
Primeira Briga
Estávamos sem grandes planos para aquele resto de noite, então ele sugeriu assistirmos uma ‘película’ – filme em espanhol – em casa. Topei de bom grado, seria legal termos uma programação mais amorzinho juntos diante de tantos tropeços. Daí ele me entregou seis filmes em DVD que ele tinha comprado. Eu achei que fôssemos escolher um filme juntos, na Netflix, com infinitas e variadas opções, não que fosse restrito a filmes que ele já tinha comprado. Mas tudo bem, não criaria caso por conta disso, só questionei se aqueles filmes teriam legendas em português e ele respondeu que achava que não.
Muito legal.
Daí ele ligou a TV e já estava passando Pearl Harbor, um filme muito bonito por sinal, que mesmo pegando pela metade e sem entender muitas coisas – já que estava em inglês e sem legendas – ainda chorei no final. Quando esse acabou, ele me entregou os filmes para que eu escolhesse e conforme eu olhava capa a capa, para escolher o que mais me agradava, notei que todos eram finos. Pensei: “Nossa, estão aderindo capas slim agora?” A qualidade das imagens no papel estava impecável demais para pensar que eram filmes pirata. Porém, quando abri o DVD do filme que eu tinha escolhido, “DOG” com Channing Tatum, notei pelo CD que não era original. Você vai me achar uma chata, mas aquilo me indignou de certa maneira. Primeiramente porque sou atriz e sei o quanto o comércio de filme pirata é desleal com o trabalho de todos os envolvidos naquela produção. Segundo porque tenho coleção de filmes originais em casa, o que só reforça o meu desprezo por filmes ‘do Paraguai’. Não consegui ficar quieta e soltei um comentário sarcástico:
– Filme pirata? Então você incentiva a criminalidade? Rs.
Ele disse que sempre comprava de um senhorzinho quando ia ao México. Que eram filmes que ele não encontrava para assistir em nenhum lugar. Achei a justificativa fraca, já que hoje em dia é possível encontrar qualquer filme em várias plataformas de streaming, ainda mais uma produção tão atual, de 2022. Fiquei na minha, não era o momento de iniciar um debate.
Quando acabou o filme que estava passando na TV e ele colocou este que escolhi, era gritante a mudança. Imagem ruim, acompanhado de um som contínuo, que demorei a identificar de onde vinha. Sabe quando uma caixa de som está no último volume, mas não tem nada tocando, e só fica aquele som chato “tummmmmm”? Pois então, exatamente esse som. Perguntei:
– Que barulho é esse??
Eu mesma perguntei e eu mesma respondi, quando me dei conta do que era.
– Ahh… é o filme pirata. – Completei desaforada.
Ele se ofendeu e a discussão foi iniciada.
– Você disse que não encontra esses filmes em lugar nenhum, mas tem para comprar original na internet. – Falei numa boa.
– Como vou colocar para passar na TV algo da internet?!
Agora sim eu senti na pele nosso problema de comunicação. Eu estava falando de arroz e ele entendendo abobrinha. Ele achou que eu me referia aos torrents da vida, tipo baixar o filme na internet, e ficou se defendendo, dizendo que não seria possível porque a TV dele não era Smart. Ficamos nesse embate chato, até que fui buscar o meu celular para ilustrar o que eu estava dizendo. Joguei o nome do filme mais a palavra ‘comprar’ no google e lhe mostrei que eu me referia a comprar o filme original pela internet, não baixar.
– Se está tão incomodada pode assistir a Netflix na TV do quarto.
Engoli seco aquela grosseria. Tudo bem que eu também fui irritante com aquela questão, admito, mas ele não precisava descer ao mesmo nível, cadê toda a sua maturidade de homem mais velho? Vencida, apenas mexi a cabeça, como quem diz “tá bom” e voltei a sentar do seu lado, porém, mais afastada, a fim de apenas terminar de comer a pipoca. Assim que terminei, me levantei e fui lavar a vasilha. Depois, sem dizer uma palavra, fui para o quarto, o deixando sozinho na sala. Eu não estava acreditando no que estava acontecendo. Segunda situação desagradável em tão pouco tempo. Como se tudo isso já não fosse péssimo o suficiente, ainda teve um plus, pois, ele foi até o quarto ver o que eu estava fazendo.
– Você não vai mais assistir? – Perguntou.
– Tô com sono. – Menti, a fim de evitar mais discussão.
– Eu coloquei o filme por sua causa! Porque você queria assistir! – Em tom de acusação.
Oi?? Eu queria assistir? Ele falou de um jeito como se eu não tivesse tido que escolher entre seis filmes que ele já tinha comprado. Quem o visse falando até pensaria que eu estava louca de vontade de ver aquele filme, rs.
– Eu queria assistir? Escolhi entre as opções que tinham! Ainda um filme sem legendas! – Rebati.
Nesse momento descobri que ele é uma pessoa muito irritante para discutir, pois, não entende a regra básica de uma discussão, em que cada um tem a sua vez de falar e ficou falando junto comigo, ou seja, ele não ouvia nada do que eu estava dizendo.
– Você está sendo mal-educada! Senão queria mais assistir era só ter falado: “Peter, estou enojada (brava em espanhol), não quero mais assistir!” e não vir para o quarto sem falar nada! – Num tom bastante alterado.
– Eu não tenho que dar satisfação dos meus movimentos, já estava subtendido que eu não queria mais assistir.
– Não estava! Você tem que comunicar, não ser mal-educada. – Ele que estava sendo mal-educado, tratando uma visita daquele jeito!
Na cultura dele era um absurdo que eu tivesse feito aquilo, assim como na minha também era extremamente grosseiro o que ele estava fazendo, indo atrás de mim falar umas groselhas, apenas porque não comuniquei que não queria mais assistir o precioso filme dele.
– Eu nem queria assistir esse filme, coloquei porque você escolheu! – Continuou me atacando.
– Você não queria assistir ao filme que você mesmo comprou?! Kkkkk. – Debochei.
Ele estava com a voz alterada, visivelmente irritado. Saiu do quarto batendo porta, convencido que eu não tinha recebido a devida educação na minha criação.
Assim que ele saiu, eu só consegui pensar numa coisa: “Vou embora”. No mesmo momento mandei mensagem para um amigo ver quanto ficava para trocar a minha volta para o dia seguinte. Amigos são tudo nessas horas. Daí descobrimos que a minha passagem foi comprada com milhas, ele teria que cancelar, os pontos retornariam e só aí poderia emitir uma nova. Droga. Teria que falar com ele sobre isso. Naquele momento não tinha o que fazer, eu não iria para a rua, procurar um hotel, tarde da noite e correr outros riscos num lugar que eu não tinha o menor domínio. Outro idioma, outra moeda, tudo que eu não precisava era ter mais estresses naquela noite. Procurei me acalmar e dormir. Ele dormiu na sala, ótimo. Em algum momento da madrugada, o senti deitando-se na cama, mas não nos tocamos.
Na manhã seguinte, ele acordou antes de mim e foi para a sala. Fui para o banheiro e comecei a juntar as minhas coisas. Tirei tudo meu que estava lá e trouxe para o quarto, onde estava a minha mala. Após um tempo, percebi que ele tinha ido ao banheiro pela porta da cozinha, e não muito depois me chamou na varanda, dizendo que queria me mostrar uma coisa. Se tratava de um lindo arco íris.
– Eu nunca vi um desse aqui. – Ele falou.
– Bonito mesmo. – Respondi seca.
Silêncio.
– No Brasil quando vemos um arco íris fazemos três pedidos. – Falei.
– Ahh é? Vamos fazer esse pedido então.
Mais um tempo de silêncio, até que me abraçou, comigo de lado.
– Não quero que termine assim. Me desculpa. – Ele disse.
Qual a probabilidade de ter um arco íris ali, sendo que nem tinha chovido? Me pareceu muito um sinal do universo para que eu desse mais uma chance. Eu também gostei que ele tinha baixado a guarda e reconhecido que tinha errado. Aceitei o pedido de desculpas e decidi continuar vivendo aquela história. No entanto, por mais que ele tivesse se desculpado e eu aceitado, não conseguia voltar ao meu mood extremamente feliz como no começo. Eu precisava de um tempo para processar o ocorrido, o que só se resolvia 100% na cama. Inclusive, achei muito curioso que as nossas transas, para mim, tinham ficado mais interessantes após o episódio da briga. Era como se eu gostasse de fazer as pazes na cama. Será que eu gostava de amor bandido? Me analisei preocupada.
*
– Eu estava mais otimista em relação a vocês. Aquelas, não shippo mais! Já pode vir embora! Kk.
– Calma amiga, não estragou tanto assim. Gostei que ele pediu desculpas.
– Alguém tinha que ser maduro. Que comentário desnecessário o seu também, do filme pirata. Você tá na casa da pessoa e critica isso, um pouco indelicada.
– Sim, também tive culpa. – Reconheci.
Partida de Tênis
Depois que me pediu desculpas, me convidou para jogar tênis. Tem uma quadra pública na frente do seu prédio. Ele também tinha comprado uma roupa a caráter para mim. Achei que seria aquele conjuntinho branco clássico, composto de blusinha e saia, mas foi um vestido preto da Calvin Klein. Bacana também. A regra para utilizar a quadra pública era muito simples, cada usuário poderia usufruir por 1h, sendo esperado esse bom senso de cada um, pois, não tinha ninguém para supervisionar.
No entanto, um rapaz que chegou antes da gente, não estava jogando, mas também não liberava a quadra para que utilizássemos. Depois entendemos se tratar de um professor de tênis, que estava esperando o aluno chegar, cujo chegou meia hora depois de já estarmos aguardando. Achamos esse tal professor bastante folgado, pois, o tempo que ele ficou esperando o outro jogador chegar, poderia nos ter liberado a quadra e depois aguardado terminarmos, mas, não foi bem assim que as coisas aconteceram. Durante aquela espera tentei nos distrair com alguns vídeos engraçados de páginas que sigo no Instagram, contudo, foi inevitável uma discussão entre o Peter e esse rapaz depois, quando encerrou a sua 1h de uso e ele continuou jogando, provavelmente querendo contar o tempo somente depois que o seu aluno tinha chegado. As coisas só se resolveram quando o jogador da quadra ao lado – eram duas quadras – anunciou que já estava terminando e que a outra quadra ficaria disponível.
Eu tinha avisado ao Peter que nunca joguei tênis na vida, apenas de mesa, muitos anos atrás, mas acho que ele não esperava que eu fosse tão inexperiente. Aquela 1h foi dividida entre aulas e treinos. Ele me ensinou como jogar, dispensou um bom tempo comigo praticando e no final joguei algumas bolas para que ele praticasse seus lances também. Sinceramente falando, aquela 1h não foi um momento divertido. Primeiro porque iniciamos logo depois da discussão entre ele e o outro usuário, então o clima estava pesado, essa situação roubou um pouco o prazer de estarmos ali. Segundo que como eu não sabia jogar, estava me sentindo pressionada a acertar de primeira, não o achei muito paciente, e não foi uma cena romântica como vemos nos filmes, com o parceiro te abraçando por trás para te ensinar como segurar do jeito certo. Claro que ele reconhecia quando eu acertava, mas eu não estava nem um pouco relaxada. E terceiro que tudo isso foi debaixo de um sol escaldante. Cada partícula do meu corpo pingava, eu só queria que desse a uma hora logo para sairmos daquele sol e irmos para a sombra. Quando enfim encerramos e voltamos para o apartamento, até meu sutiã estava molhado de tanto suor.
Como jogar tênis não tinha sido aquela atividade romântica e prazerosa que tivesse reaproximado a gente, o sentimento da briga da noite anterior se instalou em mim novamente, me fazendo ficar mais fechada. Ele percebeu a minha cara de poucos amigos e quis conversar sobre o que estava acontecendo. Falei que não consigo virar a chavinha tão rapidamente, que ainda estava chateada pelo ocorrido e aí ele disse que não precisaríamos continuar ficando se eu não quisesse, que poderíamos aproveitar o restante da minha viagem como amigos, que ele só queria ter bons momentos juntos. Essa conversa fez muito bem para nós, pois, depois fiquei até com tesãozinho e quando transamos, logo após tomarmos banho, ao voltar da quadra, parecia que a briga era a pimenta que estava faltando! Passei a achar a nossa transa muito mais gostosa, ainda que nada de novo estivesse acontecendo na sua performance.
– Foi tão gostosa a transa menina! Acho que eu transei com uma vontade que eu não tinha transado até então, nessa viagem. Gozei duas vezes e ele nenhuma, rs. – Compartilhei com a minha amiga por mensagem.
Depois do sexo cochilamos e mais tarde passeamos. Fomos em Wynwood, mas assim que chegamos no bairro começou a chover, então nem saímos do carro e alteramos a rota. Fomos para um Shopping de Outlets, por iniciativa dele, que precisava comprar algumas coisas, e deixamos para voltar em Wynwood outro dia que estivesse ensolarado.
Nesse outro passeio que fizemos, pude notar mais coisas nele que não gostei.
CONTINUA