Manifesto Feminino

De repente cheguei aos trinta e me vi mulher.

Passei a me identificar com causas femininas e me deparei com a triste realidade da mulher na sociedade: A mulher objetificada, que é estuprada e desvalorizada. 

E vamos lembrar que eu faço parte de um grupo muito específico: A puta, a garota de programa, a mulher da vida, a PROSTITUTA. Sim, sou tudo isso. Mas também sou a mulher que gera vida (se eu quiser), a que seduz, a que hipnotiza, a que traz alegria pra dentro de uma moradia. 

Ser mulher é viver em ciclos. É habitar fases que mudam nosso corpo, nossa mente e a nossa percepção. TPM, menstruação, gestação… Mas também temos muita sensibilidade e uma forte intuição feminina. Temos um corpo que sangra e que, por muito tempo, foi ensinado a ser visto como sujo, impuro, quando na verdade carregamos criação, consciência e renovação.

Crescemos sendo pressionadas a caber em padrões: belas, jovens, desejáveis. E existe um custo constante para existir como mulher: tempo, dinheiro, energia e adaptação. Historicamente atravessadas por experiências que nos exigiram sermos mais fortes, mas nunca livres demais.

Eu cresci e tomei a consciência de como o mundo pode ser cruel ao se aproveitar de uma mulher. Homens frágeis que não sabem ouvir um não. Ou que se aproveitam da inocência de uma menina em formação, que nos olham por vezes com um desejo nojento, mesmo quando o ambiente não condiz com tal comportamento.

Esses dias eu estava me servindo num restaurante self service dentro de um shopping, e um homem muito mais velho, de traços árabes e asqueroso, me encarou de um jeito invasivo, que me deixou desconfortável. Rapidamente desviei o olhar para deixar claro que eu não estava correspondendo, mas ainda assim, mesmo olhando para o meu prato, enquanto me direcionava a balança, ainda pude sentir o seu olhar sobre mim, enquanto cruzávamos o espaço. Ele estava indo se servir no mesmo estabelecimento também, e fez questão de guardar o seu lugar justamente onde eu acabara de me sentar, mesmo com muitos lugares vagos em torno da gente. Teatralmente colocou sua nécessaire à minha frente e nesse momento marcou presença, me dando um forte: “Boa tarde”, em português, ainda que com os outros dois que estavam com ele, falasse em outro idioma. Forçando uma interação desnecessária com uma estranha, que só estava ali comendo.

Eu, que já tinha percebido seu olhar de interesse anteriormente, nem queria responder ao seu cumprimento, mas fui ensinada a ser educada e lhe devolvi o “Boa tarde”, mesmo que sem vontade. 

Se sentou de frente para mim, no intuito de que rolasse algum contato visual, e para não ter que trocar de lugar e talvez deixar ainda mais claro que me senti invadida, me limitei a comer olhando para o meu prato. Olhei de sorrateiro para o vazio de assentos pela extensão da mesa compartilhada e não compreendi essa inconveniência, dele sentar junto com seus amigos bem no espaço que eu tinha me abrigado.

Sim, eu sou puta. Sim, eu trabalho com sexo. Mas isso não quer dizer que fora do meu contexto de trabalho, eu me sinta confortável com olhares lascivos, numa situação cotidiana.  Não interessa a minha roupa (que nem era sexy ou vulgar), ou a cor do meu batom (que nem era vermelho), nada dá o direito a um homem qualquer achar que tem essa liberdade, de tentar uma proximidade, através de um forçado “Boa tarde”

Sim, eu trabalho com sexo. Mas não é qualquer um que se deita comigo. E o homem sabe quando algo não é para o seu bico, mas ele tenta porque não respeita o nosso espaço.

Frequentemente vejo comentários machistas nos meus vídeos do TikTok, de homens que se acham soberanos por se considerarem “homens de respeito”, enquanto eu sou uma mulher que cobra por algo que eles gostam de ter ou tomar de graça. E antes de serem rudes com qualquer mulher, independente de quem ela seja, ou do que ela faça, deveriam se lembrar de que só estão aqui…

por terem nascido de uma.

6 comentários em “Manifesto Feminino

  1. Texto muito bonito e corajoso, parabéns!

    Eu costumo frequentar fóruns extremamente maxistas, mas de uns anos para cá percebi que a situação piorou muito com esse pessoal red pill. A ignorância e falta do mínimo de educação e respeito pelos outros tem aumentado muito o número de mulheres vítimas de violência de gênero.

    Não vejo um futuro próximo onde isso vai melhorar, mas como homem acho que o meu papel é repreender comportamentos criminosos nesses ambientes virtuais, pra ver se isso cria algum tipo de constrangimento ou se o indivíduo põe a mão na consciência e vê como está errado.

    Nós homens não podemos ser coniventes com esse comportamento criminoso, nos omitindo.

  2. Recatada ou puta todas nós temos os nossos limites desafiados.

    Muitas pessoas pensam que o estupro é um crime de sexo, não é, é um crime de poder. O homem no restaurante exerce poder ao desrespeitar seus claros limites e se deleita no seu desconforto, ele sabe que ele não tem chance de ser correspondido, mas exerce poder sobre o seu conforto, ele sente que ganhou a briga estragando seu dia em vingança ao sentimento de rejeição.

    Em uma situação imaginária em que vc tivesse dado uma risada irônica e dito “bom dia” e sentado em outro lugar, vc teria feito o pesadelo dele se tornar real, ter uma mulher rindo dele.

    Não sei se aconselharia fazer de verdade pois a probabilidade de ele levantar para briga seria alta, mas veja que seria “fácil” botar o dedo na ferida da auto estima de um macho escroto que tem medo de ser humilhado na frente dos amigos.

    A idade infelizmente faz a diferença de gênero pesar muito mais, não só no tratamento de homens sobre mulheres, mas de mulheres para mulheres. Triste.

    1. Adoro seus comentários Titi, sempre com análises muito bem colocadas, trazendo até o que eu mesma não tinha pensado. Em nenhum momento considerei que ele estivesse causando tal desconforto de propósito por vingança da rejeição e sim pq na cabeça fantasiosa dele, fazendo essas coisas, em algum momento fosse dar certo. Como se me vencesse pelo “cansaço”, sei lá. Não que já estivesse consciente da derrota e “me punindo” por isso. Muito interessante, realmente muito mais provável do que a minha própria percepção da situação.

      Realmente se eu tivesse agido da forma como você falou na situação imaginária, teria sido muito mais efetivo, que nem aquele vídeo do porta dos fundos, onde a mulher está passado por uma construção e quando os homens da obra mexem com ela, ela vai até eles e corresponde sendo ainda mais vulgar do que eles, os deixando desconcertados na mesma hora kkkk. Preciso aderir essas estratégias kkkkk. Constranger de volta. Rebater e não me recolher. Mas claro, numa situação em que não houvesse real perigo, pois ali, num lugar público, dentro de um restaurante, não acho que ele faria algo que me colocasse em perigo.

      Mas enfim, adorei demais a sua análise!

  3. “Muito bom o texto! Realmente são situações complicadas essas que você passou. Geralmente, homens de outros países têm uma cultura bem diferente da nossa. O homem árabe, por exemplo, muitas vezes não respeita a mulher quando ela está sozinha.

    Sobre o TikTok, o pessoal lá é mais revoltado e sempre vai ter alguém falando mal. Hoje em dia, com esses grupos ‘Red Pill’, tem muito homem revoltado com as mulheres, mas fique tranquila: nem todos são assim. A mulher é muito importante, e quem trabalha com conteúdo adulto ou sexo merece respeito como qualquer outra.”

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