envolvida na teia dele.

Eis a nossa terceira viagem juntos.

Ele alugou um contêiner praticamente dentro da floresta, uma proposta muito mais interessante e romântica do que um hotel luxuoso, adorei! Tinha uma sala e uma mini cozinha no andar de baixo e subindo as escadas, a suíte e uma mini varanda com banheira. E uma peculiaridade que não pode deixar de ser citada: tanto o quarto, quanto a sala, tinham paredes de vidro! Ou seja, nossa cama ficava exposta para o lado de fora, virada para a rua, e a sala podia ser vista pelos outros dois contêineres que continham no mesmo local. Nessa viagem descobri mais uma camada do Intenso: Ele é exibicionista.

Após acomodarmos nossas coisas, abrimos uma garrafa de vinho, coloquei minha playlist de músicas sensuais para tocar e nos acomodamos no sofá, onde iniciamos deliciosas preliminares. Como vínhamos de dias conflitantes, aquele sexo foi providencial. Sexy e provocativo. Novamente ele não foi direto ao ponto, ficou naquele joguinho de sedução até me deixar completamente molhada, tão excitada, que nem foi preciso o gelzinho, mesmo o pau dele sendo grande e grosso. Me chupou deliciosamente, retribui o gesto (até rendeu um vídeo excitante lá no meu clubinho) e então implorei que me comesse, ele sabe provocar como ninguém. Foi uma das nossas melhores transas. Tinha desejo, romance e no final rolou até um fetiche!

Vou revelar aqui algo completamente inédito sobre mim, tenho um fetiche muito peculiar, que é tesão com estupro. Não que eu queira ser estuprada de verdade, Deus me livre! Mas fantasiar que estou sendo me dá bastante tesão e o Intenso também curtia realizar, não era a primeira vez que explorávamos isso. Então, em determinado momento da transa, ele foi conduzindo para como se fosse algo forçado e eu fui junto na interpretação, até mesmo tentando empurrá-lo com as minhas pernas, como se, essa devassa que vos fala, não estivesse gostando. Me masturbei durante o sexo e gozei deliciosamente assim.

Uma vez, conversando, ele já tinha proposto de fazermos algo mais elaborado, como se fosse um sequestro, com direito até a revólver, me transportar em porta-malas de carro, e tudo isso mediante a segurança de um contrato, mas acabei não seguindo adiante, me pareceu “verdadeiro” demais, gosto quando estou num ambiente seguro.

Depois que transamos e gozamos, ficamos deitados no sofá, ainda pelados, curtindo aquela vibe pós sexo. Daí, em algum momento, começou a rolar uma movimentação no terceiro contêiner e foi nesse momento que percebi seu lado exibicionista, pois não se intimidou que pudesse ser visto completamente nu, continuando tranquilamente onde estava. Acabei ficando junto, ainda que um pouco tímida com tal possibilidade de ser vista sem roupa por estranhos, sem ser numa situação de trabalho. Senti que ele queria, talvez, facilitar uma situação de troca de casais organicamente.

Não fomos vistos pelo casal do terceiro contêiner (felizmente) e então começamos a nos arrumar para o jantar. Nessa noite fomos num restaurante muito gostoso, que infelizmente não me recordo o nome, ficava dentro de um hotel. Pedimos o carro chefe da casa, que era camarão ao molho, servido dentro de um abacaxi.

E ali, naquela mesa de restaurante com uma vista linda, o Intenso fez altas declarações, dizendo que sentiu muito a minha falta, que era apaixonado por mim, que queria construir uma vida ao meu lado, todas as frases mais lindas e românticas que você pode imaginar. Eu ainda mantinha uma pulguinha atrás da orelha, um lado meu queria acreditar, estava aberta a isso, mas outro continuava cético, o vendo como um grande conquistador cheio de lábia.

– E quando iremos oficializar? – Aproveitei aquela chuva de declarações para trazer algo mais concreto.

– Era pra ter sido semana passada, quando fôssemos fazer aquela viagem com a sua mãe.

– Ah ta. Kkkkk. – Muito conveniente ele se apoiar num evento que sequer aconteceu.

*

Quando tivemos aquele day use em Brotas, eu comentei que minha mãe iria adorar aquele lugar, e aí ele ofereceu de voltarmos no aniversário dela. Porém, aconteceu aquela situação que vocês leram na parte 8 e ficamos duas semanas afastados, calhando com o fim de semana de aniversário da minha mãe. Olhando para trás com a sabedoria de hoje, até acho que o conflito que ele criou foi proposital para eximi-lo de uma programação que no fundo ele acharia chata e que só propôs para me impressionar naquele momento.

*

Voltando para a noite do jantar, ele se levantou para ir falar com o garçom e a tonta aqui pensou que ele estivesse tramando alguma surpresa, visto todas as declarações que ele estava fazendo, mas quando voltou e viu a minha cara de expectativa, brincou com um balde de água fria, dizendo que não era o que eu estava pensando e que ele só foi pedir uma coca, finalizando com uma risada. Levei na brincadeira e dei risada também, mas fala sério, qual a necessidade em debochar disso?

Mais tarde, de volta ao nosso cafofo envidraçado, deixamos a banheira enchendo e aquecendo, enquanto fomos brincar na cama. A luz do quarto estava apagada, mas como tal contêiner ficava no topo de uma ladeira, qualquer carro que subia, involuntariamente, iluminava a nossa cama com as luzes do carro.

E sempre que nos viam na atividade, piscavam os faróis, nos dando um aviso, como se só tivéssemos sido descuidados e não que aquele show erótico tivesse sido premeditado, rs. Teve um cara que até parou o carro e desceu, fingindo ir fazer xixi, mas o Intenso levou na malícia, dizendo que tal motorista estava se masturbando, já que ele ficou de costas para nós, mas se virando para espiar algumas vezes. A aventura voyer não durou muito tempo, pois dali a pouco veio outro carro e o que tinha parado no meio da rua, precisou voltar para o seu posto e seguir viagem.

Depois que a banheira terminou de aquecer os seus 38 graus, entramos e ali tivemos mais um momento delicioso. Ao som de “Surreal” da Luiza Sonza…

Fiz uma massagem tântrica nele, dentro da água, massageando a região pouco abaixo das bolas.

– Você pode fazer de novo isso que estava fazendo? – Ele pediu, quando interrompi ao término da música.

– Claro! – Até coloquei o som no repete, pra manter o mesmo clima.

Após um tempo, ele gozou sem ejacular. Ficou admirado por vivenciar isso.

*

No dia seguinte, fomos tomar café da manhã num lugar muito gostosinho a beira mar, já com as vestes de banho, para emendarmos a praia na sequência. E enquanto estávamos nessa lanchonete, ocorreram duas situações peculiares.

A primeira foi quando surgiu um menininho, de uns dez anos, vendendo trufa. O Intenso, educadamente, recusou, e enquanto o menino se afastava, comentei que gostava de trufa.

– Mas não sabemos a procedência desse chocolate. – Ele analisou.

– Que procedência você acha que teria? Com certeza deve ter sido feito pela mãe dele.

Nisso o Intenso ficou pensativo e então chamou o menino de volta. Perguntou quem tinha feito as trufas, e o garotinho respondeu que ele trabalhava para alguém, ou seja, não era uma simples criança vendendo na praia as trufas feitas pela mãe, como eu tinha imaginado. Daí o Intenso ficou interessado na causa da criança e perguntou por que ele trabalhava vendendo trufas. O menino compartilhou que queria juntar dinheiro para poder entrar num clube de futebol e ter aulas. O Intenso seguiu interessado e perguntou de quanto ele precisava para atingir esse sonho. Não me recordo o valor dito, mas quando o Intenso foi pagar pela trufa de R$ 1,50, lhe fez um pix de R$ 300 (segundo o que me disse, não vi o comprovante), e quando virou a tela do celular para que o garotinho checasse que foi efetuado a transferência, a reação do menino foi de total espanto, como se o Intenso tivesse lhe transferido uma fortuna.

– Eu não acredito! – O menino exclamou espantado.

*

A outra situação já não foi tão benfeitora assim, me senti desconfortável com determinada situação e trouxe à tona ali o meu desconforto. Eu já tinha reparado um comportamento um tanto deselegante no Intenso, toda vez que estávamos em público, principalmente em mesas de restaurante. Ele tinha o péssimo hábito de encarar as pessoas – que ele julgava interessantes – de outras mesas. Na primeira vez que isso aconteceu, ele atribuiu ao fato de estar incomodado que o rapaz da mesa ao lado estivesse me paquerando, mas na verdade ele que sempre ficava reparando nas pessoas, encarando-as de volta. Nesse dia, havia um casal muito bonito na mesa atrás de mim. Eles estavam acompanhados de uma senhora que deduzimos ser a sogra de um dos dois. Teve um momento que o Intenso mal olhava pra mim, que estava na frente dele, e só ficava com o olhar nessa outra mesa. Somando todas as outras vezes em que reparei este comportamento, desta vez chamei sua atenção.

– Nossa tá tão interessante assim na outra mesa pra você não tirar os olhos?

Como um bom manipulador, fez parecer que eu que estava exagerando e até trouxe um holofote para o meu tom de voz, dizendo que eu não precisava falar alto e que era importante olharmos para o que realmente estava me incomodando, como se tivesse algo por trás do óbvio. Novamente me pareceu que ele queria viabilizar uma troca de casais organicamente, já que me explicou que existe um código entre homens, que se for rolar algo do tipo, essa comunicação é feita através de olhares, quando o outro corresponde a encarada.

– É mas se a pessoa não estiver a fim, você estará sendo inconveniente, encarando as pessoas desse jeito. – Argumentei.

– Isso te incomoda?

– Me incomoda a pessoa que está comigo ficar mais atenta a mesa do lado do que na nossa própria conversa.

– Entendi. Vou me policiar com isso.

*

Depois fomos para a praia. Acomodamos nossas coisas numa mesa, bebi um drink, ele uma cerveja e então pedimos para uma família que estava ao lado, por gentileza, olhar as nossas coisas para que pudéssemos entrar na água. Infelizmente estava gelada, não tivemos coragem de entrar totalmente e ficamos só andando pela orla. Em algum ponto da caminhada, nos deparamos com outro casal minimamente interessante, e ele quis se demorar por ali, novamente tentando sua estratégia de contato visual, sem sucesso, o outro casal não entendeu ou não estavam a fim – suspeito que sequer perceberam as suas intenções, visto que pessoas comuns não vão para a praia com esse intuito. – Imagino eu.

A noite fomos jantar em outro restaurante alto nível, chamado “Casa Natu”, que ficava dentro do hotel mais caro de Ilhabela: DPNY Beach Hotel & SPA. O lugar era lindo, mas gostamos mais da comida do restaurante da noite anterior.

Antes de irmos embora, fomos dar uma volta na área da piscina do hotel, onde até fiz umas fotos, mas acabei não postando, vou trazer abaixo pra vocês. Já ele, postou essa foto com a vista no seu story, marcando a localização do lugar, visivelmente querendo fazer parecer que estava hospedado ali.

Depois que voltamos para o nosso contêiner, tivemos uma nova situação conflitante, envolvendo meu perfil do Tiktok. Comentei que eu tinha gravado vídeos contando do Intenso e ele ficou curioso para assistir. Daí, enquanto víamos o primeiro vídeo, ele se incomodou com a minha fala sobre no nosso primeiro encontro eu ter acionado o carisma da Sara e ali não ter sido eu, mas a “Sara” a sair com ele.

– Não era você ali! Eu me apaixonei por uma garota de programa.

Indignado, como se isso fosse um crime, uma vergonha.

– Tá tudo bem?

– Estou processando tudo isso.

Nem quis continuar assistindo. Mas ao contrário das outras vezes em que ele criava conflitos, desta vez eu não me preocupei em cavucar o assunto até que ficasse tudo bem e simplesmente fomos dormir com aquele clima estranho.

Na manhã seguinte, me surpreendi com ele me abraçando, demonstrando estar tudo bem de novo. Nada como uma boa noite de sono. Logo desenrolamos uma deliciosa transa matinal.

Ficamos na cama durante a manhã inteira, tinha chovido fortemente de madrugada, ocasionando numa queda de energia elétrica e o dia não estava nada convidativo, frio e chuvoso. Só saímos para almoçar e durante tal almoço ele trouxe na mesa sobre morarmos juntos.

– Você moraria comigo em Campinas?

Fui pega de surpresa, mas respondi que sim, afinal, eventualmente quando eu parasse de atender e fôssemos dar esse passo, faria mais sentido eu me mudar, visto que seu apartamento era bem maior e ele precisaria continuar morando perto do trabalho. Eu já tinha começado a faculdade de psicologia, – que a propósito foi ideia dele, para que, futuramente, quando eu não exercesse mais o meu trabalho com encontros, eu pudesse aproveitar toda a minha bagagem profissional, vindo a ser uma terapeuta sexual ou sexóloga, o que achei genial, sempre me interessei por psicologia – então ele acrescentou que eu poderia estudar na melhor faculdade de Campinas, que ele pagaria e a partir dali até assumiu o compromisso de pagar a minha faculdade desde agora.

– E você poderia trabalhar comigo, seria minha secretária.

– Mas como eu vou fazer algo que você faz, se você fez anos de faculdade para isso?

– Eu vou te ensinar exatamente o que precisa, direto ao ponto, na faculdade você aprende muita coisa que nem usa.

Segundo ele, eu teria um salário de R$ 6k, muito inferior à minha renda de hoje, mas achei plausível, considerando que até lá eu já teria quitado meus financiamentos, reduzido meus gastos e padrão de vida, um cenário até mais promissor do que quando parei para ir morar com o meu ex, que não me ofereceu nenhuma condição de trabalho para que eu tivesse alguma renda. E somaria também com a minha receita do OnlyFans, já que os conteúdos online acordamos que eu continuaria.

Fiquei muito tocada que ele já estivesse visualizando um futuro comigo, com uma pessoa que ele sequer ainda tinha pedido em namoro.

Viagem para Ribeirão Preto

Ele foi convidado para um evento importante de um escritório de advocacia em Ribeirão Preto, que ele presta serviço. Seria uma comemoração de aniversário da empresa, em que eles reuniriam todos os seus clientes numa casa de fazenda para falar das conquistas, dos números, enfim, uma forma de manter a boa relação com os clientes, lhes proporcionando um evento requintado com direito a comes e bebes, mimos e banda ao vivo. O Intenso disse que só iria se eu topasse ir com ele, pois não queria ir sozinho, já que ganhou dois convites. Achei aquilo o máximo, vi com bons olhos ele querer me incluir nas coisas do seu trabalho e ser visto ao meu lado, claro que topei.

Porém, no dia dessa viagem, lá estávamos nós enfrentando outro conflito, novamente ocasionado por ele. Seu incômodo da vez era com os meus conteúdos em colab com o Gabespec dentro do meu OnlyFans. Quem me acompanha no meu clubinho, sabe que tenho vídeos transando com o Gabe, que vendo dentro da plataforma para quem quer um conteúdo mais explícito. Ele queria que eu deletasse tais vídeos. Que ele, sendo meu namorado (namorado esse que ainda nem tinha oficializado), não se sentia confortável em saber que tinham vídeos na internet da namorada dele transando com outra pessoa, como se fosse uma atriz pornô. Claro que me impus, ofereci um meio termo. Falei que poderia não utilizar mais tais vídeos, mas deletar somente depois que fôssemos morar juntos. Eu que não ia perder os meus vídeos por uma relação que eu sequer tinha garantias que daria certo. Fomos para a viagem com um clima meio bosta, pois, por eu não ter cedido a vontade dele, emburrou a cara e seguimos em silêncio no carro.

De repente ele tocou no assunto de um anel que eu tenho.

Eu tenho um anel muito lindo da Swarovski que ganhei do meu cliente gringo das viagens e o Intenso detesta esse anel porque é muito parecido com a aliança que ele dizia ter comprado para mim, um ranço do tipo: “ia te dar uma coisa linda, mas já te deram”. Daí passei a evitar de usar o anel na sua presença, aliás, tudo que eu podia evitar para não desencadear em situações desagradáveis, eu evitava, como quando ele cismou com um colar de dois corações que eu tinha, também da Swarovski, presente de um outro cliente muito especial. “Esse cliente devia ser muito apaixonado por você, pra te dar um colar com dois corações juntos”, criticava, amargurado. Por ele eu deveria jogar esses presentes fora, não entendendo o valor de ter uma joia, independente de quem tenha presenteado.

Enfim, ele tocou no assunto desse anel, perguntado se eu tinha levado. Respondi que não, já que ele não gostava. Para a minha surpresa e grande contradição no seu comportamento, ele queria que eu tivesse levado, pois, nessa situação que seria conveniente pra ele, queria que eu usasse. E qual era o lance? Ele queria pagar de meu namorado nesse evento, e como o anel parece uma aliança, seria como se estivéssemos namorando, e ele também usaria a aliança dele. Achei aquilo péssimo, afinal, ele queria “fingir” que era meu namorado, mas não queria oficializar de fato. Fiquei sensibilizada com isso, ele percebeu e ficou preocupado, perguntando o que tinha acontecido. Não era óbvio?!

– Isso pegou muito mal pra mim. – E expliquei como me senti.

– Ô minha linda, me desculpa. Eu vou resolver isso então, não se preocupe! Não será do jeito que eu tinha planejado, mas vou resolver. – Todo acalentador.

Tínhamos ido até o seu trabalho buscar os convites e paramos para comer em uma lanchonete qualquer, daí, antes de cairmos na estrada rumo a Ribeirão Preto, voltamos até seu apartamento para buscar a minha aliança que ele tinha comprado. Na verdade, achei que tivéssemos voltado exclusivamente para isso, fiquei aguardando no carro e dali a pouco vejo ele voltando com o terno no cabide. “Tinha esquecido meu terno”, ele disse. Então não voltou por conta da aliança, como fez parecer inicialmente.

Nos hospedamos num hotel e começamos a nos arrumar para o evento, que pedia dress code casual fino.

Antes de irmos para o evento, o Intenso quis fazer um esquenta numa choperia, dentro de um shopping ali perto. Na mesa dessa choperia, de uma maneira nada especial, ele oficializou o nosso relacionamento.

Pedido de Namoro

– Você gosta de mim? – Ele me perguntou de repente.

– Gosto.

– Mesmo eu sendo todo problemático?

– Sim.

– Então namora comigo?

E tirou a caixinha da Vivara do bolso.

Não era o pedido de namoro especial que eu esperava. Quando abri a caixinha, inicialmente nem achei a aliança tão bonita assim, tendo como comparativo o meu anel que era muito mais brilhoso. Não consegui disfarçar minha cara de decepção. Não tanto pela aliança, pois mesmo sendo menos brilhosa, de fato era diferenciada e muito bonita, mas pelo jeito como ele pediu, acomodados numa mesa de uma choperia qualquer dentro de um shopping, imaginava num lugar muito mais especial e íntimo, com pétalas de rosas pelo chão, não da forma como foi.

– Sua cara não está boa. – Ele percebeu. – Não está sendo do jeito que eu tinha planejado, mas faz de conta que esse pedido aconteceu naquele restaurante em Ilhabela. Era pra ter sido lá, se eu não tivesse esquecido a aliança em casa.

– Tudo bem, capricha no pedido de noivado então.

– Pode deixar!

Enfim o pedido de namoro saiu, sob uma leve pressão.

Mas mesmo nessa situação que era pra ser um momento especial nosso, ele continuava com aquele comportamento deselegante de encarar as pessoas da outra mesa. Inclusive, analisando todas as situações em que almoçamos e jantamos fora, ele sempre escolhia se sentar onde mais favorecia sua visão.

Fomos para o evento.

Chegamos um pouco atrasados, um dos donos já palestrava sobre os progressos da empresa, ambiente cheio, pessoas bem-vestidas e algumas mulheres vinham cumprimentar o Intenso, todas simpáticas, me tratando super bem, perguntando se ele já tinha oficializado, ao que ele respondia todo orgulhoso que sim, mostrando as nossas alianças nos dedos. Ou seja, ele não oficializou porque gostava de mim o bastante para isso, mas porque queria impressionar outras pessoas. Seria eu uma namorada troféu? Mesmo com o meu histórico de ser uma profissional do sexo, algo que ele não gostava, se exibir comigo, a mulher mais gata que ele já pegou, era uma grande conquista para ser mostrada, pois elevava o seu status perante os outros.

Na saída do evento presenteavam os convidados com uma garrafa de vinho e uma impressão de fotos em polaroid. Tiramos a foto, nos deram a impressão, postei no meu insta pessoal marcando tal escritório, eles repostaram e um dos donos começou a me seguir (cujo dono sequer seguia o Intenso).

*

No dia seguinte, fomos tomar café num lugar muito fofo, todo na temática de gatos, chamado “My Cat Café”, adorei o ambiente.

No caminho de volta para São Paulo, acabamos parando num outlet pelo caminho, em que o Intenso me presenteou com dois calçados, uma sandália e um scarpin. Achei fofo. À noite, já de volta ao apartamento dele, fomos ao cinema, a meu pedido, que queria assistir “Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda”, não foi aquele filmão, mas eu tinha gostado muito do primeiro filme, então fazia questão de conferir a continuação.

No dia seguinte, fomos no parque Wet’n Wild para assistir um amigo meu que estava trabalhando no evento de terror do parque e curtimos o dia. Na verdade, não foi bem aquela curtição, o Intenso não queria ir em nenhum brinquedo aquático, frustrando a minha experiência. Eu estive lá apenas uma vez, no passado, com duas amigas e lembrava de ter sido muito divertido. Quando percebeu que eu estava cabisbaixa e externei que a minha expectativa para aquele rolê era outra, ele acabou cedendo e conseguimos ir em três brinquedos, que ele se divertiu na hora, mas, mesmo assim, não se entregou a experiência por completo depois, preferindo ficar sentado na grama.

Em algum momento fumamos um beck, camufladamente, e ele fez quase sermos expulsos do parque, quando ficou tão chapado, ao ponto de fazer movimentos insinuantes na grama, quase tirando o pau pra fora.

– Onde você vai com essa mão? – Perguntei a tempo de evitar tal vergonha.

– Nossa… – voltando em si – por um momento eu esqueci que estava aqui e achei que tava na minha casa.

– Pelo amor de Deus, rs. – Ri de nervoso.

Ele era mesmo fissurado no próprio pau. Sempre que estávamos em casa, na minha ou na dele, à toa, do nada colocava o pau pra fora, (que vivia duro), como um tarado ninfomaníaco. Teve uma vez que ele até pegou no sono segurando o próprio pau (juro, até tirei foto). Seria essa uma característica muito comum de um cara bissexual, mal resolvido, que idealizava no próprio pau a imagem de um outro homem? Faz sentido, ou viajei?

*

No domingo à noite, depois que voltei para minha casa, ele pediu a placa do meu carro e CPF para pedir uma tag para o meu veículo.

– Agora você não terá mais que ficar parando nos pedágios.

– Adoro quando você cuida de mim. – Uma forma de me controlar também.

Na manhã seguinte recebi um alerta da Nubank no meu celular, informando que ele tinha emitido um cartão de crédito adicional para mim.

– Cartão de crédito adicional?

– Não fica feliz não, só para gastos emergenciais.

– Achei bonitinho rs.

Novas Brigas

Mais tarde, ainda na segunda, lá veio ele repetindo aquele padrão de criar conflito, uma forma de não me deixar em paz para trabalhar, nos dias em que não estávamos juntos. Mas reparem que a manipulação dele funcionava da seguinte maneira:

  • Primeiro criava uma falsa sensação de estar tudo bem;
  • Para logo depois plantar sementes de discórdia;
  • Com isso me causava confusão e insegurança.

Veja a seguir:

– Que horas você vem? – Estávamos já combinando sobre o fim de semana, em que ele viria para a minha casa sexta à noite. 

– Depende de sua agenda. Se vc tiver trabalho, eu vou a noite… se você não tiver agenda, eu vou mais cedo. Não quero que você feche sua agenda por mim.

– Entendi. Então não precisa mais do combinado de não trabalhar quando formos nos ver?

– Não. Eu não vou mais te impedir de nada. Nem querer te controlar. 

Parecia que ele tinha evoluído. 

– Obrigada pela confiança. – Reconheci o avanço. 

– Não é confiança. 

– O que é então?

– É a sua vida. Você quem deve decidir o que fazer e como fazer com relação a ela e as pessoas que entram nela. Eu já te expus todos os meus desconfortos. Se um dia eu entender que está muito pesado ou desconfortável demais, eu chego pra você e te falo.

– Estou admirada com essa mudança de comportamento.

– É uma mudança arriscada. Pra atingir ela, acaba se abrindo mão de sentimentos. 

Veja aqui a estratégia dele. Me trouxe algo positivo, para logo depois trazer algo negativo e me deixar insegura. 

– Está querendo dizer que não tem mais sentimento?

– Quero dizer que pra fazer isso, atingir esse nível de comportamento, tem que engavetar alguns sentimentos. 

– E quais você engavetou?

– Ainda não sei. 

– É sério que você entrou nesse assunto pra finalizar dizendo “ainda não sei”? 

Mordi a isca de ficar incomodada.

– Você quem perguntou. Não sei quais sentimentos serão necessários engavetar. Mas sei que são necessários. 

– Eu não perguntei nada, apenas falei que estava admirada com o seu comportamento e você que trouxe essa questão de não ter mais alguns sentimentos. Se quer trazer algo, traga por completo.

– Onde eu disse isso, de não ter mais sentimentos? Em que parte do texto?

Daí puxei da parte que ele falava “Pra atingir ela, acaba se abrindo mão de sentimentos”

– Ou seja, você já atingiu, então você já abriu mão de sentimentos.

– São escolhas. Hoje eu fiz essa escolha. 

Falou nada com nada, né? 

– Entendi. Bom, tô indo pra aula de dublagem. 

– Fiz essa escolha por nós.

– Do jeito que vc colocou acima, parece que a escolha derivou da perda de sentimentos. Então não foi uma escolha por nós. 

– Sim, foi por nós, pois não vou permanecer num relacionamento se ele não estiver me fazendo bem e feliz. A escolha implica em arquivar alguns sentimentos que me fazem mal.

– Ciúmes?

– Poderia ser um deles sim. Bem apontado. Mas quando vc deixa de ter ciúmes, vc deixa de gostar, de se importar. Quem se importa e ama, tem ciúmes. É algo basilar.

– Não necessariamente, tem pessoas que amam e não são ciumentas. 

– Eu não sou esse tipo de pessoa. 

– O ciúme está mais ligado a insegurança na relação, do que ao amor propriamente dito.

– É a sua visão particular disso. Se for assim pela sua teoria, 99% dos homens são inseguros. Na minha teoria, o ciúmes está muito mais ligado a exclusividade do que a insegurança. 

– Assim como dizer que quem se importa sente ciúmes tbm é a sua visão particular disso. Só não acho bacana você trazer lá em cima que não quer me controlar, trazendo uma “falsa liberdade” que eu posso decidir sobre a minha vida, pra logo depois dizer que a sua mudança de comportamento não é pq você quer de fato me deixar a vontade, para tomar minhas próprias decisões, e sim pq está engavetando sentimentos. Qual a necessidade de você ocasionar esse mal-estar na relação? Novamente você repetindo esse maldito padrão de criar mal-estar entre a gente quando estamos longe. Será que em algum momento conseguiremos ter uma distância saudável?

– Não estava criando mal-estar algum. Apenas expondo mais sobre meu comportamento. Vc questionou e eu respondi. 

Isso foi numa segunda-feira, esse desgaste persistiu até quinta. Era sempre assim, toda semana o mesmo ciclo: Final de semana incrível, durante a semana um inferno. 

*

Tivemos uma outra briga na semana seguinte por whatsapp, uma conversa que começou sexy e desandou em algum momento.

Por volta das 17:36 de uma terça-feira, de repente, ele me mandou uma foto, de visualização única, do pau dele.

– DONEIDA KKKK. – Respondi. – Pau gostoso. Queria me comendo agora. Não quer vir me comer não? – Provoquei.

– Já tem uma fila 🙁 – disse ele, por saber que eu tinha cliente agendado para mais tarde. – Nossa eu tô com muito tesão.

– Eu cancelo. Vem vem vem.

– Não faz isso, você sabe que eu sou louco.

–  Eu não tenho aula amanhã. Nem compromisso agendado. Vem 😏😈

– Não faz isso não linda. São 1.500.

– Então pra que vc me atiça?

Daí ele mandou outra foto do pau dele. 

– Delícia. Vai vir ou não? Vem. Vamos comer aquele japa gostoso e transar gostoso. 

– Queria muito muito muito. Sábado na hot é noite das 100 calcinhas. Vc tem algum vestidinho bem curto? Quero levar minha putinha pra passear sem calcinha e acorrentada. 

– Tenho 😈

– Me mostra? 

– Nada de spoiler.

– Tô te atrapalhando?

– Lindo, tô aqui de pijaminha, tô tão aconchegada, não quero por roupa agora e também quero fazer surpresa. Mas a gente pode continuar trocando mensagem e eu ir te atiçando por aqui.  

– Atiçar por texto não é atiçar.

Daí eu mandei um áudio, falando num tom sexy:

– Eu posso te atiçar por áudio, safadinho, narrando alguma coisa… quer? 😈

– Não, valeu.

E lá vem o balde de água fria, quando você não entrega para o narcisista o que ele quer. 

– Ficou chateado?

– Só pensei o seguinte: vc vai sair com 2 hoje e na hora que seu namorado interage demonstrando o quanto tá com tesão em vc.. e te procura, vc não está disponível pra ele.

– Nossa lindo, não precisa falar assim, né? Eu atendi um casal hoje, isso já demanda energia, eu tô preservando a minha energia pra mais tarde. Se você viesse pra cá, eu super cancelaria o encontro pra ficar com você, eu ainda te chamei… Essa troca por mensagem pra mim não tem o mesmo peso que pessoalmente. E aí você já leva tudo pra esse lado, poxa… podia ser mais empático comigo também, né? 

– Esquece isso. 

– Falei pra você que tô aqui deitada no sofá super aconchegada, tô até coberta, aí você quer que eu levante pra por um vestido, já vou ficar com frio, sabe… se você tá com tanto tesão assim, se você quer tanto putaria, então vem me comer!

Ou seja, o boy que saia de Campinas, mas eu não iria sair do meu sofá kkkkk. 

– Tá bem. Já deu. Poxa olha como vc está me tratando. Veja seus áudios. Só pq eu estava excitado e falando com vc. 

– E olha como você está me tratando. Só pq não embarquei na putaria como você queria, você já “me descarta”. Propus por áudio de você vir, e se não é do jeito que vc quer, então não tá bom. 

Dois mimados. Eu queria do meu jeito (presencial) e ele queria do dele (fotinho a distância).

– Eu não te descartei. Onde eu descartei?

– Ali onde você disse pra eu esquecer e quando disse “já deu”.

– Já deu a briga. Pra esquecer esse assunto. 

– Eu só falei que não estava na vibe de levantar e trocar de roupa.

– Eu não falei que queria nada… apenas te perguntei do vestido. Só isso. Agora eu entendo alguns clientes seus.

– Como assim?

– Ah puta sacanagem né, cê trabalhou ontem, trabalhou hoje, vai trabalhar daqui a pouco. Eu, como namorado, a hora que eu vou fazer uma brincadeirinha com você, e olha que eu nem sou de ficar fazendo essas brincadeiras, a hora que eu vou fazer alguma brincadeirinha, você simplesmente ignora completamente, cê não pensa: “poxa, vou tirar dois, cinco minutinhos pra dar atenção pro meu namorado”, vc não faz isso, simplesmente ignora. Porra fiquei chateado pra caralho, fiquei de verdade muito chateado agora. 

– Eu não te ignorei. Eu tô falando com você desde o momento que vc mandou a primeira foto, inclusive te convidei pra vir pra cá hoje. Só pq não quis colocar um vestido, que inclusive falei “nada de spoiler”, você já ficou puto. Só não entendi pq agora você entende os meus clientes.

– Vc sabe do que tô falando.

– Se eu soubesse não estaria perguntando. Não entendi qual o link. 

– Quando eles se frustram em casa, buscam fora.

Affffff

– Nossa, que comentário péssimo.

– Que comentário muito real e pertinente. 

– Você tá sendo muito escroto agora. Dizendo que dá razão pros meus clientes, pq você pensou em fazer a mesma coisa.

– Se eu busco na minha namorada e ela não consegue atender, busco fora vídeos, sites etc…

– Ou seja, se eu não entrego o que vc quer, na hora que você quer, você sente que deve buscar fora. Péssimo.

– Estou falando de seus clientes. Que entendi como eles se sentem frustrados. 

– Não, você está falando das atitudes deles em solidariedade pq tbm sentiu vontade de fazer o mesmo.

– Se fosse outro cara, buscaria agora em um vídeo pornô ou algo assim.

– Você acabou de falar que faria o mesmo. Ou seja, se a sua escrava sexual não está inteiramente a sua disposição, você sente que deveria buscar fora como os meus clientes fazem.

– Não. Se a minha namorada está cagando pra mim, vendo que eu tô com tesão, e não quer nem dar 5 min de atenção, então pq eu não iria pra outros meios como vídeos? Porra eu fiquei bem chateado com o que rolou. 

– Não gosto desse tom que você tá falando comigo, tá? Eu não caguei pra você, eu tô te dando atenção desde a hora que você mandou a foto. Agora se eu não levanto na hora que você quer pra colocar uma roupa que você quer, olha como vc se transforma?! Isso é comportamento de gente mimada! Eu te falei como eu estava, te falei que tava aconchegada no sofá, por que você também não pode respeitar o meu momento? Eu te chamei pra vir pra cá! Você não valoriza isso não? Olha o escarcéu que você tá fazendo porque eu não levantei pra colocar a porra de um vestido! 

– Eu não estou falando de mim em específico, estou falando se a pessoa busca namorada e a namorada não consegue dar uma atenção pra ele, o que que ele vai fazer? Vai buscar fora, em vídeo, em sites… vai buscar através de outros meios, só fiz uma comparação com seus clientes… às vezes no relacionamento deles não têm o sexo em si e é por isso que eles buscam fora, através do seu trabalho. 

– Você não fez uma simples comparação. Eu entendi muito bem a ameaça velada. 

– Não tem essa de escrava sexual, eu nunca te peço nada, é muito raro eu entrar nesses assuntos. Você sabe como eu sou tarado e safado e nem por isso eu fico pedindo essas coisas toda hora, é raro. Aí quando acontece isso, eu me sinto simplesmente rejeitado. Foi assim que eu me senti. Você cagou pra mim, me rejeitou! E beleza, tá bom. 

– Nossa você se sentiu rejeitado porque eu falei que não ia dar spoiler do vestido? Só porque eu não quis levantar pra colocar um vestido pra você? Por isso você se sentiu rejeitado? Sendo que eu te chamei pra vir pra cá, que é muito melhor do que eu te mostrar um vestido no meu corpo é eu transar com você, com gosto. Olha para o que você tá dando mais importância. 

– Sim, me senti. Ahh pelo amor de Deus né, você acha que eu não queria tá aí? Cê sabe como eu sou, por mim eu pegava o carro e ia pra aí, mas você sabe que você precisa dessa grana, eu não vou te atrapalhar com isso, prometi pra você que eu não ia atrapalhar seu trabalho. Eu gosto tanto de você que eu ia praí hoje, daqui a pouco, e voltava amanhã de madrugada pra trabalhar, mas tem outras coisas em jogo. E sim, foi assim que eu me senti, ignorado pela minha namorada, no momento em que pedi um pouquinho de atenção, eu não tive.

De novo esse discurso de que eu não dei atenção pra ele, quando na verdade ele só estava frustrado por ter recebido um “não”. Não eu não vou levantar do sofá agora, não, eu não vou abrir mão do meu bem estar e passar frio pra satisfazer a sua vontade. 

– Eu não aceito você falar comigo desse jeito. Eu te dei atenção sim, dentro dos meus limites no momento. Não gostei desse seu comportamento. Sabe a impressão que me dá? Que toda vez que você tentar alguma coisa e eu não tiver 100% disponível pra fazer o que você quer, vai me tratar desse jeito. 

– Pois é, eu também não gostei desse seu comportamento. E eu não estou falando de comportamento sexual, – como não?! – eu não estou falando de putaria nem nada – como não?! –  eu estou falando de atenção mesmo, que custava você parar três minutinhos e dar atenção pra mim? 

Percebem como era cansativo lidar com ele?

– Eu não tava falando de sexo – ele continuou nesse discurso sem sentindo, quando era ÓBVIO que o seu incômodo foi por isso sim –  não tava falando de nada, eu só perguntei se você tem um vestido bem curtinho, e pedi pra me mostrar. O que custava você levantar dois minutinhos, ir lá no armário pegar ele e me mostrar? Não custava. E eu sentiria que você tava me dando atenção, então não é questão de ser escrava sexual nem nada disso, não sei com quem você tá me confundindo, com cliente seu, talvez, mas eu não sou cliente seu. 

Mas não é mesmo, meus clientes costumam respeitar quando ouvem um “não posso agora”. 🙄

– Ahh não vem com esse papo pra cima de mim agora não! Sabemos muito bem que você não ia querer que eu simplesmente pegasse o vestido e te mostrasse, você ia querer que eu colocasse o vestido no meu corpo. Você tava aí com seu pau duro pra fora e não ia se contentar em ver só uma foto de um vestido num cabide. Então não vem com essa! E eu simplesmente não quis me levantar pra colocar um vestido e ficar fazendo isso a distância, sendo que te chamei pra vir pra cá. Muita insensibilidade da sua parte. Você fala de um jeito como se eu tivesse abandonado o celular aqui e te deixando falando sozinho. 

– Eu só queria atenção da minha namorada, seja em brincadeira sexual, porque a gente já tava falando sobre isso, tanto que eu tava com tesão na hora, ou se não fosse esse contexto, – se não fosse nesse contexto nem estaríamos brigando – qualquer outra coisa, porque você tem amigos, você conversa com outras pessoas aí no WhatsApp, eu não tenho, então sinto muita falta de falar com você e de interagir com você. Aí quando eu busco isso e não encontro, fico chateado. Não é que eu seja mimado, não é isso. É que quando eu busco isso e não encontro, me chateia de verdade.

Conseguem visualizar a grande tentativa de manipulação? De repente o incômodo por eu não querer por o vestido, se transformou numa queixa dele não ter amigos para conversar.

– Ou seja, eu sou obrigada a fazer tudo que você me pede, pq senão você vai se transformar na conversa. Você não consegue entender: “poxa, ela tá quietinha lá no sofá, ela tomou banho, tá de pijaminha, tá aconchegada, pq vou fazer ela levantar do sofá, nesse frio, pra por um vestido e satisfazer a minha taradice, sendo que ela já está me dando atenção do jeito que ela pode nesse momento, trocando áudio, mandando mensagem escrita e etc”. Eu não gostei desse comportamento. Isso foi muito ruim. Só porque eu não fiz determinada ação, você desvalida todo o resto. 

– Não. Não fui capaz de pensar isso. Só pensei pelo lado da atenção que vc faltou comigo. Então sim. Foi uma situação muito ruim para os dois. E uma situação muito séria inclusive, pois cada um enxergou por uma perspectiva muito diferente e tóxica. 

– Eu te dei atenção em tempo real. A questão aqui não é que eu não te dei atenção, é que eu não quis te obedecer. Se não é do jeito que vc quer, então não tá bom.

– Vc não aceita o que eu tô expondo, de porque fiquei chateado, se blinda e ataca. Vc nem ouve, nem tenta se colocar no meu lugar. Mesmo eu te dando de forma cristalina a visão que eu pensei.

– Eu entendi muito bem pq você ficou chateado, simplesmente pq eu não me levantei pra colocar um vestido. Se você voltar a conversa e analisar, vai ver que ela começou a desandar nesse momento. Repito, isso é comportamento de gente mimada que quer as coisas tudo do jeito delas. Se eu tivesse levantado e colocado o vestido, não estaríamos tendo essa discussão agora. Então o problema aqui não é pq eu não te dei atenção, e sim pq eu não fiz uma coisa que você pediu. 

– Nem minhas ex-namoradas agiam assim.

– Nem meus ex-namorados agiam assim tbm.

– Então cada um volte pra seus ex. 

– Boa noite. 

Fiquei de saco cheio dessa discussão infeliz. Daí quando ele viu que eu joguei a toalha, me ligou. 

A ligação durou 51 minutos. 

Nos entendemos, cancelei com o cliente e ele veio pra minha casa. 

Transamos e provei o vestido pra ele. 🤡

Continua…