
COMUNICAÇÃO A DISTÂNCIA
Ele realmente me ligou quando chegou no aeroporto e, pasmem, a ligação durou 11 minutos! Eu não estava com expectativas que manteríamos contato até a sua volta ao Brasil, mas ele sempre entrava em contato.
– Olá.
– Oie. Chegou bem de viagem?
– Sim. Como está você? – Nesse momento me enviou duas fotos, mostrando a vista incrível do seu apartamento.
– Também estou bem, correndo com os preparativos da viagem. – Eu viajaria para Paris em poucos dias. – Que mar lindo! Que alto! – Comentei sobre as fotos que me enviara.
– Andar 47.
– Seu trabalho? – Não temos prédios residenciais tão altos no Brasil, então achei que fosse a vista de um prédio comercial.
– Meu apartamento. Lembra que eu trabalho da minha casa?
– Lembro sim. Mas achei que você tivesse que ir na empresa uma vez por semana, sei lá.
Daí ele me enviou uma foto da mesa de escritório dele, enorme, com duas telas de computador, um tablet, vários posts it, xícara de café quase vazia, enfim, um verdadeiro caos. Complementou com um áudio, explicando sobre a empresa em que trabalha ser localizada na Suíça, como também contou alguns detalhes sobre a sua rotina de trabalho.
– Não lembrava que ficava na Suíça! Mas que bom, trabalhar remoto em tempo integral te dá mais liberdade de fazer seus horários, né?
Daí ele me ligou. Assim, do nada. Eu estava chegando na minha aula de percepção musical, então não atendi e avisei que tinha chegado na aula.
– Sorry. Apenas explicar a você. Mal-entendido de não me entender. – Que mal-entendido ele estava falando? Eu já tinha entendido tudo. – Eu moro em Miami. Trabalho para uma empresa que está na Suíça. Eu vou a Suíça umas 4 ou 3 vezes por ano, mas em Miami sempre trabalho da minha casa, do meu apartamento. Espero que você me entenda bem. Beijo. Bom dia.
Que mensagem mais estranha. Ele não precisava justificar tudo aquilo novamente e ainda finalizar mandando beijo e bom dia, quatro horas da tarde. Sério que esse era o motivo da ligação?
– Fica tranquilo, eu já tinha entendido desde a primeira vez que você falou. Mas muito fofo – estranho – da sua parte querer me ligar para explicar isso. – Ele se estendia em alguns assuntos desnecessários, repetitivo.
A noite nos falamos em ligação novamente, um papo leve, sobre coisas aleatórias. No dia seguinte, ele seguiu conversando:
– Olá Sara. Espero que você esteja bem e que esteja tudo pronto para a sua viagem. Beijo e abraço.
– Olá querido! Como foi sua viagem ao México? – Ele iria para o México visitar a mãe e fazer um procedimento estético no couro cabeludo. – Ainda tenho que fazer as malas!
– Minha viagem foi bem cansativa. Ontem fui à academia e voltei tarde. Depois jantei e fiz minhas malas. Dormi às 2h da manhã e despertei 5:10 para ir ao aeroporto, porque meu voou era às 8h. Cheguei às 10 em ponto no horário do México e fui almoçar com a minha mãe. Agora de volta na casa dela, vou trabalhar. Espero que esteja tudo bem com suas malas e os preparativos da sua viagem. Beijos. – Ele tem uma mania de ficar finalizando a conversa com “beijos” sendo que vamos continuar conversando.
– Caramba você está corrido hein, desde ontem você fez muita coisa, pouco tempo para dormir e descansar… você deve estar exausto, né? Foi bom matar a saudade da sua mãe? Já vai fazer o procedimento amanhã?
– O procedimento será na quinta, amanhã é o exame de sangue.
– Muito bom! Ansiosa pra ver como vai ficar o cabelo novo!
– Eu também.
– Já ouviu falar de uma peça em Nova York chamada “Sleep No more”? – Uma hora depois, resolvi resgatar a conversa com outro assunto.
– Noup. Soa interessante.
Ele nunca ouviu falar e sequer perguntou mais sobre o tema e já fez o assunto voltar para ele:
– Desculpa, estava muito cansado e dormi por uma hora. A casa da minha mãe tem quatro cômodos, então eu sempre que estou aqui fico no mesmo quarto. Tenho dormido, mas agora estou trabalhando e tenho que ir a costureira, porque tenho uma roupa que eu preciso apertar, mas agora estou aqui trabalhando. Um beijo, espero que você esteja bem, ao ponto de arrumar suas coisas. Um beijo.
Sim, o áudio dele foi exatamente assim, uma mistura de assuntos desconexos. Ignorei tudo que ele disse e voltei no assunto que eu estava falando antes, enviando um link em que fala melhor da experiência imersiva, Sleep No More.
– Duas pessoas já me falaram dessa peça. É um teatro imersivo. – Insisti.
– Lindo. 😍 Macbeth de Shakespeare. Outro em Miami. Nocturna. – E me enviou um link falando de um outro parecido com o que indiquei, só que em Miami.
– Imersivo também?
– Não sei. Mas tema interessante e show acrobático também. Um pouco de horror com um pouco sexy. Tema interessante penso. Em Miami e podemos ir juntos.
– Parece bem promissor!! Gostei.
Quando enviei a indicação do Sleep No More, fiquei com a esperança de que ele se animasse ao ponto de irmos até Nova York assistir, afinal, o que são 3 horinhas de voo, quando você já está nos Estados Unidos? Mas pelo visto ele não teve essa ideia e já pesquisou por algo parecido em Miami mesmo.
– Me anima muito fazermos programações de casal em Miami – Falei, igual uma emocionada.
– Claro! Eu te vejo como uma pessoa especial pra mim.
– E você pra mim! Estou achando muito legal continuarmos mantendo contato a distância.
– Igualmente.
– Que horas são aí agora?
– 8:24 pm. E para você?
– 11:25 pm. Pouca diferença.
– Sim. Que descanses baby. Beijo.
– Você também. Um beijo.
Eu viajaria para Paris no dia seguinte e no outro dia ele mandou uma nova mensagem:
– Boa viagem. 😘 Beijos.
– Oii Peter. A caminho do aeroporto agora. Muito obrigada!!
– Ok. Muito bom.
Aí, do nada, a conversa começou a ficar estranha, com ele dizendo:
– Muitas vezes não entendo você e sua maneira de se comunicar comigo. Mas, tudo bem, penso que tenho que ir direto ao ponto com você. Desejo que tenha uma boa viagem. Divirta-se. Tchau.
Oi? Do que ele estava se queixando se estávamos conversando normalmente? Alguém me explica? Mostrei essa mensagem para três amigos, que também ficaram confusos. Ele queria que eu fosse mais romântica, é isso?
– Mas o que você não entendeu? Gostaria que eu conversasse mais? Eu fico com receio de estar te atrapalhando, por isso espero que você mande primeiro. Mas, se quiser, posso falar mais do meu dia sim. – Ele que nunca pergunta, uai!
– Olá. Desfrute sua viagem. Falamos quando você voltar ao Brasil.
Três minutos depois, me enviou um áudio de dois minutos:
– Olá Sara, não, não é que você vai atrapalhar não, eu preciso disso, como eu falei com você, eu mostro muito, mas preciso que você mostre muito também. – Isso vindo de um cara que só fala de si e nunca pergunta das minhas coisas. – Então, não quero agora te preocupar com nada, quero que você tenha uma excelente viagem, passe muito bem, muito legal – se quisesse isso mesmo, não viria com essa DR justamente quando estou no aeroporto toda empolgada – Quando você conhecer um pouco de mim, verá que eu sou muito expressivo, eu gosto de ser carinhoso e terno, mas eu preciso receber o mesmo. Possivelmente você não é assim – isso me soou ofensivo, me chamando de fria na cara dura – e tenho que te conhecer e descobrir, então eu percebo que a comunicação com você é um pouco fria. – Fria? Estou sempre puxando assunto e dando corda para os assuntos dele!! – Mas pode ser que você é assim e se você é assim, está bem, eu tenho que entender, mas eu também tenho que ser da mesma maneira que você. – Ah sim, por que se eu for uma pessoa estúpida e cretina, ele também vai ser? Que papo mais nada a ver! Cada um deve dar o melhor de si e não se igualar ao outro – Isso é tudo. Não estou irritado, não estou bravo, não é uma briga, – imagina se fosse – não é nada, tudo bem. Somente, como falei, vou ser e escrever a você como você é comigo. É assim. Mas se você me pergunta como eu gosto, eu sou mais expressivo, sou mais carinhoso, mas está bem! Somente quero ir ao mesmo ritmo que você. Ok? Espero que você tenha uma excelente viagem e que seja tudo divertido, que você aproveite em Paris e que tenha momentos incríveis. – Me pareceu recalcado. – Um beijo e nos falamos depois, quando você voltar, cuide-se muito. Passe bem. Beijos. Tchau.
Olha, hoje, olhando em retrospecto para todos esses detalhes do passado, enquanto escrevo esta história, percebo tantos sinais ignorados por mim mesma. Eu estava tão empolgada com o novo, o diferente, que não me atentei que isso não daria certo se já começava desse jeito, com essas cobranças.
– Oie. Eu não sou fria não – tentei responder de um jeito descontraído, definitivamente não estávamos tendo a mesma percepção da situação -, eu busco entender qual o ritmo da pessoa, pra não sentir que estou sendo a emocionada da história ou sufocando o outro. Mas já que você gosta de um contato mais diário – como se já não estivéssemos tendo – , por mim tudo bem. Vamos conversando mais sim. Estou na fila do embarque com a minha amiga.
– Olá Sara, eu não estou precisando de uma comunicação diária, eu gosto de uma comunicação de qualidade, não de quantidade. Então, pode ser pouco, que é o que acontece quando as pessoas estão longe, mas se expressar muito, com carinho, ternura, isso é bonito. Não tem que ser diário, nem todo o tempo, não!! Somente que seja bonita, terna, sem medo, penso que é assim que deve ser. Isso de ambos os lados, do seu também. Eu estou bem, não estou bravo com nada, simplesmente faço as coisas como eu vejo que as coisas são dadas para mim. Espero que você me entenda e se não, como falei, podemos falar quando você voltar, sem problema. Um beijo, tchau. Boa viagem.
Ele vai me desejar boa viagem mais quantas vezes?! O cara estava me cobrando mais romance nas mensagens? Ele não sabia que as coisas precisam fluir naturalmente, de maneira leve, sem esses scripts pré-definidos por ele? O sentimento precisa de tempo para ser desenvolvido, não vou trocar mensagens de amorzinho com quem ainda estou conhecendo! Francamente, viu. Sério, onde eu estava com a cabeça que não me liguei em todos esses detalhes do comportamento dele?
Cinco horas depois, sem qualquer resposta minha, ele me enviou mais mensagens:
– Espero que você chegue bem ao seu destino.
– Tem toda razão, concordo com você. Conversas de qualidade, não quantidade. Já faz um tempinho que chegamos no aeroporto de Paris. Perdemos um tempinho no banheiro carregando o celular, nos arrumando, escovando os dentes e aí agora vamos pegar a mala e ir atrás do cara do transfer do hotel.
– Tranquilo. Desfrute sua viagem. Beijo. Have fun. 🙂
*
Continuamos nos falando, todos os dias, um pouco, durante a viagem. Vez ou outra ele compartilhava fotos do seu dia e eu retribuía.
– Você me gusta muito… sabia?
– Você também me gusta. – Retribui.
*
Depois que voltei da viagem de Paris, alguns dias se passaram, até que, surgiu o convite para que eu fosse passar uma semana com ele em Miami.
– Acho que seria bom convivermos alguns dias para nos conhecermos melhor. – Ele disse.
– Me parece uma boa ideia. Mas como seria? Você compraria a passagem?
– Certamente. Eu cuidaria de tudo e você se hospedaria em minha casa.
Fiquei bastante animada com a ideia. Já tinha ouvido tantas histórias de mulheres que conheceram um gringo, se apaixonaram, casaram-se e viveram felizes para sempre em outro país, parecia muito a possibilidade de viver um conto de fadas. Talvez fosse o meu momento de viver algo assim também.
Ele propôs algumas datas e definimos uma que fosse dali a vinte dias, o tempo ideal para eu me organizar financeiramente para essa viagem. Seriam umas férias improvisadas, ficaria uma semana com ele, sem trabalhar, então precisava deixar tudo organizado por aqui.
– Estou muito contente e emocionado com a sua vinda.
– Eu também estou muito animada! – E estava mesmo.
Enviei a foto do meu passaporte e no dia seguinte já recebi o e-mail com a minha passagem aérea. Seguimos nos falando todos os dias, por mensagem e chamadas de voz, até que chegou o grande dia!
C O N T I N U A . . .