Nem Todo Gringo é Um Bom Partido – Parte 5

Viagem a Miami

– Ai amiga, estou com uma intuição de preocupação, sei que dará tudo certo na sua viagem, não fica irritada, mas me promete que quando tiver o endereço, você vai me passar? E queria te pedir outra coisa, vai parecer esquisito, e só por precaução… Leva aquele seu sprayzinho na mala?  Porque querendo ou não, você vai pra casa de uma pessoa estranha, em outro país, uma pessoa que você passou poucas horas junto aqui. Em um lugar muito longe que você não tem pessoas conhecidas, te acho meio lesada. 

Péssimo momento para a minha melhor amiga demonstrar qualquer preocupação comigo. Tínhamos almoçado no dia anterior e ela parecia bastante animada com a minha aventura, e agora, no dia da viagem, vinha com essa mensagem negativa.

– Amiga, você mais do que ninguém sabe o quanto sou desconfiada. Fica tranquila, eu não sou tão inocente, se der alguma merda vou me defender também. Rasgo qualquer um com essas unhas, rs.

Tentei não levar para o coração aquele alerta para que também não ficasse pilhada.

*

No momento do check-in, no aeroporto, tive que comunicar sobre o meu spray de pimenta na mala despachada e, graças a minha amiga, perdi o meu item de defesa para sempre, pois precisei retirá-lo e deixá-lo de fora. Até negociei com a balconista sobre ela guardá-lo para mim, mas nunca voltei para buscar.

Voo direto, porém, longo e, para variar, a comida do avião me deu refluxo. Assisti ao filme “Cinderela”, a versão de 2021, que tem a Camila Cabello, para já entrar no clima de conto de fadas.

O voo chegou meia hora antes.

– Pousei! – O avisei imediatamente.

Nada dele responder.

– O voo chegou antes. – Insisti, 20 minutos depois.

Novamente o silêncio. Comecei a ficar ansiosa. E se eu fosse raptada por uma agência clandestina que quisesse me transformar numa escrava sexual, como na novela “Salve Jorge”? E se ele não me respondesse mais e eu ficasse completamente sozinha e desabrigada, num país que não fala o meu idioma? Fui ficando cada vez mais tensa!

– Oie? – Novamente tentei contato, 15 minutos depois.

Comecei a ficar paranoica. Já tinha dado o horário original da chegada do voo, ou seja, já era para ele estar a caminho, e, no entanto, continuava ausente. Em contrapartida, a fila para passar pela Polícia Federal estava gigantesca e lenta. “Se até eu pegar a mala, ele não aparecer, irei ligar para ele”, pensei com meus botões, estruturando um plano de emergência. Mas quem disse que aguentei esperar? Cinco minutos depois eu estava ligando para ele, rezando para que me atendesse e não fosse um golpe.

– Alô.

– Oi.

– Oi! Você já chegou??

– Sim, o voo chegou meia hora antes. Você não está vindo?

– Não, mas eu moro perto. Estou a quinze minutos do aeroporto.

– Ah tá, é que eu te mandei mensagem e você não respondeu.

– …

– Você estava dormindo? – O voo tinha chegado às 7 da manhã.

– Não, estou me arrumando para ir te buscar. Como que está aí? Já pegou a mala?

– Ainda não. A fila da imigração é muito grande.

– Ahhhh sim! Por isso me planejei para chegar um pouco depois do pouso, sabia que iria demorar. Me avisa quando passar, que vou te buscar.

Finalizei a ligação mais tranquila, mas o sentimento de desconfiança não foi embora totalmente. Não tinha gostado daquela ausência. Se ele sabia que eu estava chegando, como não ficou atento nas mensagens? Ele sequer teve a preocupação de acompanhar a chegada do voo!

Após uma hora de espera, enfim chegou a minha vez de ser atendida.

– Qual o motivo da viagem? – O policial perguntou.

– Lazer.

– Onde ficará hospedada?

– Deixa eu pegar aqui.

– Você não sabe?

– Não sei de cor, é a casa de um… amigo.

– Onde você conheceu seu amigo?

– Num aplicativo de relacionamento. – Na mesma hora me bateu uma vergonha de falar isso em voz alta.

– Onde?

– Aplicativo de relacionamento.

– O que é isso?

– Você não conhece?

– Não. Internet?

– Isso! – Achei melhor não dificultar seu entendimento.

Pensei que o policial fosse barrar a minha entrada, mas logo em seguida devolveu o meu passaporte e liberou a minha passagem. Ufa! Após poucos minutos esperando a minha mala surgir na esteira, tive a expertise de checar num amontoado de malas em outro canto e por sorte a minha já estava lá. Um tanto burocrático para sair do aeroporto de Miami e quando a porta automática de saída abriu, o ar-condicionado congelante deu lugar a uma bufa de ar quente úmido. Ele já estava lá. Veio andando até mim, todo bonitão e cheiroso. Nos cumprimentamos e rumamos para o seu carro, que era uma BMW.

*

– Preciso passar num lugar antes. – Ele disse, enquanto estávamos na estrada, de repente, reacendendo a minha desconfiança.

– Que lugar?

– Como você é curiosa… É uma surpresa! – Disse ele, todo sorridente.

Eu não estava muito confortável com aquela “surpresa”. Chegamos numa área de Miami toda residencial, novamente achei que seria raptada. Ele estacionou num lugar estranho e disse que já voltava, me deixando sozinha no carro. Felizmente deixou a chave junto comigo, mas poderia ser um truque, pensei, ainda desconfiada. Fiquei observando aonde ele ia, até que virou a esquina e o perdi de vista. A rua era deserta, fiquei olhando de um lado para o outro incansavelmente.

Após uns dois minutos, surgiu um outro carro e parou a poucos metros de distância. Na mesma hora já peguei a chave do carro, preparada para apertar o cadeado se fosse preciso. O vidro do motorista do outro carro abaixou e o homem que estava ao volante fez algumas fotos da rua com o seu celular. Enquanto o observava extremamente atenta, experimentei um sentimento não muito agradável de medo, percebi que nunca passei por uma situação que me despertasse aquela sensação antes. Depois ele voltou a subir o vidro e deu ré, chegando muito perto do carro que eu estava. Senti mais medo ainda! Mas a sensação logo foi tomada por um alívio, quando manobrou e foi embora.

– Será que foi te comprar flores? – Minha amiga matou a charada antes que ele voltasse.

– Ai amiga espero que não… flores?

Um pequeno adendo aqui, eu devo ser uma das poucas mulheres que não acha a menor graça em ser presenteada com flores. Acho lindo quando vejo nos filmes, mas, na vida real, considero inútil. Gosto de presentes que poderei de fato guardar de lembrança e não que vá morrer em poucos dias.

– No mapa da localização que você mandou tem uma floricultura bem próxima. Só isso para fazer sentido. – Ela analisou.

E tinha acertado. Após alguns minutos, o vejo ressurgindo na esquina, sorrindo, como se estivesse carregando um troféu, segurando algo nas mãos. Devido à distância, não consegui identificar de primeira o que era, mas quando se aproximou mais, pude ver. Se tratava de um lindo buquê de rosas vermelhas, com apenas duas rosas brancas, uma distante da outra, que, segundo ele, representava nós dois, comigo no Brasil e ele nos Estados Unidos. Achei muito fofinho o gesto, coloquei meu lado atriz em ação e demonstrei a maior empolgação com o mimo, mas lá no fundo não me impressionou tanto assim, pois, como falei, flores não é algo que me causa grande encantamento, apesar de serem mesmo muito lindas.

Agora sim rumamos para o seu apartamento, que eu já conhecia de algumas fotos. Ao passar pela porta de entrada, a pequena cozinha americana ficava à direita e o banheiro a esquerda. Havia uma mesa de jantar entre a sala e a cozinha e o seu escritório ficava na frente do sofá, da sala de estar. O seu apê era um grande loft. A direita da sala tinha o quarto, esse sim com paredes e porta, que ligava ao banheiro, separado apenas por um pequeno closet no caminho. Achei engraçado que você podia acessar o banheiro por duas portas diferentes, pelo quarto e pela cozinha. Como é muito comum nos banheiros americanos, para usar o chuveiro você tinha que entrar numa banheira, que era protegida por uma cortina – prefiro muito mais os banheiros brasileiros, com box de vidro. Do lado de fora tinha uma varanda enorme, com uma vista incrível do mar.

Depois de me mostrar tudo, me deixou à vontade para tomar banho e arrumar as minhas coisas, enquanto ele participava de uma reunião online de trabalho. Ainda teve a delicadeza de me preparar uma deliciosa salada de frutas vermelhas com queijo fresco, granola e iogurte. Estava mesmo uma delícia. “Meu conto de fadas está só começando”, pensei, iludida.

Assim que ele teve um tempinho para ficarmos juntos, transamos. Uma transa muito longa para o meu gosto, diferente das transas que tivemos no Brasil. Torci para que essa longa duração não virasse um hábito, transas longas demais são exaustivas. No almoço ele fez um prato fit para gente, composto de ovos mexidos, tomate picado, banana, peito de peru e abacate. Uma mistura que falando pode parecer estranha, mas, comendo, via-se que a combinação era mesmo perfeita! Ele mandava bem na cozinha. Depois sugeriu que eu utilizasse a piscina e jacuzzi do condomínio, pois ele precisaria trabalhar mais um pouco e não queria que eu ficasse sem ter o que fazer. Assim sendo, desceu para me apresentar as áreas comuns do prédio e me deixou bem acomodada na jacuzzi. O lugar estava deserto, então pude ficar bem a vontade para fazer alguns conteúdos com o meu celular, ouvir música e relaxar mesmo.

Uma hora e meia depois, quando encerrou seu trabalho, se juntou a mim. Tivemos bons momentos juntos na jacuzzi e depois também fomos para a piscina. Enquanto estávamos na água, falamos sobre o nosso sexo e aproveitei para expor algumas de minhas preferências, como, por exemplo, preferir várias transas curtas do que uma muito longa.

– Eu achei que você gostasse de transas longas. – Ele disse.

– De vez em quando eu gosto, mas, se for sempre, fico sensível lá embaixo e aí não consigo transar tantas vezes. O ideal seria você gozar logo depois de mim.

– Ahh eu achei que você gostasse de gozar mais de uma vez na mesma transa.

– Não exatamente, porque depois que gozo fico muito sensível, precisando de um descanso.

– Hummm entendido então. Deixa comigo!

Essa conversa foi ótima, pois, ao retornamos para o apartamento, antes de sairmos para jantar, transamos novamente e ele ajustou esses detalhes, teve uma duração mais gostosa. Quando ele saiu do banho, vendo que finalmente tinha me ouvido e feito a barba para que não me pinicasse, quis agradá-lo e o puxei para mais uma rodada de sexo. Estava bem insaciável naquele primeiro dia.

Saímos para jantar num restaurante maravilhoso, chamado CVI.CHE 105. Aquela noite estava muito gostosa, fosse pela comida, pela nossa interação um com o outro – parecíamos um casal em lua de mel – ou pelo clima tropical de Miami. Estava tudo perfeito, até tiramos algumas fotos de casal na mesa do restaurante.

Saindo de lá, fomos dar uma volta, a pé mesmo, na Linconl Road. Ele fez algumas fotos minhas, já eu fotografava as coisas e lugares que passávamos.

Com o passar do tempo foi ficando tarde e depois decidimos que era hora de voltar para o apartamento.

Ao me trocar para dormir, fui presenteada com um vestido regata vermelho tão confortável, que logo entendi se tratar de uma camisola.

– Que camisola feia amiga. Usa suas coisas sexy. – Minha amiga reprovou, quando te enviei a foto do tal presente no meu corpo.

Realmente eu tinha levado uma camisola bem mais sexy da Victoria Secret, uma preta de cetim com renda, mas ele pareceu tão feliz e satisfeito ao me ver usando aquela roupa nada interessante que ele comprou, então o agradei.

*

Na manhã seguinte ele começou a me alisar pela manhã, mas fingi estar dormindo. Não que eu não quisesse transar logo cedo, mas minha pepeka ainda precisava se recuperar das três transas anteriores. Ele me disse que precisaria trabalhar durante a tarde, então me levou para almoçar fora e me deixou num shopping super chique, no mesmo estilo do Cidade Jardim em São Paulo, para que eu passasse o tempo. Não fiquei muito lá, pois as lojas eram muito caras e não quis ficar olhando coisas que eu não poderia comprar, sem me endividar. Minha amiga me falou de um Outlet chamado Marshalls, então fui para lá, andando, conhecendo a cidade e torrando naquele sol ardente de Miami.

Após quinze minutos de caminhada, cheguei e em poucos minutos explorando a loja, me dei conta de que não era tão especial assim.

– Mas menina, essa Marshalls é tão bombada assim? Essa aqui está as moscas, parece uma Americanas. Não vi nada de marca conhecida, só um sutiã da Calvin Klein.

– Menina, confundi com a Macys kkkkkk.

Bom… já que eu estava lá e tinha andado muito, resolvi me entreter ali mesmo. Acabei comprando algumas coisinhas, como uma pantufa para a minha mãe, um mocassim para mim – que nunca usei e depois acabei vendendo – um vestido de cetim preto e quatro blusinhas básicas. Chegou um momento que eu estava exausta de tanto provar roupa – a cada vinte peças que eu pegava, apenas uma ficava boa, os modelos eram muito grandes – e também ficando sem bateria. No exato momento que eu estava chamando um uber para ir à loja certa, ele me ligou, querendo saber como eu estava e se eu já queria voltar. Ele entraria em outra reunião logo mais, então eu tinha que decidir rápido se ele chamava um uber para eu ir embora. Acabei aceitando pois estava mesmo cansada. Ele me enviou a placa do carro, mas não poderia ficar de olho no meu embarque, pois a reunião começaria naquele instante. Quando saí na rua para acompanhar a chegada do motorista, me dei conta de que não conseguiria embarcar, pois a av. estava fechada, ou seja, o motorista não conseguiria me buscar ali. Droga. O jeito foi andar até uma rua próxima e chamar o carro eu mesma. O motorista que ele chamou ainda ficou tentando contato com ele, ligando enquanto ele estava em reunião, quis me ajudar e acabou se atrapalhando.

Quando cheguei no seu prédio, ele ainda não tinha reaparecido. Fiquei uns bons minutos esperando no hall, não pedi que interfonassem no seu apartamento, pois, sabia que ele ainda deveria estar em reunião e não queria atrapalhar, apenas lhe enviei uma mensagem, avisando que o esperava. Meia hora depois, quando veio me buscar na recepção, estava todo esbaforido e incomodado por ter me deixado tanto tempo esperando, mas o tranquilizei, estava tudo bem, tinha sido apenas um desencontro.

Naquela noite, antes de sairmos para jantar, tivemos mais uma sessão de sexo. Eu sou uma pessoa muito sexual e valorizo demais a qualidade do sexo num relacionamento, e por mais que estivesse fluindo muito bem entre a gente na cama, não pude deixar de perceber que, ainda que fosse bom, não era a melhor transa que eu já tive. Estava muito feijão com arroz, morno, sabe? Mesmo desenrolar de sempre, nada de novo acontecendo. Daí resolvi tentar trazer à tona um pouco mais das minhas preferências, no intuito de dar uma apimentada. Pedi que ele falasse algumas putarias, mas o tiro saiu pela culatra. O que era para ser picante, ficou um tanto broxante.

Mais tarde, me queixei com a minha amiga:

– Ai amiga o sexo não é incrível. Mediano.

– Você tava mais empolgada com o sexo antes. Por que mediano?

– Feijão com arroz. Hoje pedi pra ele falar algumas putarias.

– Ele falou??

– “Me encanta sentir-te”. Ai amiga kkkkkkk. Também não chupa os meus seios.

– Nem umas lambidas?

– Não amiga. A preliminar dele é ficar me masturbando. Mas ele já demonstrou interesse em querer saber o que eu gosto.

– Vamos elaborar essas preliminares. Esses detalhes são ajustáveis, precisamos falar o que gostamos, ensinar.

– Ainda mais que ele é gringo, né? Outra cultura, tenho que ser paciente.

*

Desta vez fomos jantar num restaurante Tailandês, chamado MOON THAI & JAPANESE CUISINE.

Não gostei tanto da comida. Pedimos comida japonesa, o gosto não estava extraordinário e ainda passei um pouco de frio lá dentro – devido ao calor úmido de Miami, todos os estabelecimentos possuem ar-condicionado e o desse estava muito gelado – , contudo, mesmo assim foi uma noite muito agradável! Conversamos bastante e demos muitas risadas. Ainda não estava apaixonada, mas caminhávamos para isso, uma vez que estávamos nos dando cada vez melhor.

Quando chegamos no apartamento, ele ainda precisaria trabalhar mais um pouco e eu acabei dormindo. Na madrugada, quando ele veio se deitar, começou a me alisar. Eu, que estava super embalada no sono, não gostei muito. Daí me levantei para ir ao banheiro, achando que isso cortaria a ação do momento, mas, quando retornei, ele continuou me alisando, então tive que ser mais incisiva. Delicadamente tirei a mão dele de mim e me queixei que ele estava me acordando. Ele parou. Deve ter ficado sem graça.

Na manhã seguinte transamos. Quando acordei ele já estava na sala trabalhando, daí fui lá atiçá-lo, animada para compensar o “chega pra lá” noturno. Rapidamente ele correspondeu as minhas investidas e fomos para o quarto. No meio do vuco vuco, ele, provavelmente se lembrando do meu pedido do dia anterior para que dissesse umas putarias, soltou espontaneamente:

– Me encanta sentir-te

Desta vez achei importante ajustar.

– Isso que você está falando não está legal, me soa muito romântico. Fala… – pensei em algo mais safado – “é gostoso foder você!” – Propus.

– Mas isso que você está falando é romântico.

– Não, não é! Rs.

– Para mim isso que soa muito romântico.

– Então não fala nada! – Desisti.

Custava ele apenas repetir e seguir com o momento? Daí tentei uma outra abordagem, falei que gostava de coisas mais selvagens, como puxada de cabelo e pegada no pescoço…

– Me trata como se eu fosse uma putinha. – Falei.

– Isso eu também gosto! – Finalmente deu match!

Daí fui conduzindo algumas posições. Pedi que me pegasse de quatro, depois de bruços, mas em algum momento começou a me machucar, por ele querer ir cada vez mais fundo, sendo que não tinha mais para onde ele ir, e eu com a cara colada no colchão, o que eu falava ficava inaudível. Enfim, trocamos para papai e mamãe, até que conseguimos gozar juntos, muito sincronizado, gostei bastante! No meu ponto de vista, apesar dos tropeços, tinha sido uma transa muito gostosa, mas acho que tivemos percepções diferentes do momento, pois, assim que gozamos, ele quis discutir a relação…

Desentendimento

Naquele momento delicioso e relaxado pós sexo, de repente, ele veio com um papo estranho, que eu custei a atender o porquê dele estar entrando numa discussão daquela.

– Nós estamos tendo problemas de comunicação. – Ele começou. – Eu não te entendo, uma hora você fala para ir forte, outra hora devagar, minha cabeça não entende. Fico sem entender o que você quer.

– Depois a gente conversa sobre isso, acabei de gozar, quero só curtir. – Eu não estava em condições de entrar numa DR naquele momento.

– Mas é importante falarmos sobre isso. Não estamos conseguindo nos comunicar.

Como não estávamos conseguindo nos comunicar se tínhamos acabado de ter uma transa tão gostosa?! Eu não queria acreditar que ele estava problematizando aquilo.

– Tá, mas eu não quero falar disso agora! – Finalizei firme, tentando salvar o último respiro de relaxamento.

Ele se calou. Percebi que não gostou muito. Ficamos um tempo deitados abraçados e cochilamos. Depois se levantou, antes de mim, pois precisava retomar o trabalho. Continuei deitada mais um pouco, até que veio me perguntar se eu gostaria de café da manhã, aceitei. Antes de sair do quarto, voltou no assunto:

– Estamos tendo uns problemas de comunicação.

– A gente pode conversar sobre isso depois.

Quando fui ao seu encontro, na cozinha, percebi que ele não estava muito receptivo, mal olhou na minha cara, pelo visto ainda ressentido pela situação. Fiquei olhando para ele até que nossos olhares se cruzassem e quando aconteceu, deu um sorriso rápido, forçado, aquele típico sorriso que damos sem a menor vontade, apenas por educação. Ele fazia duas coisas ao mesmo tempo, preparava o nosso café da manhã com frutas e um outro prato com ovos mexidos, similar ao que fez de almoço no nosso primeiro dia juntos.

– Você vai comer as duas coisas? – Perguntei, tentando puxar assunto.

– Não sei. Talvez sim. – Num tom não muito amigável.

Depois acrescentou que não teria tempo de cozinhar no almoço, então já estava adiantando. Reiniciei a conversa e falei que não entendia por que ele tinha dito aquelas coisas, pois para mim estávamos nos entendendo muito bem, que é normal durante uma transa não ser algo linear e querer coisas diferentes. Ele começou a fazer várias queixas sobre a nossa comunicação e instantaneamente o meu café da manhã foi ficando indigesto. “Por que ele está problematizando?” eu me indagava mentalmente. Não falei mais nada, só assentia com a cabeça.

*

– Menina as coisas deram uma azedada aqui.

Atualizei minha amiga.

– De repente as coisas ficaram meio estranhas, amiga. Ele todo sério. Complicado. Ele tava falando que ele deveria voltar para as aulas de português, que isso o ajudaria não só comigo, mas com o trabalho dele também… mas sei não menina, do jeito que desandou aqui, se continuar assim não vamos nos ver mais não. Deu uma pesada no clima. Não sei se ele também já estava incomodado de ontem à noite ter me alisado e eu ter dado aquele chega pra lá nele. Ai menina… nem tudo é perfeito.

– Eu também achei algo bem pequeno para tanta cara fechada. Vocês estão se conhecendo, não é para tanto. Tenta ir passear na praia amiga, sua viagem está muito ‘apartamento e restaurante’. Sai, vai espairecer, dá um espaço pra ele também. Anda na praia, vê as casinhas de salva vidas que são charmosas, toma um sorvete gostoso em algum lugar e vai curtir sua companhia amiga, conhecer coisas, turistar e bater perna mesmo sozinha! Deixa ele com esse suposto azedume sozinho aí, você está num lugar incrível! Depois ele se recompõe e quando você voltar já estará tudo bem de novo. Convivência é isso mesmo.

Fada sensata. Contraditoriamente, acabamos transando de novo, antes de me deixar na praia.

– Foi gostosinho, mas nada uau. Não acho que vamos pra frente. Ainda não tô apaixonada. Já estou com saudade da minha casa, dos meus gatos e das minhas coisas. – Continuei com a minha amiga.

– Ai amiga, tem coisas que não adianta forçar. Talvez, se fosse para ser, já estaria virando a chavinha da paixão e encantamento.

Ele me deixou na praia de South Beach, me mostrou um restaurante todo cor de rosa que eu poderia comer depois e rumou para o seu dentista. Aluguei uma espreguiçadeira e um guarda sol. Uma mulher ao meu lado, que também estava sozinha, puxou assunto, enquanto eu estava estirada tentando pegar um bronze.

– Precisa tomar cuidado. – Ela disse, em inglês.

– Com o que?

– Com esse sol. Você que é bem branquinha.

– Ah sim. Apenas vinte minutos de cada lado. – Falei.

– Brasileira?

– Como sabe?

– Pelo seu sotaque.

– E você é de onde?

– Sou de Nova York, vim para a casa de uns amigos.

– Ah sim.

– O que você está fazendo aqui? – Curiosa ela.

– Vim ficar com um cara que conheci num aplicativo de relacionamento. – Eu e essa minha mania de falar da minha vida para quem não conheço.

– Ahh legal. E está gostando?

– Estou sim.

Não entrei em detalhes que já tínhamos saído no Brasil ou que estávamos nos desentendendo aqui, muitos detalhes desnecessários para quem não tem nada a ver com a história.

– E onde ele está agora?

– Trabalhando. – Também não ia entrar em detalhes que ele foi ao dentista. Falar que está trabalhando sempre é justificável para muitas coisas, inclusive para não estarmos curtindo a praia juntos naquele momento.

Daí me virei para pegar sol de costas e o papo foi encerrado. Em outro momento ela me pediu para olhar as coisas dela, enquanto entrava no mar, o que me retribuiu para que depois eu pudesse me banhar também.

Mais tarde, quando bateu a fome, fui até a lanchonete que ele tinha indicado, chamada Big Pink. O garçom tentou tirar meu pedido umas três vezes, mas eu estava perdidinha com um cardápio tão extenso. Acabei pedindo um beirute, que não aguentei comer tudo e levei uma parte para casa. Para beber um drink chamado Piña Colada, que desde que ouvi no filme “De Repente 30”, sempre peço quando vejo no cardápio. Na hora de pagar a conta tive um pequeno conflito com o garçom, pois o dinheiro a mais que lhe entreguei foi para facilitar o troco e ele achou que era gorjeta. Eu não sabia dessa regra lá fora – enquanto aqui a gorjeta é opcional, lá é super ofensivo se você não der -, e de repente comecei a ser maltratada por querer o troco exatamente como calculei que voltaria. Se eu soubesse da regra da gorjeta teria deixado para lá, mas naquele momento senti que ele estava me roubando, querendo dar um de esperto, dizendo que eu tinha lhe entregado um valor menor do que realmente entreguei.

Peter me contatou. Somente naquele momento estava saindo do dentista. Avisei que estava na lanchonete que ele indicou, que tinha sobrado metade do lanche e ofereci para ele, já que se queixava de estar com fome, mas recusou, dizendo que tinha comida em casa e o jeito que ele falou me soou um pouco grosseiro, como se eu estivesse oferecendo resto para ele comer. Novamente entramos naquela questão de não conseguirmos nos entender direito. Perguntei se viria me buscar e entendi que ele precisaria passar em casa para comer antes, pois, passava mal quando ficava muito tempo sem uma refeição. Me sentindo completamente desabrigada, voltei para a praia e após dez minutos começou a chover. Por sorte eu tinha entendido errado e ele já estava indo me buscar direto do dentista. Assim que começou a chover mais forte, ele me ligou perguntando onde eu estava, pois já se encontrava parado no mesmo ponto que tinha me deixado mais cedo. Assim que entrei no seu carro, novamente ofereci o lanche, já que ele estava morrendo de fome, mas ele novamente recusou, pois, queria comer da sua própria comida fit. Eu preferiria comer o que tivesse, do que passar fome, se fosse ele, mas cada um, cada um, né?

*

– Eu dei uma broxada. Agora toda vez que não nos entendemos já me incomoda, depois do que ele disse passei a reparar mais. Nossa relação está muito no início, se é que viraria uma relação, daí como ainda tá começando, é muito cedo pra desentendimentos, isso já me broxa, porque não é uma relação sólida ainda. – Desabafei com minha amiga mais tarde.

– Acho que você não tá pronta ainda, talvez, e sendo de uma cultura diferente e também outra idade, já contribui pra falha de comunicação. Porque um cara de 48 anos com suas vivências, já te passou na maturidade. Acho que a questão do momento certo também é a chave! Aproveita com leveza tudo que for possível.

Mais tarde fomos ao mercado e o senti bastante frio. Saía andando sozinho na frente, sequer se preocupava de andar ao meu lado, o clima estava mesmo muito estranho. Fiquei um pouco emotiva com isso e quando estávamos voltando para casa, ainda no carro, tentei conversar sobre a frieza dele. Aparentemente nos entendemos. Chegando no apartamento, fomos transar para selar a paz na cama, mas quando eu estava quase gozando, ele broxou. Justificou dizendo que como estávamos transando todos os dias, ele precisava de um descanso, mas acho que broxou pelo todo.

Por volta das 22:25 ele queria cozinhar. Eu já estava com sono e sugeri deixarmos para outro dia, afinal, onze horas da noite não é horário de janta. Ele disse que no seu dia a dia sempre treina a noite e que é comum na sua rotina jantar mais tarde. Ou seja, novamente entramos num impasse. Eu costumo jantar oito horas da noite, para as onze já estar me preparando para dormir. Visivelmente ficou chateado. Costumes diferentes é mesmo complicado. E como se isso tudo já não fosse o bastante, naquela mesma noite, ainda tivemos uma discussão acalorada. Eis a nossa primeira briga.

C O N T I N U A

Nem Todo Gringo é Um Bom Partido – Parte 4

COMUNICAÇÃO A DISTÂNCIA

Ele realmente me ligou quando chegou no aeroporto e, pasmem, a ligação durou 11 minutos! Eu não estava com expectativas que manteríamos contato até a sua volta ao Brasil, mas ele sempre entrava em contato.

– Olá.

– Oie. Chegou bem de viagem?

– Sim. Como está você? – Nesse momento me enviou duas fotos, mostrando a vista incrível do seu apartamento.

– Também estou bem, correndo com os preparativos da viagem. – Eu viajaria para Paris em poucos dias. – Que mar lindo! Que alto! – Comentei sobre as fotos que me enviara.

– Andar 47.

– Seu trabalho? – Não temos prédios residenciais tão altos no Brasil, então achei que fosse a vista de um prédio comercial.

– Meu apartamento. Lembra que eu trabalho da minha casa?

– Lembro sim. Mas achei que você tivesse que ir na empresa uma vez por semana, sei lá.

Daí ele me enviou uma foto da mesa de escritório dele, enorme, com duas telas de computador, um tablet, vários posts it, xícara de café quase vazia, enfim, um verdadeiro caos. Complementou com um áudio, explicando sobre a empresa em que trabalha ser localizada na Suíça, como também contou alguns detalhes sobre a sua rotina de trabalho.

– Não lembrava que ficava na Suíça! Mas que bom, trabalhar remoto em tempo integral te dá mais liberdade de fazer seus horários, né?

Daí ele me ligou. Assim, do nada. Eu estava chegando na minha aula de percepção musical, então não atendi e avisei que tinha chegado na aula.

– Sorry. Apenas explicar a você. Mal-entendido de não me entender. – Que mal-entendido ele estava falando? Eu já tinha entendido tudo. – Eu moro em Miami. Trabalho para uma empresa que está na Suíça. Eu vou a Suíça umas 4 ou 3 vezes por ano, mas em Miami sempre trabalho da minha casa, do meu apartamento. Espero que você me entenda bem. Beijo. Bom dia.

Que mensagem mais estranha. Ele não precisava justificar tudo aquilo novamente e ainda finalizar mandando beijo e bom dia, quatro horas da tarde. Sério que esse era o motivo da ligação?

– Fica tranquilo, eu já tinha entendido desde a primeira vez que você falou. Mas muito fofo – estranho – da sua parte querer me ligar para explicar isso. – Ele se estendia em alguns assuntos desnecessários, repetitivo.

A noite nos falamos em ligação novamente, um papo leve, sobre coisas aleatórias. No dia seguinte, ele seguiu conversando:

– Olá Sara. Espero que você esteja bem e que esteja tudo pronto para a sua viagem. Beijo e abraço.

– Olá querido! Como foi sua viagem ao México? – Ele iria para o México visitar a mãe e fazer um procedimento estético no couro cabeludo. – Ainda tenho que fazer as malas!

– Minha viagem foi bem cansativa. Ontem fui à academia e voltei tarde. Depois jantei e fiz minhas malas. Dormi às 2h da manhã e despertei 5:10 para ir ao aeroporto, porque meu voou era às 8h. Cheguei às 10 em ponto no horário do México e fui almoçar com a minha mãe. Agora de volta na casa dela, vou trabalhar. Espero que esteja tudo bem com suas malas e os preparativos da sua viagem. Beijos. – Ele tem uma mania de ficar finalizando a conversa com “beijos” sendo que vamos continuar conversando.

– Caramba você está corrido hein, desde ontem você fez muita coisa, pouco tempo para dormir e descansar… você deve estar exausto, né? Foi bom matar a saudade da sua mãe? Já vai fazer o procedimento amanhã?

– O procedimento será na quinta, amanhã é o exame de sangue.

– Muito bom! Ansiosa pra ver como vai ficar o cabelo novo!

– Eu também.

– Já ouviu falar de uma peça em Nova York chamada “Sleep No more”? – Uma hora depois, resolvi resgatar a conversa com outro assunto.

– Noup. Soa interessante.

Ele nunca ouviu falar e sequer perguntou mais sobre o tema e já fez o assunto voltar para ele:

– Desculpa, estava muito cansado e dormi por uma hora. A casa da minha mãe tem quatro cômodos, então eu sempre que estou aqui fico no mesmo quarto. Tenho dormido, mas agora estou trabalhando e tenho que ir a costureira, porque tenho uma roupa que eu preciso apertar, mas agora estou aqui trabalhando. Um beijo, espero que você esteja bem, ao ponto de arrumar suas coisas. Um beijo.

Sim, o áudio dele foi exatamente assim, uma mistura de assuntos desconexos. Ignorei tudo que ele disse e voltei no assunto que eu estava falando antes, enviando um link em que fala melhor da experiência imersiva, Sleep No More.

– Duas pessoas já me falaram dessa peça. É um teatro imersivo. – Insisti.

– Lindo. 😍 Macbeth de Shakespeare. Outro em Miami. Nocturna. – E me enviou um link falando de um outro parecido com o que indiquei, só que em Miami.

– Imersivo também?

– Não sei. Mas tema interessante e show acrobático também. Um pouco de horror com um pouco sexy. Tema interessante penso. Em Miami e podemos ir juntos.

– Parece bem promissor!! Gostei.

Quando enviei a indicação do Sleep No More, fiquei com a esperança de que ele se animasse ao ponto de irmos até Nova York assistir, afinal, o que são 3 horinhas de voo, quando você já está nos Estados Unidos? Mas pelo visto ele não teve essa ideia e já pesquisou por algo parecido em Miami mesmo.

– Me anima muito fazermos programações de casal em Miami – Falei, igual uma emocionada.

– Claro! Eu te vejo como uma pessoa especial pra mim.

– E você pra mim! Estou achando muito legal continuarmos mantendo contato a distância.

– Igualmente.

– Que horas são aí agora?

– 8:24 pm. E para você?

– 11:25 pm. Pouca diferença.

– Sim. Que descanses baby. Beijo.

– Você também. Um beijo.

Eu viajaria para Paris no dia seguinte e no outro dia ele mandou uma nova mensagem:

– Boa viagem. 😘 Beijos.

– Oii Peter. A caminho do aeroporto agora. Muito obrigada!!

– Ok. Muito bom.

Aí, do nada, a conversa começou a ficar estranha, com ele dizendo:

– Muitas vezes não entendo você e sua maneira de se comunicar comigo. Mas, tudo bem, penso que tenho que ir direto ao ponto com você. Desejo que tenha uma boa viagem. Divirta-se. Tchau.

Oi? Do que ele estava se queixando se estávamos conversando normalmente? Alguém me explica? Mostrei essa mensagem para três amigos, que também ficaram confusos. Ele queria que eu fosse mais romântica, é isso?

– Mas o que você não entendeu? Gostaria que eu conversasse mais? Eu fico com receio de estar te atrapalhando, por isso espero que você mande primeiro. Mas, se quiser, posso falar mais do meu dia sim. – Ele que nunca pergunta, uai!

– Olá. Desfrute sua viagem. Falamos quando você voltar ao Brasil.

Três minutos depois, me enviou um áudio de dois minutos:

– Olá Sara, não, não é que você vai atrapalhar não, eu preciso disso, como eu falei com você, eu mostro muito, mas preciso que você mostre muito também. – Isso vindo de um cara que só fala de si e nunca pergunta das minhas coisas. – Então, não quero agora te preocupar com nada, quero que você tenha uma excelente viagem, passe muito bem, muito legal – se quisesse isso mesmo, não viria com essa DR justamente quando estou no aeroporto toda empolgada – Quando você conhecer um pouco de mim, verá que eu sou muito expressivo, eu gosto de ser carinhoso e terno, mas eu preciso receber o mesmo. Possivelmente você não é assim – isso me soou ofensivo, me chamando de fria na cara dura – e tenho que te conhecer e descobrir, então eu percebo que a comunicação com você é um pouco fria. – Fria? Estou sempre puxando assunto e dando corda para os assuntos dele!! – Mas pode ser que você é assim e se você é assim, está bem, eu tenho que entender, mas eu também tenho que ser da mesma maneira que você. – Ah sim, por que se eu for uma pessoa estúpida e cretina, ele também vai ser? Que papo mais nada a ver! Cada um deve dar o melhor de si e não se igualar ao outro – Isso é tudo. Não estou irritado, não estou bravo, não é uma briga, – imagina se fosse – não é nada, tudo bem. Somente, como falei, vou ser e escrever a você como você é comigo. É assim. Mas se você me pergunta como eu gosto, eu sou mais expressivo, sou mais carinhoso, mas está bem! Somente quero ir ao mesmo ritmo que você. Ok? Espero que você tenha uma excelente viagem e que seja tudo divertido, que você aproveite em Paris e que tenha momentos incríveis. – Me pareceu recalcado. –  Um beijo e nos falamos depois, quando você voltar, cuide-se muito. Passe bem. Beijos. Tchau.

Olha, hoje, olhando em retrospecto para todos esses detalhes do passado, enquanto escrevo esta história, percebo tantos sinais ignorados por mim mesma. Eu estava tão empolgada com o novo, o diferente, que não me atentei que isso não daria certo se já começava desse jeito, com essas cobranças.

– Oie. Eu não sou fria não – tentei responder de um jeito descontraído, definitivamente não estávamos tendo a mesma percepção da situação -, eu busco entender qual o ritmo da pessoa, pra não sentir que estou sendo a emocionada da história ou sufocando o outro. Mas já que você gosta de um contato mais diário – como se já não estivéssemos tendo – , por mim tudo bem. Vamos conversando mais sim. Estou na fila do embarque com a minha amiga.

– Olá Sara, eu não estou precisando de uma comunicação diária, eu gosto de uma comunicação de qualidade, não de quantidade. Então, pode ser pouco, que é o que acontece quando as pessoas estão longe, mas se expressar muito, com carinho, ternura, isso é bonito. Não tem que ser diário, nem todo o tempo, não!! Somente que seja bonita, terna, sem medo, penso que é assim que deve ser. Isso de ambos os lados, do seu também. Eu estou bem, não estou bravo com nada, simplesmente faço as coisas como eu vejo que as coisas são dadas para mim. Espero que você me entenda e se não, como falei, podemos falar quando você voltar, sem problema. Um beijo, tchau. Boa viagem.

Ele vai me desejar boa viagem mais quantas vezes?! O cara estava me cobrando mais romance nas mensagens? Ele não sabia que as coisas precisam fluir naturalmente, de maneira leve, sem esses scripts pré-definidos por ele? O sentimento precisa de tempo para ser desenvolvido, não vou trocar mensagens de amorzinho com quem ainda estou conhecendo! Francamente, viu. Sério, onde eu estava com a cabeça que não me liguei em todos esses detalhes do comportamento dele?

Cinco horas depois, sem qualquer resposta minha, ele me enviou mais mensagens:

– Espero que você chegue bem ao seu destino.

– Tem toda razão, concordo com você. Conversas de qualidade, não quantidade. Já faz um tempinho que chegamos no aeroporto de Paris. Perdemos um tempinho no banheiro carregando o celular, nos arrumando, escovando os dentes e aí agora vamos pegar a mala e ir atrás do cara do transfer do hotel.

– Tranquilo. Desfrute sua viagem. Beijo. Have fun. 🙂

*

Continuamos nos falando, todos os dias, um pouco, durante a viagem. Vez ou outra ele compartilhava fotos do seu dia e eu retribuía.

– Você me gusta muito… sabia?

– Você também me gusta. – Retribui.

*

Depois que voltei da viagem de Paris, alguns dias se passaram, até que, surgiu o convite para que eu fosse passar uma semana com ele em Miami.

– Acho que seria bom convivermos alguns dias para nos conhecermos melhor. – Ele disse.

– Me parece uma boa ideia. Mas como seria? Você compraria a passagem?

– Certamente. Eu cuidaria de tudo e você se hospedaria em minha casa.

Fiquei bastante animada com a ideia. Já tinha ouvido tantas histórias de mulheres que conheceram um gringo, se apaixonaram, casaram-se e viveram felizes para sempre em outro país, parecia muito a possibilidade de viver um conto de fadas. Talvez fosse o meu momento de viver algo assim também.

Ele propôs algumas datas e definimos uma que fosse dali a vinte dias, o tempo ideal para eu me organizar financeiramente para essa viagem. Seriam umas férias improvisadas, ficaria uma semana com ele, sem trabalhar, então precisava deixar tudo organizado por aqui.

– Estou muito contente e emocionado com a sua vinda.

– Eu também estou muito animada! – E estava mesmo.

Enviei a foto do meu passaporte e no dia seguinte já recebi o e-mail com a minha passagem aérea. Seguimos nos falando todos os dias, por mensagem e chamadas de voz, até que chegou o grande dia!

C O N T I N U A . . .

Nem Todo Gringo é Um Bom Partido – Parte 3

Terceiro Encontro

Decidi encontrá-lo novamente e o convite para um almoço acabou virando treino juntos, já que lhe mandei mensagem logo pela manhã, aceitando encontrá-lo, e ele já quis me encontrar naquele horário mesmo. Conscientemente eu queria ir, mas, inconscientemente, algo dizia que não, cuja teoria foi reforçada ao sair da cama, quando bati meu joelho no guarda-roupa. Como se isso não fosse estranho o bastante, alguns minutos depois outra obscenidade aconteceu, quando eu estava me maquiando no espelho do banheiro. Começou com um som quase inaudível, até que, um segundo depois, antes que eu pudesse raciocinar de onde possivelmente vinha aquele barulho, o meu exaustor do banheiro despencou em cima da minha cabeça!! Sério, foi muito assustador! Parecia que uma coisa do além estava vindo me buscar! Meu coração quase saiu pela boca! Fui contar para a minha amiga os sinistros acontecimentos, achando que ela me apoiaria na minha teoria da conspiração, mas não…

– Toda hora você está inventando um negocinho, tá parecendo uma maluca. Vai logo nesse encontro! O exaustor já deu problema antes.

Enfim, eu fui!

Quando cheguei no hotel que ele estava hospedado, Meliá do Ibirapuera, ele já me aguardava na recepção e subimos até a suíte para eu deixar as minhas coisas, antes de irmos para a academia. Ao adentrarmos no quarto, o plano era realmente só deixar a bolsa, junto com a minha jaqueta, mas, não sei por que, ele colocou uma música para tocar em seu laptop. Disse que precisava procurar alguma coisa, mas percebi que era só pra ganhar tempo. Após a melodia iniciar, se voltou para mim e foi inevitável não rolar um clima.

Se aproximou devagar e lentamente começamos a nos beijar. Pude ouvir uns grunhidos vindo do fundo da sua garganta, como se fosse algo que ele ansiava muito acontecer. Aos poucos suas mãos começaram a passear pelo meu corpo, por cima da roupa de ginástica, até que, aos poucos, foi me despindo. Ele estava focado em me seduzir, então, ao me deitar na cama, se apressou em me agradar do jeito que se agrada uma mulher na intimidade. Seu sexo oral não foi o melhor que já recebi, mas valorizei sua dedicação. Na sequência partimos para a penetração, as preliminares encerraram ali.

O sexo durou um tempo considerável, ele não foi muito afoito, como também não durou uma eternidade. Gostei do timing, transas muito longas são exaustivas e para isso eu preciso estar com imenso tesão na pessoa para curtir tantos minutos a fio na atividade. Não que eu não estivesse com tesão nele, foi gostosinho, mas longe de ser aquela paixão arrebatadora.

Me bateu um soninho depois e como o quarto estava um pouco frio, nos cobrimos e cochilamos juntos. Após o que acredito ter sido meia hora de sono, despertamos quase ao mesmo tempo, iniciamos uma conversa, e o segundo round desenrolou naturalmente. Depois houve uma terceira rodada e então saímos para almoçar pela região. 

*

– Transamos 3x. Agora vamos almoçar, ficaremos juntos até ele ir embora. Menina, ele já está falando de eu conhecer a família dele! Disse que está há muito tempo sozinho, que quer fazer muitas coisas comigo em Miami. Ele tem um corpo muito bonito, muito inteiro amiga! O peitoral dele é do jeitinho que eu gosto, malhado, a barriga não tem gominhos, mas é bem sequinha. O negócio dele é médio, não muito grande, mas também não é pequeno. Se dedicou em mim de primeira, nem foi preciso eu retribuir e já partimos para o abate. Depois cochilamos juntos e conversamos bastante. Ele já até me ensinou um pouco de espanhol.

Fiz um resumão para a minha amiga, enquanto ele estava numa ligação de trabalho.

– Mas ainda não estou encantada. Talvez eu precise trabalhar essa questão do merecimento. Sempre comentei que seria muito história de filme conhecer um gringo, bem-sucedido e tal, ele é tudo isso e bonitão, o que mais estou querendo? Se tudo que ele me falou for verdade, se ficarmos juntos teremos muitas experiências legais a dois. Quer me levar para esquiar, para conhecer a mãe dele no México e ainda disse que vamos “bailar” kkkkk. Você acredita que dançamos salsa no quarto? Foi muito fofinho. Mas não estou iludida não, até porque nem estou tão encantada assim ainda.

– A transa foi boa? – A pergunta mais importante de todas.

– Foi sim. Ele tem bastante disposição, nem tive trabalho, só curti.

*

Seis horas depois…

– Estou aqui ainda. Ele está se arrumando para ir embora. Transamos muito amiga! Um saldo final de 5x! Estou gostando mais dele. Espírito jovem, parece ser uma pessoa legal, me contou bastante coisa sobre ele. Menina, não fiz oral nele ainda, acredita? Vamos descer para tomar algo no bar do hotel, após ele fazer o checkout. Aproveitando até o último instante. Você acredita que ele já me deu dois apelidos? Loquita e Nag (que em português quer dizer ranzinza) kkkkk. “Loquita”, por eu ‘tira casaco e coloca casaco’ toda hora que sinto calor e frio e “Nagging” por eu ficar reclamando da barba dele arranhando a minha pele, fiquei toda vermelha, tive que pedir para que nas próximas vezes ele a faça no dia e não na noite anterior, para que não me pinique. Ele é um tipão amiga! Bem-vestido, vaidoso, cheiroso… Obrigada pelas palavras que você disse ontem, sobre eu estar me autossabotando. Acordei pensando naquilo e me incomodou. E se causa desconforto é porque temos que dar atenção para o que está sendo dito.

– Que reflexiva. Claro, amiga, você foi no segundo encontro por alguma razão e tava se bloqueando sei lá por quê.

*

Foi uma despedida bem gostosa, tomamos a saideira no bar do restaurante. Desta vez ele não pôde chamar o Uber para mim, pois precisou chamar para si mesmo, rumo ao aeroporto. Disse que me ligaria antes de embarcar. Voltaria dali um mês. Será que não sumiria mesmo até lá?

Nem Todo Gringo é Um Bom Partido – Parte 2

Primeiro Encontro

O achei bonito. Um pouco mais velho do que nas fotos, mas, ainda assim, bastante apresentável e atraente. No entanto, não rolou aquele encantamento da minha parte.

O restaurante estava com fila, tivemos que esperar alguns minutos de pé, na escada da entrada, e aproveitamos esse tempo para nos conhecermos, já que mal conversamos pela internet. Descobri que seus funcionários também estavam jantando naquele restaurante e ele estava achando engraçado que nos vissem naquela situação de primeiro encontro. Ele me contou mais sobre o seu trabalho, falei um pouco da minha trajetória profissional também, como atriz e jornalista fake (obviamente não contei que era acompanhante de luxo) e em algum momento nos chamaram para nos encaminhar a nossa mesa. Coincidentemente, a mesa que nos acomodaram era justamente ao lado da mesa que estavam os seus três funcionários. Ele riu da coincidência.

Conversamos sobre muitas coisas. Ele é de touro com ascendente em escorpião, sem filhos e teve três relacionamentos ao longo da vida. Uma namorada alemã, muito fria, zero amorosa, cuja personalidade ele atribuiu a cultura do país dela. Foi casado por anos com uma venezuelana, casamento esse que fracassou quando ela descobriu que tinha endometriose e não conseguiria ter filhos. A terceira e última namorada, uma italiana temperamental, que exigia que ele fosse morar na Itália com ela.

– Eu me cuido, tenho um trabalho bom, sou uma pessoa legal e como é difícil encontrar alguém. – Ele disse.

Concordei internamente, pois também noto essa dificuldade de encontrar alguém legal e compatível. Todo sincerão, revelou que a troca do restaurante, não foi porque ele concordava que uma comida japonesa fosse mais leve para a noite e sim porque depois que mandei a mensagem, pedindo que ele me enviasse um áudio, ficou desconfiado de mim também e trocou em prol de si próprio, pois caso nosso encontro fosse por água abaixo, ele pularia para a mesa dos seus funcionários, após eu ir embora. Achei um tanto desnecessária essa revelação.

Em outro momento, quando meu drink acabou e lhe perguntei se podia pedir outro (tive esse cuidado, pois, obviamente, não seria eu que pagaria a conta), ele elogiou demais a minha postura, acrescentando que em Miami – onde ele mora – as mulheres se comportam completamente diferente, como se o homem fosse obrigado a pagar tudo, então já iam pedindo mais e mais coisas, sem se preocupar com o bolso de quem estava pagando.

Percebam que aqui já tive um pequeno sinal de que, talvez, ele fosse um pão duro. Sempre precisamos nos atentar aos sinais. Guardem essa informação para mais tarde.

– Pode pedir o que você quiser! – Ele autorizou.

Coincidentemente, quando estava com ele nesse restaurante, cujo lugar eu nunca tinha ido na minha vida, encontrei minha ex-chefe do passado, uma mulher que trabalhou comigo no meu segundo emprego, em 2011! Encarei aquilo como um ótimo presságio, como se fosse uma mensagem do universo, dizendo que seria bom me relacionar com ele.

Fomos os últimos a deixar o restaurante. Tivemos uma conexão legal. Ele, gentilmente, chamou meu uber de volta para casa e não propôs de esticarmos o encontro, o que achei muito positivo. Na despedida rolou apenas um selinho, por iniciativa minha. Já deixamos combinado um segundo jantar para dali a dois dias.

Segundo Encontro

Desta vez fomos num restaurante italiano. Ele se atrasou. Fui acomodada no balcão, enquanto a mesa não estava disponível. Ele chegou todo bonitão e cheiroso, realmente sabia vestir-se muito bem. Usava uma roupa social e casual ao mesmo tempo. Após sua chegada, ficamos pouco tempo no balcão e logo fomos acomodados na mesa. Tudo ia muito bem, até que começou a ir mal. Assim que pude, pedi licença para ir ao banheiro e já enchi minha melhor amiga de mensagens:

– Vim no banheiro. O papo ficou um pouco estranho com o gringo. Me senti um pouco pressionada a me relacionar com ele. Dizendo que com a ex-esposa dele já no primeiro encontro rolou tudo e sabiam que queriam ficar juntos, como se eu tivesse fazendo algum joguinho. Não gostei disso. Falei que ainda estamos nos conhecendo, que é o segundo encontro e tal. Ele vai embora amanhã e volta daqui um mês. Estou um pouco alcoolizada do vinho, mas tenho certeza de que estou tendo uma percepção clara das coisas. Me pareceu que queria ter garantia de sexo depois. Ele veio com um papo de que o homem já sabe de primeira se a mulher é para algo casual ou se será alguém importante na vida dele, mas que se a mulher fica desconfiada e com medo de se entregar, automaticamente muda na cabeça do cara, a percepção sobre ela. Não gostei desse papo, isso depois de eu dizer que sou mais cautelosa para me envolver. Me remete a caras que só quer transar e está tentando manipular para conseguir isso. O clima na mesa mudou um pouco. Ele tá mais sério e desanimado. Dei uma broxada. Claro que já transei em primeiros encontros, mas ele não me despertou essa vontade e estou cansada de ter transas vazias.

– Quanto de vinho você bebeu? – Minha amiga perguntou.

– Duas taças.

– Você está certa de não querer se entregar para qualquer um e não somos obrigadas a nada! Lembre-se do meu exemplo, como o menino lá foi tosco comigo porque eu não quis transar. Como entraram nesse assunto?

– Ele perguntou o que eu queria para a minha vida. Eu não tenho um plano definido. Eu sei o que eu quero, mas não fico estipulando prazos para isso. Eu sei que um dia quero casar e ter filhos, mas não fico obcecada procurando um marido, deixo as coisas acontecerem naturalmente. Aí foi daí que ele entrou nesse papo, acho que me achou muito vaga na resposta.

– Ahh entendi. Se você também não sentiu atração amiga, não é pra ser! Me dá notícia.

Voltei para a mesa e tentamos resgatar um clima agradável. Ele falou sobre seu apartamento em Miami, que seria legal eu ir passar uma semana com ele para nos conhecermos melhor, que poderíamos fazer algumas atividades juntos, como ir assistir alguma peça, praticar algum esporte juntos, coisas desse tipo, o que me soava muito como historinha de conto fadas, como se ele esperasse me deslumbrar com esse cenário. Quem convidaria uma estranha para uma semana, aparentemente incrível e promissora, em Miami? Alguma coisa não me cheirava bem, sou muito desconfiada.

Após algum tempo de conversa, comecei a ficar com sono. Tinha acordado cedo naquele dia e o jantar não estava mais tão empolgante. Ele quis salvar o encontro, me convidando para esticar no seu hotel, mas eu já tinha dado uma bela desanimada, fora o álcool e o sono, tudo que eu não estava era empolgada para me exercitar transando. Recusei o convite, mas o beijei em algum momento na mesa, o que foi super bem recebido por ele. Me convidou para almoçar no dia seguinte, antes dele ir embora. Não dei certeza de que sim, mas também não disse que não. Novamente chamou um uber para que eu fosse embora e permaneceu no restaurante sozinho.

*

– Está desconfiada mesmo do cara, hein amiga? Cismou com ele, que coisa!

– Estou desconfiada porque parece ser bom demais para ser verdade. Um cara rico, bonito (apesar dele ter 48 anos não aparenta ter a idade que tem), inteiraço, gringo e tal, querendo algo sério assim? Sendo que nem nos conhecemos direito para dizer que já está apaixonado. Até onde ele realmente está falando a verdade?

– Aceita amiga. Eu não tô entendendo tanta desconfiança. Se sabotando. Ele não está te pedindo em casamento, você pode dar uma chance. Ele vai te dar um golpe de te levar pra cama? Talvez, se fosse um brasileiro você já teria ido. Está criando coisas na sua cabeça amiga, paranoias. É aquela questão do merecimento. O cara parece ser super legal. Você vai analisando, você não é burra. Só que você já está se sabotando, impedindo que as coisas aconteçam. Amiga, relaxa, vai almoçar com ele amanhã, relaxada, sem pressão de nada. O cara falar que quer algo sério, não quer dizer que ele vai te levar para o altar amanhã. Ele só falou o que ele deseja, um relacionamento sério, não necessariamente com você, também está sendo analisada.

Fui dormir e acordei com aquelas palavras martelando na minha cabeça. Será que eu estava mesmo me autossabotando de conhecer alguém legal e viver uma linda história de amor?

Nem Todo Gringo é Um Bom Partido

Eu já ouvi muitas histórias sobre mulheres que conheceram um homem gringo, bem-sucedido e maravilhoso, que se apaixonaram, casaram e foram morar no país de origem dele. Para mim isso soava muito como história de conto de fadas. Eu não conhecia ninguém que tivesse passado por isso, até ter a minha própria experiência.

Se relacionar com um gringo pode soar muito instigante num primeiro momento, afinal, é charmoso alguém que fala outro idioma ou que tenha nascido em outro país. Mas, se relacionar com uma pessoa de uma cultura diferente é muito mais desafiador do que uma religião ou classe social diferente. Não ter os mesmos costumes influencia bastante na convivência, pois, algo que pode ser ofensivo para você, pode não ser para o outro e vice-versa. Outra questão importante a ser observada é: como a mulher é vista na educação que esse homem teve? Muitos pontos precisam ser analisados e muito bem alinhados para que não haja atritos no relacionamento.

Sou uma mulher solteira, livre, desimpedida, em busca de novas aventuras. Me envolver com um homem que não fosse brasileiro não era exatamente a minha meta de relacionamento, mas, a oportunidade se apresentou e eu pensei: “Por que não?”

Parte 1

Nos conhecemos num aplicativo de relacionamento. Não, não foi no Tinder. Por sugestão de uma amiga e alguns seguidores, decidi experimentar o Bumble, que diziam ser mais elitizado, com pessoas mais bonitas e etc. Voilà, demos match! A descrição do seu perfil dizia o seguinte:

Ele era bem mais velho do que eu. 48 anos, mas você jamais diria que ele tinha aquela idade. Se exercita bastante, desde os 11 anos, pratica hóquei no gelo, voleibol, tênis e academia todos os dias. Seu corpo era de causar inveja em muito novinho. Pele bronzeada, umas coxas lindas, peitoral saltado, barriga chapadinha, mais sarado de que todos os caras com quem já me relacionei. A única coisa que, talvez, entregasse um pouco a sua idade, eram as ruguinhas na região dos olhos, mas nem um fio de cabelo branco para contar história. Nossa conversa pelo aplicativo foi bem sucinta e rapidamente me enviou seu número de telefone.

E já me enviou seu número de telefone, sem eu ter pedido. Confesso que achei um pouco precipitado. Levei uns dois dias para salvar seu número e enfim lhe enviar uma mensagem.

– Olá! Sara do Bumble aqui. Tudo bem com você Peter?

– Olá. Sim.

E de repente me ligou! Simples assim. Óbvio que não atendi, coisa mais estranha ligar para o outro sem o menor nível de intimidade ou aviso prévio. Não falamos nada após a recusa da chamada e três horas depois me fez o seguinte convite:

– Boa noite. Eu chego a SP terça feira. Espero poder jantar com você.

– Terça à noite tenho aula de canto.

– Quarta? Ou quinta?

– Quinta pode ser.

E a conversa morreu aí. Três dias se passaram sem que conversássemos, até que na véspera do suposto jantar, me enviou uma confirmação:

– Olá Sara. Bom dia. Espero que sua semana esteja bem. Espero podermos jantar amanhã. Beijo.

– Oi Peter, bom dia. Podemos jantar sim.

– Perfeito. Bom dia para você. Beijo. Você gostaria de carne? Me avisa ou se gosta de outra coisa. Beijo. – Jeito estranho de conversar, dizendo beijo toda hora.

– Gosto da sugestão.

– Perfeito. Beijo.


*


No dia do jantar me bateu a maior preguiça de encontrá-lo. Não era uma pessoa que eu estava muito empolgada para conhecer, diante da total falta de assunto.

– Olá. A que horas você pode?

Ignorei. Duas horas depois ele tentou novamente.

– Olá.

Achei melhor responder.

– Olá Peter, boa noite. Estou um pouco insegura de ir encontrar alguém que eu mal conversei. Poderia me enviar um áudio para eu ouvir a sua voz?

Daí ele me enviou um áudio de 47 segundos, falando português, mas carregado de sotaque espanhol:

– Olá Sara, estou aqui em Offner café, com o pessoal do trabalho, estou aqui afora. Eu não falo perfeito português, pero, si, eu posso falar. Eu queria ver se você quer, se vamos ir a jantar e… eu não sei como você pensa. Entendo que você pensa que é complicado, difícil demais. Se você quer falar comigo ou se quer uma vídeo chamada, eu estoy bien, eu posso falar um poco com você, para que você se sinta bem, você me avisa.

Depois acrescentou por escrito:

– Se quiser falamos por telefone ou vídeo chamada.

Vídeo chamada? Até parece que eu, que estava toda largada e descabelada na cama, sem nenhuma maquiagem, faria uma vídeo chamada com alguém. Agradeci pelo áudio e respondi que já tinha sido o suficiente, não necessitando fazermos uma chamada.

– Podemos combinar para 20h? O que acha? – Sugeri.

– Está bem para eu.

– Combinado então.

– Só penso que você deve estar insegura porque penso que você agora não está convencida de conhecer-me e eu não gostaria sentir-me incomodado porque você este incomodada.

Do que ele estava falando? Eu já tinha dito que o áudio tinha sido o suficiente e que podíamos seguir adiante com o encontro.

– Não entendi.

– Só quero saber se você está segura de nos conhecermos. Você pode falar rápido por vídeo chamada?

Que insistência pela vídeo chamada! Decidi lhe enviar um áudio também.

– Oi, vou mandar áudio igual você fez, tá bom? Vídeo chamada não. Eu vou começar a me arrumar aqui, então te encontro às 20h, tá bom? Até daqui a pouco.

– Você prefere Japonês, melhor? Ou carne está melhor para você?

– Acho que comida japonesa, à noite, é mais leve! Gosto da mudança.

– Perfeito. Eu também prefiro japonês. Te encontro em Djapa às 8pm. Beijo.

– Combinado, até lá! Beijos.

Preparados para esse primeiro encontro? 👀