Puta Day

2 de junho, dia Internacional das Trabalhadoras Sexuais

Querido diário,

Tenho vivido coisas novas e muito legais ultimamente.

Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente outras mulheres que também são trabalhadoras sexuais, assim como eu, e pela primeira vez me senti pertencente a um grupo. Mais do que isso, me senti acolhida, zero julgada e parte de algo maior.

Continue comigo nessas páginas para descobrir como tudo aconteceu! 😎

DILETA

“Amiga, semana que vem estarei em São Paulo. Vamos marcar um rolê.”

A Dileta era uma colega de trabalho (digo era pois agora somos amigas) das redes sociais, mais especificamente do TikTok. Quando criei a minha conta, em outubro de 2024, ela começou a me seguir imediatamente, fui conferir o seu conteúdo – muito similar ao meu, falando sobre seu trabalho e visão de mundo – me identifiquei com a forma sensata de como ela se posicionava e a segui de volta.  Passou-se um tempo e ambas fomos convidadas para participar de uma reportagem da BBC – caso não tenha visto, só clicar aqui – uma coincidência que acabou nos aproximando ainda mais, mesmo sem nunca termos nos visto pessoalmente. Dileta mora e trabalha em Araraquara e viria para SP apenas para ir a um evento, o “Puta Day”, em sua primeira edição, que quase deixei de ir para atender um cliente. Ainda bem que consegui remanejar meu compromisso e também compareci ao evento!

Sol Rara

“Oii, tudo bem? Eu vou no evento hoje. Estou animada pra te ver, estou com saudades.”

Em meados de dezembro de 2024, Sol entrou em contato comigo pelo Instagram, querendo contratar a minha mentoria para acompanhantes. Como final de ano é sempre tão corrido, falei que não estava fazendo no momento, mas me deixei a disposição para tirar dúvidas e fui auxiliando da maneira que pude. Lhe dei algumas dicas enquanto ela montava seu PDF com as informações de trabalho e até divulguei seu insta no meu storie, quando me pediu ajuda com isso. 

Como tivemos interações recorrentes através das redes sociais, resolvi conhecê-la pessoalmente, pois, diferente da Dileta, que não mora na cidade de São Paulo, foi possível combinarmos algo facilmente. A chamei para irmos a uma peça de teatro, de um amigo meu que estava no elenco, de lá fomos jantar e depois lhe dei uma carona até em casa. 

Após esse encontro, até tentamos manter contato, mas, devido a correria do meu lado, acabamos nos afastando. Eis que nos reencontraríamos neste evento.

Margô

“Estarei lá também! Você vai ficar brava se eu te tietar? Kkkkk”

Margô também já me acompanhava no insta e interagimos algumas vezes, sendo a mais marcante quando postei sobre uma peça de teatro que eu tinha ido e ela respondeu dizendo que conhecia a figurinista do espetáculo. Aquilo me fez ver como o mundo é pequeno. Ela conhecia a galera do figurino, eu conhecia a galera do elenco e cá estávamos nós, cada uma no seu corre, trabalhando com job, rs.

Chegamos ao Puta Day!

O evento começava às 17h, mas cheguei às 18h. Ocorreu num lugar chamado Lovenox, no Centro de São Paulo. Era um casarão com uma porta de entrada pequena e discreta. Um rapaz muito simpático, com ar divertido, me atendeu e me conduziu para o porão, um cômodo de luz vermelha, que ficava logo a esquerda da entrada, para que eu me identificasse. Depois liberou a minha entrada e lá fui subindo as escadas sozinha, que me levaram até um extenso corredor. Nas paredes havia quadros de fotos pornográficas, que achei um pouco chocante, me perguntando o que seria aquele lugar.

O primeiro cômodo à direita tinha uma poltrona, ring light e uma decoração mais caprichada para criação de conteúdo. No cômodo seguinte, mais aberto e amplo, de onde se ouvia muitas mulheres conversando, era uma sala, aconchegante, nem muito grande, nem tão pequena, com duas janelas enormes que davam para a rua. Fiz um rápido raio x pra ver se conhecia alguém e me acomodei, timidamente, num puff perto da janela. O evento não estava tão cheio (ainda), algo em torno de dez mulheres. A sexóloga Andréa Oliveira fazia um discurso, que tentei acompanhar o conteúdo, mas chegando com o bonde andando fiquei um pouco confusa. Me ocupei em apenas observar o espaço e as outras mulheres presentes.

Aos poucos fui tendo pequenas interações com as organizadoras do evento: a @agata.kyll e @svetlanna.jpg, até que a Dileta chegou no recinto, sendo ovacionada pela mulherada. Aos poucos mais garotas foram chegando, entre elas a Sol e a Margô e as interações foram fluindo naturalmente.

HELENOIR

“É estranho ver pessoalmente quem a gente segue no Insta, rs. Oi, eu te sigo!”

– É mesmo? Então me dá um abraço! 

E ali já engatamos uma conversa. Em pouco tempo descobri que a Helenoir trabalhava como dominatrix online e já havia realizado alguns encontros presenciais apenas para realizar sessão de BDSM em que ela era dominadora, contratada apenas para humilhar, sem que houvesse o ato sexual envolvido. Achei do caralho. 

Ela me contou que seus clientes virtuais adoravam ter conversas intelectuais com ela, descobri que ela também tem uma veia artística, e tivemos um diálogo muito engraçado sobre “dildos”. Ela contou que um cliente que era diretor de cinema, estava desenvolvendo uma produção cinematográfica em que no contexto da produção, ele teve a ideia de filmar uma mulher pendurando calcinhas. Daí Helenoir deu-lhe a ideia de que ao invés de pendurar calcinhas, e se essa mulher pendurasse dildos?

– Diu? – Não entendi muito bem.

– Dildos. 

Eu não sabia o que era dildo e fiquei refletindo por dois segundos se perguntava o significado ou se fingia que entendi, sem querer parecer uma burra.

– Desculpa a minha ignorância, mas o que é dildo?

– Um suporte peniano que você usa quando vai comer alguém. 

– Como assim?

– Que você coloca na cinta peniana.

– Ahhh tá. Nossa, eu conhecia por outro nome.

– Por qual nome você conhecia?

– Pinto de borracha kkkkkkkk.

– Kkkkkkkkkkkk.

Caímos na risada. 

– É, pinto de borracha é o nome popular kkkk. Dildo é o nome correto. 

Olha pra mim, dez anos como trabalhadora sexual, e ainda assim sigo aprendendo.

Achei muito interessante conversar com ela. Helenoir contou que era bissexual e que adorava comer o cu dos homens. O que achei impressionante, comparado a mim que nunca vi a menor graça em fazer inversão e até retirei essa modalidade do meu atendimento. 

– Eu sinto muito prazer fazendo isso. – Ela continuou. 

– Mas como você consegue sentir prazer se não é seu pinto de verdade?

– Quando eu tô usando o meu pau e a pessoa está ajoelhada na minha frente chupando, eu sinto como se eu tivesse um pau de verdade. 

– Mas como assim? Você sente como se fosse uma massaginha? – Tentei comparar com a gostosa sensação de quando alguém nos faz um cafuné. 

– Isso. Eu sinto como se a pessoa estivesse chupando os meus dedos. 

– Caramba… 

– Eu já levei isso pra terapia, e a minha psicóloga disse que é como quando as pessoas tem um membro amputado e ainda conseguem sentir a sensação do mesmo.

– Caramba…

Ela também contou que tinha uma coleção de dildos.

– Quantos você tem?

– 6! – Visivelmente orgulhosa.

– Caramba! Menina eu só tenho um. Por que você tem tantos?

– Ah tenho de vários tamanhos. Porque cada pepeka é diferente – ela também usava para as relações sexuais com suas ex-namoradas. – Eu namorei uma menina que não gostava de remeter o dildo a um pênis masculino, então eu tenho um que é todo cheio de purpurina, outra cor, pra que ela pudesse ter prazer. 

– Caramba… rs

*

Em outro momento fizemos uma rodinha ao lado da janela, e quando a Dileta, Helenoir e Margô se deram conta que todas elas eram domi (dominadoras), deram gritinhos histéricos ao mesmo tempo, se reconhecendo como membros da mesma tribo. Foi gostoso de ver aquela conexão imediata.

Ali, sem dúvida era um ambiente muito acolhedor e de conexão para todas nós. Rolaram conversas que qualquer pessoa de fora do nosso meio acharia engraçado acompanhar:

– Ninguém imagina que muitos clientes nos contratam só pra ficar de chamego.

– Ou que a maioria deles tem pau médio pra pequeno.

– Pois é! Eu achava que a média dos homens era grande, mas os grandes são a minoria, rs.

– Verdade, mas eu não gosto de pau grande não.

– Eu também não.

– Machuca e mal cabe na boca.

– Outro dia um cliente pediu pra eu avaliar o pinto dele.

– E aí?

– Falei que era pequeno.

– Kkkkkkkkkkkkkkkkk. – Todas riram.

– Mas falei que era bom pra ele comer um cu. Essa é a única hora que eles gostam de falar que tem pau pequeno, kkkk.

Quando que eu teria esse tipo de prosa com amigos do teatro, do jornalismo ou de qualquer outra área que não fosse a do job?

Roda de Conversa

Depois as organizadoras anunciaram que iniciariam uma roda de conversa, discursaram e passaram o microfone para quem quisesse se apresentar e contar um pouco da sua trajetória. Fiquei cativada pela desenvoltura que algumas refletiam e debatiam sobre o nosso trabalho:

– A gente não tá no tempo da escravidão, o nosso corpo não é moeda de troca. A gente vende O TEMPO, o psicólogo vende o tempo, o personal trainer vende o tempo, a porra do médico vende o tempo, o advogado vende o tempo. O cara quando procura uma profissional do sexo ele procura um CONTATO. Qual é esse contato? Não sabemos. O cara vem pra falar no nosso ouvido que a mulher tem periquito torto. – Todas rimos kkkk. – Entendeu? Então ele busca um contato, então o governo tem que entender isso, eu não vendo sexo, eu vendo o meu tempo e dentro desse tempo determinamos qual contato vai existir. Agora se vocês aqui (o governo) ridiculamente falar que nunca usou o serviço de uma profissional do sexo, vocês vão mentir descaradamente, porque assim, a gente tá vendo na cara de vocês que vocês tem tudo cara de cliente. – Rimos mais ainda. – @laboratoriodeprazer

– Se eu vendesse pura e simplesmente sexo eu tava passando fome. Então sim, é tempo e é um trabalho criativo do caralho, porque você tem que ambientar o seu cliente, tem que atender a fantasia, quando existe, e não tô nem falando sobre  fantasias extremas, BDSM e etc, a experiência com uma garota de programa ela já é um fetiche por si só. Porque ele acha que você é muito experiente, que você é muito rodada e que você trepa até no teto. – Todas rimos kkkk.  – “Vou contratar uma profissional porque ela sabe o que faz”. @deusaynas_

– Mas é isso mesmo, a gente sabe o que tá fazendo! – Alguém gritou do fundo.

– Claro, exatamente, é óbvio. Então assim, toda essa ambientação, todo esse esforço que a gente faz também é um trabalho intelectual e criativo. Tipo assim, pra eu falar pro meu cliente que ele não pode misturar pó e tadala porque senão ele vai morrer! – Todas rimos novamente kkkkkk. – Porra… você acha que em casa ou na roda de amigos ele vai ter esse tipo de instrução? Não vai! Então assim, procurar uma profissional, as vezes tem muito disso, e é o que ela falou da questão do contato.

– Às vezes salva! – Outra gritou.

– Salva pra cacete.

“Não cheira! Para de cheirar senão essa porra desse pau não sobe mais!!”

E assim foi seguindo a roda de conversa com interessantes debates.

Infelizmente poucas tiveram a oportunidade de falar, uma senhora monopolizou o microfone várias vezes, – uma looonga linha do tempo a se compartilhar, rs – do nosso grupo apenas a Dileta conseguiu falar um pouco no final. O evento estava programado para encerrar às 22h e esticou por mais meia hora. Fomos embora querendo mais.

Saí de lá com uma sensação tão boa de irmandade e acolhimento. Como muitas disseram, nosso trabalho é de certo modo solitário, pois, somos nós com o cliente e nada mais. E não é o tipo de coisa que podemos compartilhar com qualquer pessoa, sem receber um olhar de julgamento. Nos conectarmos com outras semelhantes a nós foi mesmo libertador. Que delícia poder sermos nós mesmas.

O match foi tanto que saímos do evento já formando um grupo no Whatsapp e combinando de jantar dali a três dias, antes da Dileta voltar para Araraquara.  

Preparados para a segunda parte dessa resenha?

Girls Just Want To Have Fun


A definição do lugar carrega uma resenha engraçada. Quando a Dileta mencionou sobre sairmos todas pra jantar antes que ela voltasse pra sua cidade, tivemos o segundo desafio que era encontrar um lugar que todas gostassem.

– Eu gosto de boteco pé sujo. – Ah Dileta falou e mais alguém concordou que também.

– Mas calma, vamos pensar em algo meio termo porque boteco pé sujo só tem fritura! Kkkkkk. – Defendi meu lado kkkk.

Daí no dia seguinte seguimos tentando definir no grupo:

– Jantarzinho na sexta então, a partir das 19h. Quem quiser manda sugestões de lugares aqui. Vamos definir. – Lancei a missão.

– Urbe, Riviera, Braz Elétrica, Futuro Refeitório… Alguns lugares que estão entre o boteco pé sujo da Dileta e o estrela Michelin da Sara kkk. E tem boas opções vegetarianas. – Margô.

– Eu voto no Urbe! – Escolhi.

– Braz elétrica e futuro refeitório tá do lado de casa, mas de todos eu gostei do Urbe também. – Dileta.

– Não conheço nenhum, então vou confiar no bom gosto de vocês. – Helenoir.

– Vamos no Refeitório amanhã? O que acham de ir às 18h? Vi que fecha 22h30. – Sol.

– Eu topooo. – Dileta.

– Esse horário não consigo. Mas encontro vocês lá por volta das 19h ou 20h. Ficou definido nesse refeitório então? – Perguntei.

Daí a Margô lançou uma enquete e o Urbe Café Bar ganhou!

*

Novamente, adivinha quem chegou antes de todo mundo? Euzinha aqui. E olha que geralmente eu sou a atrasada do rolê, não sei o que tá acontecendo, rs. Dali a pouco, Margô chegou.

– Cadê aquela sainha do seu story? – Brinquei, pois mais cedo ela tinha postado uma foto toda sexy.

– Ai menina voltei em casa pra trocar de roupa. Muito frio, rs.

– E como foi o cliente? Foi bom?

Ela fez uma pausa dramática, que a princípio me pareceu que tinha sido ruim, mas logo acrescentou:

– Foi muito bom!!

E aí ela compartilhou que era um cliente fetichista, que ela fez golden shower nele. Esse mundo das dominatrix é fascinante. Adoro ouvir as histórias, ainda que eu não tenha vontade de atender esse perfil.

Depois o assunto foi avançando e ela me contou de um fetiche insano que pedem pra ela.

– Marmita com fezes.

– Não é possível. Com fezes mesmo?

– Aham.

– E envia como? Pelo correio?

– Não sei como seria isso, nunca fiz. Mas já me pediram várias vezes.

– Eu tô passada. Você teria coragem?

– Eu teria. Só não faço porque fico pensando no que a pessoa pode fazer com meu DNA.

– Nossa eu também não vendo calcinha usada com medo de fazerem macumba pra mim kkkkkk. Mas eu tô passada com isso. Que prazer será que a pessoa sente com isso? Fezes é o descarte do seu corpo, não tem nada de bom ali.

– Tem uma teoria seguindo a psicanálise…

E bem nessa hora a Sol chegou, interrompendo algo que a minha ansiedade estava doida para descobrir.

Na teoria psicanalítica clássica, especialmente em autores influenciados por Sigmund Freud, as fezes não são vistas apenas como resíduos biológicos. Elas podem adquirir um forte valor simbólico ligado a temas como:

• relação com o corpo;

• limites entre eu e o outro;

•  posse e entrega;

• controle e submissão;

• intimidade extrema;

• amor e agressividade misturados.

Em algumas leituras psicanalíticas, o desejo de incorporar algo tão íntimo e visceral do outro poderia simbolizar uma busca de fusão radical, uma tentativa fantasmática de eliminar a separação entre “eu” e “você”.

Autores posteriores, como Melanie Klein, exploraram muito a fantasia inconsciente de incorporar partes do outro amado ou desejado. Embora ela não estivesse falando especificamente de coprofagia, a noção de “incorporação” é central: o sujeito fantasia colocar o outro dentro de si, possuí-lo completamente ou unir-se a ele de forma absoluta.

Também existe uma linha de pensamento que relaciona o fascínio por secreções corporais (fezes, urina, sangue, sêmen etc.) à experiência de acessar aquilo que normalmente é excluído, escondido ou considerado abjeto. Nesse sentido, consumir fezes poderia representar não apenas união, mas uma transgressão máxima das fronteiras sociais e corporais.

Algumas correntes psicanalíticas citam a chamada fantasia de retorno a um estado indiferenciado, anterior à separação entre eu e outro. Nessa lógica, quanto mais se atravessam os limites corporais, mais se encena simbolicamente essa união absoluta.

Interessante, não?

Depois de um tempo chegou a Dileta e por último a Helenoir.

Reparei que a dinâmica da nossa roda de conversa foi muito bem conduzida. Quem chegava naturalmente virava o centro das atenções por alguns minutos, compartilhando sobre o seu dia, e aos poucos, a conversa voltava a circular entre todas. Às vezes estávamos em grupos menores, outras vezes todas envolvidas no mesmo assunto, mas tudo acontecia de forma muito fluida. Ninguém ficava de lado.

AS MARCAS QUE NÃO APARECEM NAS FOTOS

Em algum momento chegamos a uma pauta muito delicada na vida de toda mulher. E apesar de não ser uma pauta gostosa, fiz questão de ouvir o trauma de cada uma. 

Eu tenho uma teoria de que todas as mulheres (da minha geração, pelo menos, como também das gerações anteriores), sofreram algum abuso sexual na infância. E digo mais, arrisco dizer que toda trabalhadora sexual está inclusa nesta estatística.

Mas me surpreendi que uma de nós, naquela mesa, não sofreu abuso na infância, mas sim já na vida adulta:

– Eu tinha um namorado que a gente sempre ia no motel transar sob efeito de bala (êxtase). Daí ele tava me comendo de bruços e em algum momento disse: “Agora eu vou fazer seu cu de buceta”, e entrou com tudo, sem lubrificante, sem camisinha e o principal: sem a minha autorização. Fiquei uma semana sentindo dor na região e ele ainda fez piadinha que tinha saído feijão, sendo que eu nem tinha me preparado para aquilo. E eu só fui me dar conta que tinha sido estuprada dois anos depois, quando ouvi um relato parecido de outra mulher, quando estava cursando sociologia.

Felizmente eles já não estavam mais juntos.

*

O segundo relato me deixou ainda mais perplexa. Ela tinha 6 anos e estava numa festa de casamento. Brincava com outra criança, até que as lembranças ficaram confusas e de repente estava com um homem dentro de um cômodo. Este tampou sua boca e ameaçou matá-la se ela contasse para alguém. Ela não lembra da situação em si, mas tem a lembrança de sentir a boca com algo dentro de modo que ela não conseguisse movimentar a língua e então um gosto ruim. Depois foi até seus pais chorando, dizendo que queria ir embora, que estava com um gosto ruim na boca, mas estes estavam alcoolizados e não lhe deram a devida importância.

*

– Eu tinha 13 e ele 32 quando começamos a “namorar”. Perdi a virgindade com 14, que ele falava que tinha que esperar até os 14 pra não ser preso. Foi um relacionamento abusivo, ele fazia muita violência psicológica comigo, que no final avançou para violência física. Várias vezes quando eu tava dormindo, acordava com ele transando comigo. E eu fazia mais para agradar, ele queria fazer todo dia e eu, com aquele pensamento de querer agradar o meu namorado, fazia sem vontade. Ficamos juntos por seis anos. Quando eu estava mais velha, encontrei um pen drive na gaveta dele, e fui ver o que tinha, adivinha? Se tratava de um vídeo de pornografia infantil.

*

E para quem pensou: “E o seu trauma, Sara?”, já contei essa história aqui no blog em outra postagem, só clicar aqui.

Afinal, quando isso vai acabar? Quando o homem vai respeitar o corpo da mulher? Ou ele abusa na infância, ou estupra na vida adulta. Eles gostam de abusar e tomar, mas quando temos controle e cobramos, nos criticam. Se fosse um homem no nosso lugar, recebendo dinheiro para comer uma mulher, duvido que eles discriminariam a si mesmos. Pelo contrário, se sentiriam o pica das galáxias. 

Então, na verdade, o que incomoda não é “a venda no nosso corpo”, já que a história mostra que nunca respeitaram o corpo feminino. O que incomoda mesmo é a nossa liberdade. É a gente decidir por nós mesmas quem terá acesso e ainda lucrarmos em cima disso. E a mulher que tem seu próprio dinheiro, não depende da submissão a um homem. Aproveitando o ensejo, recomendo este livro:

As Prostitutas na História - Nickie Roberts


Segundo Nickie Roberts, autora do livro: “As Prostitutas na História”, em tempos antigos, as prostitutas já foram consideradas deusas sagradas e os ritos sexuais uma tradição divina. Foram homens, invejosos do governo, querendo “recuperar” o poder sobre a gente, que criaram o moralismo, o cristianismo e por fim, o casamento, no intuito de controlar ainda mais as mulheres. Infelizmente, muitos ainda não estão preparados para essa conversa. E o mais ridículo é que esses mesmos que condenam, são os que consomem escondido. 

Espero contribuir, nem que seja um pouquinho, para que num futuro distante, a mulher possa ser respeitada e nunca mais abusada ou difamada por um homem.

E como é bom fazer parte de uma irmandade. Onde podemos nos apoiar, compartilhar nossas dores, rir de situações que só a gente entende e sonhar juntas por um futuro melhor para a nossa classe social. A classe das mulheres e principalmente das trabalhadoras sexuais

Que o evento “Puta Day” repita todo ano e que mais mulheres possam se apoiar. Amei conhecer universos diferentes do meu, amei formar uma nova rede de apoio com quem também é do meio, amei encontrar um lugar seguro para compartilhar o que eu vivo de forma acolhedora e extremamente empática. Amei sentir esse aconchego vindo de uma deliciosa sensação de pertencimento. Acho que enfim encontrei a minha tribo. Fui embora com o coração quentinho, com novas amizades e a certeza de que caminhar junto torna qualquer jornada mais leve.

Que venham os próximos encontros! ❤️